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Ex-mendigo do sertão da Paraíba juntou R$ 450 em chapas de aço e construiu o Camarão Móvel, um carro artesanal com motor de moto 125 cc capaz de chegar a 80 km/h, montado praticamente do zero com ferramentas simples e peças reaproveitadas

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 11/03/2026 às 09:52
Assista o vídeoSem dinheiro e sem ferramentas, um ex-mendigo paraibano juntou por quatro meses R$ 450, comprou chapas de aço enquanto todos riam e diziam que ele estava louco e construiu sozinho, com martelo e talhadeira, um carro artesanal que chegou a 80 km/h na rodovia
Foto: Reprodução
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Ex-mendigo do sertão da Paraíba juntou R$ 450 em chapas de aço e construiu sozinho o Camarão Móvel, um carro artesanal com motor de moto que chega a 80 km/h.

Orismar de Souza tinha 9 anos quando começou a construir seus primeiros carrinhos no sítio da família, em Cajazeiras, no sertão da Paraíba. As miniaturas não eram brinquedos comprados, mas pequenos veículos feitos com latinhas de óleo usadas na cozinha, moldadas manualmente até ganhar rodas e carroceria. O processo era simples, mas revelava uma habilidade incomum para trabalhar com metal. Orismar dobrava as chapas com as mãos e ia ajustando cada peça até dar forma aos carrinhos. Com o tempo, os modelos passaram a chamar a atenção dos vizinhos.

Um gostou. Depois outro. Em pouco tempo, ele já produzia vários carrinhos e começou a trocar as peças artesanais por ovos, galinhas e roupas, criando uma pequena rede de trocas na região rural onde vivia. A família percebeu o talento do garoto e decidiu comprar uma pequena latinha de tinta para que ele pudesse pintar as criações. Naquele momento, o que parecia apenas uma brincadeira com latas recicladas já mostrava algo maior: a capacidade de transformar metal descartado em veículos funcionais — habilidade que, décadas depois, levaria Orismar a construir um carro real no sertão da Paraíba.

A trajetória de Orismar de Souza das ruas ao sonho de construir um carro

A infância no sítio não seguiu o caminho tranquilo que os pais imaginavam. Em determinado momento da vida, Orismar acabou indo parar nas ruas.

As fontes que contam sua história não detalham exatamente o que aconteceu nesse período. O próprio Orismar raramente fala sobre essa fase com profundidade. O que aparece em praticamente todas as reportagens sobre ele é um fato marcante: quando construiu seu carro artesanal, era conhecido como ex-mendigo. Apesar das dificuldades, uma paixão da infância permaneceu: os carros.

Aos 17 anos, enquanto caminhava pela cidade de São José de Piranhas, no sertão paraibano, ele viu um homem com deficiência física dirigindo um carro adaptado. Parou para observar o veículo e teve um pensamento que mudaria sua vida. Ele decidiu que construiria o próprio carro.

Não havia curso técnico, manual ou dinheiro para isso. Havia apenas a memória das latinhas dobradas na infância e a convicção de que metal pode ser moldado com paciência e trabalho.

Como Orismar juntou dinheiro para construir um carro artesanal

O primeiro desafio era conseguir material para construir o carro. Orismar precisava de chapas de aço para montar a carroceria, mas não tinha dinheiro para comprar o metal. Para resolver o problema, começou a aceitar qualquer trabalho que aparecesse. Fez bicos como faxineiro e também trabalhou cortando cana. Ao mesmo tempo, passou a economizar praticamente tudo que ganhava.

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Durante esse período ele conta que chegou a passar dificuldades para se alimentar adequadamente, porque guardava cada centavo possível. Depois de quatro meses, conseguiu juntar R$ 450.

Com o dinheiro no bolso, foi até uma loja comprar chapas de aço. Ao chegar ao local, viu um homem montando um portão metálico e perguntou onde poderia comprar aquele material. Quando explicou que pretendia construir um carro, ouviu risadas.

“Ninguém acreditava. Todo mundo ria de mim. Fui muito humilhado por isso”, contou em entrevistas.

Mesmo assim, ele seguiu em frente. As ferramentas vieram de um vizinho que acreditou no projeto e decidiu ajudar: um martelo e uma talhadeira. Foram essas duas ferramentas simples que deram início à construção do carro.

O desafio técnico de trabalhar com chapas de aço sem experiência

O primeiro obstáculo técnico apareceu logo no início. Quando Orismar começou a cortar as chapas de aço com a talhadeira, percebeu que o metal parecia perder rigidez e deformar de maneira inesperada.

Sem conhecimento técnico sobre o comportamento do material, ele acreditou inicialmente que havia estragado o aço.

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“Comecei a cortar o aço com a talhadeira e o aço foi ficando mole. Não sabia mexer com isso e me assustei”, relatou.

Mais tarde ele percebeu que, ao dobrar as peças, o metal voltava a ganhar rigidez. Hoje sabe-se que o fenômeno está relacionado ao comportamento do aço durante o corte e a deformação mecânica, algo comum em processos de trabalho com chapas metálicas. Sem formação técnica e sem acesso a manuais, Orismar aprendeu tudo na prática.

