A missão conjunta com a Noruega envolveu fragatas, helicópteros Merlin e Wildcat, aviões de patrulha P8 e centenas de militares que rastrearam três embarcações russas até que todas recuassem em direção ao norte
O governo do Reino Unido quebrou o silêncio nesta quinta-feira (9) e revelou uma operação militar que ficou em segredo por semanas. De acordo com o Ministério da Defesa britânico, forças armadas do país, em conjunto com a Noruega, monitoraram por mais de um mês um submarino de ataque russo e dois submarinos espiões que operavam perto de cabos submarinos e dutos de energia no norte das ilhas britânicas.
O secretário de Defesa do Reino Unido, John Healey, foi direto na coletiva de imprensa ao mandar um recado a Moscou. Segundo a agência Associated Press, Healey afirmou que “nós vemos sua atividade sobre nossos cabos e nossos dutos, e vocês devem saber que qualquer tentativa de danificá-los não será tolerada e terá consequências graves.”
E o mais preocupante é que essa não foi uma ação isolada.
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O que um submarino russo fazia tão perto do Reino Unido?

Segundo o Ministério da Defesa britânico, o destacamento russo era composto por um submarino da classe Akula, que é um modelo de ataque com propulsão nuclear, e dois submarinos especializados do GUGI, o Diretório Principal de Investigação em Águas Profundas de Moscou. Essa unidade é conhecida por conduzir operações de espionagem submarina e mapeamento de infraestrutura crítica no fundo do mar.
A estratégia russa, segundo Londres, era usar o submarino de ataque como distração. Enquanto o Akula chamava a atenção das forças britânicas, os dois submarinos do GUGI realizavam tarefas de reconhecimento sobre cabos de fibra óptica e sistemas de energia que cortam o fundo do Atlântico Norte. Esses cabos transportam a maior parte do tráfego internacional de dados entre a Europa e o restante do mundo, e qualquer dano a eles teria consequências enormes para comunicações civis e militares de vários países da OTAN.
Mas como o Reino Unido descobriu a operação?
Como o Reino Unido e a Noruega conseguiram flagrar os submarinos?

A operação foi conduzida em parceria com a Noruega, que assinou um acordo de defesa com o Reino Unido para ampliar a cooperação no monitoramento de ameaças submarinas na região.
Do lado britânico, o Ministério da Defesa mobilizou a fragata HMS St Albans, o navio logístico RFA Tidespring, helicópteros Merlin e Wildcat, e aviões de patrulha marítima RAF P8. Os aviões utilizaram sonoboias para localizar com precisão as posições das embarcações russas nas profundezas do Atlântico. Além disso, as fragatas HMS Somerset e HMS Mersey, junto com o navio tanque RFA Tideforce, acompanharam os movimentos de navios de guerra russos em áreas estratégicas como o Canal da Mancha e o Mar do Norte.
Segundo o Diário do Grande ABC, que reproduziu a reportagem da Associated Press, as embarcações russas acabaram se retirando em direção ao norte após a operação, sem conseguir causar danos à infraestrutura submarina monitorada.
Só que o problema é maior do que parece.
Por que a Rússia está mirando cabos no fundo do oceano?
Aqui entra um dado que pouca gente conhece: mais de 95% de todos os dados internacionais entre continentes passam por cabos de fibra óptica no fundo do mar. Estamos falando de comunicações governamentais, transações financeiras, serviços de internet e até sistemas de defesa de países inteiros da OTAN. Cortar um desses cabos não é só derrubar a internet de alguém. É paralisar a infraestrutura de um país.
Nos últimos dois anos, autoridades europeias registraram um aumento significativo da atividade naval russa em regiões próximas a cabos e dutos submarinos. Incidentes no Mar Báltico, incluindo danos a gasodutos e cabos de telecomunicações, já levantaram suspeitas sobre o envolvimento de Moscou. A operação revelada hoje pelo Reino Unido reforça que a guerra submarina, discreta e longe dos holofotes, se tornou uma das principais frentes do confronto entre a Rússia e o Ocidente.
E essa tensão vem crescendo há meses.
O que já havia acontecido antes dessa operação?
Em novembro de 2025, o próprio John Healey denunciou publicamente que o navio espião russo Yantar havia entrado em águas britânicas ao norte da Escócia e direcionado lasers contra pilotos da RAF que monitoravam seus movimentos. Na ocasião, segundo a CNN Brasil, Healey afirmou que o governo havia mudado as regras de engajamento da Marinha para permitir um acompanhamento mais próximo das atividades russas.
No final de março de 2026, o Reino Unido anunciou que suas forças armadas estavam autorizadas a apreender navios suspeitos de integrar a chamada “frota fantasma” da Rússia, formada por embarcações que transportam petróleo em violação às sanções internacionais impostas por causa da guerra na Ucrânia. Segundo Londres, cerca de 75% do petróleo bruto russo é transportado por essa rede, sobre a qual o Reino Unido já impôs sanções a 544 embarcações.
John Healey também fez questão de deixar claro que a atenção do Reino Unido não está dividida. Segundo ele, “Putin gostaria que nos distraíssemos com o Oriente Médio”, mas a Rússia continua sendo a principal ameaça à segurança do país e de seus aliados na OTAN.
Mas o que Moscou tem a dizer sobre tudo isso?
O que a Rússia respondeu?
O Kremlin se pronunciou nesta quinta-feira por meio de seu porta-voz, Dmitri Peskov, que confirmou que um navio da Marinha Russa escoltou petroleiros da “frota fantasma” ao passarem por águas britânicas. Peskov afirmou, conforme reportado pelo jornal espanhol El Español, que “a Rússia se considera no direito de defender seus interesses e sem falta tomará medidas para fazê-lo.” O porta-voz também acusou o Reino Unido de cometer “reiterados atos de pirataria em águas internacionais” que afetam a capacidade econômica russa.
O que o Reino Unido vai fazer agora?
O governo britânico não ficou só nas palavras. Londres anunciou que vai destinar 100 milhões de libras adicionais para reforçar a frota de aviões de patrulha P8 e lançou o programa Atlantic Bastion, focado em sistemas autônomos e sensores de última geração para proteger a infraestrutura crítica no fundo do oceano.
A mensagem que fica é clara: o fundo do Atlântico se tornou um campo de batalha silencioso, e o Reino Unido está dizendo para a Rússia, e para o mundo, que não pretende ficar assistindo de longe.
Com informações da Associated Press, Ministério da Defesa do Reino Unido, CNN Brasil, Diário do Grande ABC e El Español.

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