Levantamento da Caixa Econômica Federal identificou 158 cadernetas de poupança usadas entre 1861 e 1888 por pessoas escravizadas que buscavam alforria, proteção financeira e apoio familiar durante o período final da escravidão no Brasil.
Uma investigação histórica envolvendo a Caixa Econômica Federal trouxe à tona registros financeiros que revelam como pessoas escravizadas tentavam conquistar a liberdade no Brasil do século XIX.
Ao todo, foram identificadas 158 cadernetas de poupança pertencentes a escravizados e libertos entre 1861 e 1888, período marcado pelos últimos anos da escravidão brasileira.
Além disso, os documentos mostram que muitos homens e mulheres acumulavam dinheiro lentamente para comprar a própria alforria ou ajudar familiares ainda submetidos à escravidão.
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Segundo a Caixa, o levantamento foi realizado após uma ação do Ministério Público Federal, em 2025, que cobrou explicações sobre o destino histórico dessas contas bancárias.
Decreto de 1874 mudou o acesso à poupança
Um dos pontos mais importantes dessa trajetória surgiu em 1874, quando o decreto nº 5.594 autorizou pessoas escravizadas a abrirem contas de poupança sem depender da autorização dos senhores.
Com isso, o chamado pecúlio, dinheiro acumulado pelo próprio escravizado, passou a ter proteção jurídica e financeira.
Conforme os registros encontrados, diversos titulares utilizaram os depósitos como estratégia direta para conquistar a liberdade.
Theobaldo, identificado como “pardo”, acumulou mais de 522$300 réis entre 1875 e 1881. Posteriormente, o valor foi utilizado para indenizar seu antigo senhor por meio do Fundo de Emancipação.
Da mesma forma, Custódia realizou depósitos constantes durante cinco anos. Depois disso, retirou o saldo para buscar sua alforria.
Já Joanna, escravizada em Cuiabá, negociou diretamente sua liberdade com José da Silva Rondon, transferindo a ele o direito sobre a caderneta após pagar 600$000 réis, valor registrado oficialmente em sua matrícula.
Famílias também criaram redes financeiras de solidariedade
Além da liberdade individual, as cadernetas mostram estratégias familiares de resistência e apoio financeiro.
A africana liberta Izabel Viegas Muniz, por exemplo, transferiu integralmente seu saldo ao filho Manoel, que ainda permanecia escravizado.
Enquanto isso, Francisco das Chagas e Oliveira abriu uma conta especificamente para reunir recursos destinados à compra da liberdade de sua esposa, Thereza.
Os registros históricos também preservam expressões raciais utilizadas na época, como “crioulo”, “pardo”, “cabra” e “africano”. Mais da metade dos titulares aparece identificada por essas classificações sociais.

Especialistas criticam limitações do levantamento
Apesar da relevância histórica, pesquisadores afirmam que o trabalho da Caixa ainda apresenta lacunas importantes.
Segundo pareceres do pesquisador Thiago Alvarenga e da historiadora Keila Grinberg, o relatório possui falhas metodológicas e cobertura geográfica limitada.
Entre os principais problemas apontados está o foco exclusivo nas cadernetas preservadas. Além disso, os especialistas criticam a ausência dos chamados livros de contas correntes, considerados documentos mais completos para rastrear movimentações financeiras da época.
Outro ponto levantado envolve a concentração regional dos registros. Das 158 cadernetas identificadas, 128 pertencem à antiga província de Mato Grosso, cenário considerado pouco representativo da realidade nacional.
MPF amplia investigação sobre valores e patrimônio histórico
Diante das críticas, o procurador Julio José Araujo Junior determinou novas exigências à Caixa Econômica Federal.
O MPF solicitou informações sobre o número total de livros de contas correntes preservados pela instituição e pediu visitas técnicas do Arquivo Nacional e do IPHAN para avaliar a conservação dos documentos históricos.
A investigação também busca esclarecer se valores abandonados foram incorporados ao patrimônio institucional da Caixa e como ocorria o encerramento dessas contas após a morte dos titulares.
Enquanto isso, o debate acontece em meio ao crescimento das discussões internacionais sobre reparações ligadas à escravidão.
Em 2023, por exemplo, o Banco do Brasil reconheceu publicamente sua responsabilidade histórica relacionada ao período escravista. Ainda assim, o Brasil não possui políticas estruturadas de reparação econômica destinadas aos descendentes da população escravizada.
Diante dessas descobertas, os registros financeiros do século XIX mostram que a liberdade, para milhares de pessoas negras escravizadas, também foi construída por meio de planejamento, resistência e esforço econômico contínuo.
Como cadernetas de poupança esquecidas por mais de um século podem mudar a forma como o Brasil entende a luta pela liberdade antes da Lei Áurea?

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