Motor de motocicleta e peças reaproveitadas: como nasceu o Camarão Móvel

Para conseguir um motor, Orismar começou a visitar oficinas mecânicas da região pedindo peças descartadas. Depois de algum tempo encontrou um motor de motocicleta de 125 cc que poderia ser reaproveitado.

Outras partes do carro vieram de sucata ou de peças abandonadas. A ignição inicial funcionava de forma semelhante à de uma motocicleta, com partida por pedal na parte traseira do veículo.

Meses depois ele conseguiu adaptar um sistema de ignição por chave e instalou também um câmbio com marcha à ré, melhorando o funcionamento do carro.

Camarão Móvel: o carro artesanal construído no sertão da Paraíba

Em dezembro de 2010, depois de mais de um ano de trabalho, o carro ficou pronto. O nome escolhido foi Camarão Móvel. O apelido “Camarão” já era usado pelos moradores de São José de Piranhas para se referir a Orismar. O restante do nome veio do fato mais importante: o veículo realmente se movia.

O carro tem carroceria feita com chapas de aço moldadas manualmente, motor de motocicleta de 125 cc e capacidade para duas pessoas.

Sem dinheiro e sem ferramentas, um ex-mendigo paraibano juntou por quatro meses R$ 450, comprou chapas de aço enquanto todos riam e diziam que ele estava louco e construiu sozinho, com martelo e talhadeira, um carro artesanal que chegou a 80 km/h na rodovia
Foto: Divulgação

Segundo o próprio Orismar, o veículo pode atingir até 80 km/h no asfalto. Mesmo assim, ele prefere dirigir a cerca de 40 km/h, principalmente nas estradas de barro da região.

O carro não possui placa, documentação ou registro oficial. Apesar disso, o veículo acabou se tornando conhecido na cidade.

“Quando ando na rua é aquela festa. Muita gente tira foto”, contou.

Quanto custou construir o Camarão Móvel

O custo total da construção impressiona. Orismar gastou R$ 450 na compra das chapas de aço. As demais peças foram obtidas gratuitamente em oficinas ou em sucata.

Em 2010, o carro popular mais barato vendido no Brasil custava cerca de R$ 25.000. Isso significa que o Camarão Móvel foi construído por menos de 2% do valor de um carro popular da época.

O problema da legalização de um carro construído artesanalmente

Com a repercussão da história surgiram também preocupações. Orismar sabia que o Camarão Móvel não poderia circular legalmente nas ruas, já que o veículo não possui placa, licenciamento, registro no DETRAN ou certificação técnica. O próprio Orismar também não possuía carteira de habilitação na época.

“Nunca andei em alta velocidade. Nem com a moto e nem com o carro. Meus pais me ensinaram a andar corretamente”, afirmou em entrevistas.

Seu sonho declarado era tirar a CNH e, se possível, conseguir algum tipo de regularização para o veículo. A legislação brasileira até permite a construção artesanal de veículos, mas exige aprovação técnica do DENATRAN e laudos do INMETRO, um processo complexo e caro.

Para alguém que teve apenas R$ 450 para construir o carro, esse caminho se torna praticamente impossível.

O sertão nordestino e a tradição de inventores autodidatas

A história de Orismar de Souza também reflete uma característica cultural do interior nordestino. No sertão, muitas soluções surgem da necessidade.

Sistemas de irrigação improvisados, carroças adaptadas, máquinas agrícolas feitas à mão e pequenos geradores são exemplos de invenções criadas por moradores que precisam resolver problemas sem acesso a equipamentos industriais.

Essa realidade ajudou a formar gerações de mecânicos e construtores autodidatas em estados como Paraíba, Pernambuco e Ceará. O que torna a história de Orismar diferente não é apenas a criatividade técnica.

Sem dinheiro e sem ferramentas, um ex-mendigo paraibano juntou por quatro meses R$ 450, comprou chapas de aço enquanto todos riam e diziam que ele estava louco e construiu sozinho, com martelo e talhadeira, um carro artesanal que chegou a 80 km/h na rodovia
Foto: Reprodução

Construir um veículo motorizado funcional do zero, usando apenas um martelo e uma talhadeira, já seria um feito impressionante. Mas o que realmente chama atenção é sua trajetória.

Orismar começou a vida fazendo carrinhos de lata para ajudar a família no sítio. Passou por dificuldades nas ruas e, anos depois, voltou ao sertão com a ideia aparentemente impossível de construir um carro sozinho. O resultado foi um veículo que realmente funciona e que se tornou conhecido em sua cidade.

Tudo isso com R$ 450 em chapas de aço e duas ferramentas simples.

Um carro feito à mão em um país onde veículos custam mais de R$ 80 mil

No Brasil atual, um carro zero-quilômetro de entrada pode ultrapassar R$ 80.000. Nesse contexto, a história do Camarão Móvel acaba funcionando como um contraste curioso. O carro de Orismar não tem airbag, não tem ABS e não possui nenhuma das tecnologias presentes nos veículos modernos.

Mas tem quatro rodas, um motor funcionando e uma carroceria construída manualmente no sertão da Paraíba. Tudo feito por alguém que ouviu durante muito tempo que aquilo era impossível.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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