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Poupança da liberdade: réis acumulados, contas abertas e liberdade negociada: cadernetas de escravizados revelam uma história financeira pouco conhecida do Brasil imperial

Escrito por Viviane Alves
Publicado em 13/05/2026 às 22:56
Atualizado em 13/05/2026 às 22:58
Cena inspirada no século XIX mostra pessoas escravizadas em área rural realizando atividades domésticas enquanto acumulavam recursos para conquistar alforria no Brasil imperial.
Imagem ilustrativa representa o cotidiano de pessoas escravizadas no século XIX, período em que cadernetas de poupança eram usadas para reunir pecúlio e buscar alforria.
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Levantamento da Caixa Econômica Federal identificou 158 cadernetas de poupança usadas entre 1861 e 1888 por pessoas escravizadas que buscavam alforria, proteção financeira e apoio familiar durante o período final da escravidão no Brasil.

Uma investigação histórica envolvendo a Caixa Econômica Federal trouxe à tona registros financeiros que revelam como pessoas escravizadas tentavam conquistar a liberdade no Brasil do século XIX.

Ao todo, foram identificadas 158 cadernetas de poupança pertencentes a escravizados e libertos entre 1861 e 1888, período marcado pelos últimos anos da escravidão brasileira.

Além disso, os documentos mostram que muitos homens e mulheres acumulavam dinheiro lentamente para comprar a própria alforria ou ajudar familiares ainda submetidos à escravidão.

Segundo a Caixa, o levantamento foi realizado após uma ação do Ministério Público Federal, em 2025, que cobrou explicações sobre o destino histórico dessas contas bancárias.

Decreto de 1874 mudou o acesso à poupança

Um dos pontos mais importantes dessa trajetória surgiu em 1874, quando o decreto nº 5.594 autorizou pessoas escravizadas a abrirem contas de poupança sem depender da autorização dos senhores.

Com isso, o chamado pecúlio, dinheiro acumulado pelo próprio escravizado, passou a ter proteção jurídica e financeira.

Conforme os registros encontrados, diversos titulares utilizaram os depósitos como estratégia direta para conquistar a liberdade.

Theobaldo, identificado como “pardo”, acumulou mais de 522$300 réis entre 1875 e 1881. Posteriormente, o valor foi utilizado para indenizar seu antigo senhor por meio do Fundo de Emancipação.

Da mesma forma, Custódia realizou depósitos constantes durante cinco anos. Depois disso, retirou o saldo para buscar sua alforria.

Já Joanna, escravizada em Cuiabá, negociou diretamente sua liberdade com José da Silva Rondon, transferindo a ele o direito sobre a caderneta após pagar 600$000 réis, valor registrado oficialmente em sua matrícula.

Famílias também criaram redes financeiras de solidariedade

Além da liberdade individual, as cadernetas mostram estratégias familiares de resistência e apoio financeiro.

A africana liberta Izabel Viegas Muniz, por exemplo, transferiu integralmente seu saldo ao filho Manoel, que ainda permanecia escravizado.

Enquanto isso, Francisco das Chagas e Oliveira abriu uma conta especificamente para reunir recursos destinados à compra da liberdade de sua esposa, Thereza.

Os registros históricos também preservam expressões raciais utilizadas na época, como “crioulo”, “pardo”, “cabra” e “africano”. Mais da metade dos titulares aparece identificada por essas classificações sociais.

Cartas de alforria usadas para dar liberdade aos escravos de Sorocaba.

Especialistas criticam limitações do levantamento

Apesar da relevância histórica, pesquisadores afirmam que o trabalho da Caixa ainda apresenta lacunas importantes.

Segundo pareceres do pesquisador Thiago Alvarenga e da historiadora Keila Grinberg, o relatório possui falhas metodológicas e cobertura geográfica limitada.

Entre os principais problemas apontados está o foco exclusivo nas cadernetas preservadas. Além disso, os especialistas criticam a ausência dos chamados livros de contas correntes, considerados documentos mais completos para rastrear movimentações financeiras da época.

Outro ponto levantado envolve a concentração regional dos registros. Das 158 cadernetas identificadas, 128 pertencem à antiga província de Mato Grosso, cenário considerado pouco representativo da realidade nacional.

MPF amplia investigação sobre valores e patrimônio histórico

Diante das críticas, o procurador Julio José Araujo Junior determinou novas exigências à Caixa Econômica Federal.

O MPF solicitou informações sobre o número total de livros de contas correntes preservados pela instituição e pediu visitas técnicas do Arquivo Nacional e do IPHAN para avaliar a conservação dos documentos históricos.

A investigação também busca esclarecer se valores abandonados foram incorporados ao patrimônio institucional da Caixa e como ocorria o encerramento dessas contas após a morte dos titulares.

Enquanto isso, o debate acontece em meio ao crescimento das discussões internacionais sobre reparações ligadas à escravidão.

Em 2023, por exemplo, o Banco do Brasil reconheceu publicamente sua responsabilidade histórica relacionada ao período escravista. Ainda assim, o Brasil não possui políticas estruturadas de reparação econômica destinadas aos descendentes da população escravizada.

Diante dessas descobertas, os registros financeiros do século XIX mostram que a liberdade, para milhares de pessoas negras escravizadas, também foi construída por meio de planejamento, resistência e esforço econômico contínuo.

Como cadernetas de poupança esquecidas por mais de um século podem mudar a forma como o Brasil entende a luta pela liberdade antes da Lei Áurea?


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Viviane Alves

Redatora com foco na produção de conteúdos estratégicos voltados para macro e microeconomia, geopolítica, mercado energético, setor automotivo e comércio global.

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