Caso de racismo alimentar em universidade dos EUA termina com indenização a estudantes indianos após denúncias de discriminação cultural.
Uma denúncia de racismo alimentar envolvendo o aquecimento de um prato típico indiano terminou em um acordo judicial de cerca de R$ 1 milhão nos Estados Unidos.
O caso envolve os estudantes indianos Aditya Prakash e Urmi Bhattacheryya, que acusaram a Universidade do Colorado Boulder, uma universidade dos Estados Unidos, de discriminação cultural, microagressões raciais e retaliação acadêmica.
O episódio começou em 2023, no campus da instituição, e ganhou repercussão internacional em 2025 ao reacender o debate sobre preconceito relacionado à comida e identidade cultural.
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Um almoço comum que virou denúncia de racismo alimentar
O estopim do conflito ocorreu quando Aditya Prakash, doutorando em Antropologia, tentou esquentar seu almoço em um micro-ondas da universidade.
O prato era palak paneer, uma comida tradicional do norte da Índia feita à base de espinafre e queijo fresco.
Segundo o processo judicial, um funcionário do campus afirmou que a comida exalava um odor “pungente” e que havia uma suposta regra proibindo o aquecimento de alimentos com cheiro forte.
No entanto, essa norma não estava documentada em local algum.
Ao questionar quais alimentos seriam considerados inadequados, Prakash recebeu a resposta de que sanduíches eram aceitáveis, mas curry não.
Para os estudantes, a diferenciação evidenciou microagressões raciais associadas à cultura alimentar indiana.
Microagressões raciais e retaliação acadêmica
Após o episódio do micro-ondas, o casal afirma que a situação se agravou rapidamente.
De acordo com a ação judicial, ambos passaram a sofrer uma sequência de punições informais dentro da instituição.
Então entre as consequências relatadas estão a perda de financiamento de pesquisa, afastamento de atividades docentes e até a ruptura com orientadores acadêmicos.
Urmi Bhattacheryya, que também cursava doutorado, afirma que as decisões ocorreram sem justificativas claras.
Então em maio de 2025, diante do que classificaram como um “padrão crescente de retaliação”, os estudantes decidiram recorrer à Justiça, denunciando discriminação sistemática dentro da universidade dos Estados Unidos.
Acordo milionário e posicionamento da universidade
Então em setembro de 2025, a Universidade do Colorado Boulder fechou um acordo extrajudicial no valor de US$ 200 mil.
A instituição concordou em conceder os diplomas aos estudantes, mas negou qualquer responsabilidade legal.
Então em nota enviada à BBC, a universidade afirmou que está comprometida em manter um ambiente inclusivo e que leva denúncias de discriminação a sério.
Também informou que o Departamento de Antropologia iniciou iniciativas para reconstruir a confiança entre alunos, professores e funcionários.
Apesar disso, os termos do acordo impedem Prakash e Bhattacheryya de voltar a estudar ou trabalhar na instituição no futuro.
Debate global sobre discriminação cultural e comida
Assim, a repercussão do caso ultrapassou os limites do campus universitário.
Na Índia, a história teve ampla cobertura da imprensa e provocou discussões sobre racismo alimentar em países ocidentais.
Nas redes sociais, diversos indianos relataram experiências semelhantes de constrangimento por causa de seus hábitos alimentares.
Muitos destacaram que a comida é frequentemente usada como ferramenta de exclusão e estigmatização cultural.
Paradoxalmente, internautas também apontaram que a discriminação cultural relacionada à alimentação existe dentro da própria Índia, especialmente contra minorias regionais e grupos de castas desfavorecidas.
“Voltem para a Índia”: ataques e hostilidade online
Urmi Bhattacheryya relata que, ao tornar pública a denúncia, passou a receber ataques racistas nas redes sociais.
Entre os comentários estavam frases como “Voltem para a Índia” e insinuações ofensivas sobre higiene.
Então segundo ela, esse tipo de discurso reforça como microagressões raciais podem evoluir para ataques diretos, especialmente quando envolvem identidade cultural e imigração.
Prakash afirma que a comida, historicamente, sempre foi usada como símbolo de inferiorização.
“A palavra ‘curry’ virou um termo pejorativo associado ao cheiro de comunidades marginalizadas”, declarou.
Retorno à Índia e ruptura com os EUA
Após o encerramento do processo, o casal retornou à Índia.
Assim, ambos afirmam que não pretendem voltar aos Estados Unidos, citando a sensação constante de precariedade vivida por imigrantes.
“Não importa o quanto você seja qualificado.
O sistema sempre lembra que você pode ser mandado embora a qualquer momento”, disse Prakash.
O caso segue como um exemplo emblemático de como racismo alimentar, quando ignorado, pode se transformar em um conflito institucional de grandes proporções — e em um debate global sobre respeito, diversidade e inclusão.
Veja mais em: O casal que ganhou indenização de mais de R$ 1 milhão por ‘racismo alimentar’ nos EUA | G1

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