Nascida em Itajobi e hoje sediada em Catanduva, a Animativa passou de uma pequena tipografia de jornal a uma potência da papelaria que soma mais de 800 produtos, atende 7.500 clientes pelo Brasil e projeta crescer de novo com licenças, cadernos sensoriais e o primeiro quiosque próprio
Poucos adolescentes que hoje disputam um caderno perfumado da Turma da Mônica imaginam que aquela marca começou, mais de oitenta anos atrás, imprimindo um jornal numa cidadezinha do interior paulista. Em 1944, na pequena Itajobi, quatro irmãos, José, Antônio, Pedro e Octacílio Boso, apostaram numa tipografia para rodar impressos, jornais e certidões. Era o embrião do que viraria uma das maiores fábricas de papelaria do país.
Segundo a Exame, a Animativa faturou R$ 210 milhões no período de março de 2025 a março de 2026, um crescimento de 13% sobre o ano anterior, sem deixar de ser um negócio tocado pela família dos fundadores. A trajetória, do prelo de jornal ao caderno objeto de desejo, é um retrato de como uma empresa brasileira de interior se reinventa sem trair a própria origem.
Do jornal de Itajobi aos cadernos escolares
A história tem a cara do empreendedorismo do interior: começa pequena e cresce no trabalho. Fundada em 1944 para imprimir um jornal local, a empresa foi transferida para Catanduva, também no interior de São Paulo, e ampliou a atuação para impressos padronizados, livros e certidões ao longo das décadas seguintes.
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A virada de rumo veio nos anos 1980, quando a companhia entrou no segmento escolar e passou a produzir cadernos e agendas, o coração do negócio até hoje. Foi a decisão que tirou a empresa do nicho de impressos sob demanda e a colocou num mercado de milhões de estudantes que, todo ano, trocam de material. A partir dali, o nome Animativa passou a viajar nas mochilas Brasil afora.
O caderno que virou objeto de desejo

O grande salto recente não foi de máquina, foi de percepção. A Animativa entendeu que caderno deixou de ser só papel pautado e virou item de identidade e de coleção para o público jovem. A empresa apostou na chamada inovação sensorial, com cadernos decorados e perfumados, e fechou licenças de marcas amadas por crianças e adolescentes, como Turma da Mônica, Disney, Moranguinho, Manual do Mundo e Care Bears.
O efeito é o de transformar um produto barato e comum numa peça de desejo, com giro rápido e margem melhor. Segundo o Mundo do Marketing, a estratégia é justamente virar marca de desejo na papelaria, e não apenas mais uma fornecedora de caderno. É o mesmo movimento que fez tênis, garrafa térmica e caneta virarem objeto de status: agregar história, licença e sensação a um item de prateleira.
R$ 210 milhões, 800 produtos e 7.500 clientes
Por trás do apelo bonito das capas, há uma operação industrial de peso. De acordo com o Mundo do Marketing, o portfólio da Animativa soma mais de 800 produtos diferentes, e a empresa atende cerca de 7.500 clientes ativos no país por meio de mais de 60 representantes comerciais, num modelo de venda para redes, atacadistas e papelarias independentes.
É um negócio de escala, construído no B2B, que abastece a ponta sem depender de uma única loja. O faturamento de R$ 210 milhões vem justamente dessa capilaridade: um caderno de cada vez, multiplicado por milhares de pontos de venda. E a companhia não quer parar por aí. Segundo o Mundo do Marketing, a Animativa projeta um crescimento entre 15% e 20%, aposta puxada pelas linhas licenciadas e pelos produtos de maior valor agregado.
A virada da gestão familiar

Manter uma empresa viva por oito décadas exige mais do que tradição. A Animativa passou, entre 2020 e 2021, por uma reestruturação para profissionalizar a gestão, com a chegada do CEO Djalma Nunes, mantendo a família dos fundadores no comando estratégico e nos valores do negócio. Foi a forma de casar a experiência de quem construiu a marca com a régua de gestão que um faturamento de centenas de milhões exige.
Nesse novo ciclo, a empresa também começou a testar a venda direta ao consumidor. A Animativa abriu seu primeiro quiosque próprio, no Iguatemi Shopping de São José do Rio Preto, como um laboratório para entender o cliente final de perto. “O quiosque nasceu como um laboratório de marca e comportamento de consumo. Ele nos permite testar produtos, precificação, giro e percepção de valor em tempo real”, afirmou o CEO Djalma Nunes à Exame.
Por que uma papelaria de 80 anos ainda cresce
Num tempo de telas e cadernos digitais, muita gente aposta que o papel está morrendo. A Animativa mostra o contrário: o material escolar físico segue movimentando bilhões no Brasil todo ano, e quem transforma o caderno comum em item de coleção e de marca consegue crescer mesmo num mercado que parecia maduro e sem novidade. A chave é entender que o consumidor jovem não compra só papel, compra pertencimento, personagem e sensação.
É por isso que licença e inovação sensorial pesam tanto. Um caderno da Turma da Mônica ou da Disney não concorre por preço, concorre por afeto, e afeto sustenta margem. A trajetória da empresa mostra que reinvenção não é abandonar o que se faz, é dar um novo significado ao mesmo produto de sempre, ano após ano, geração após geração.
O que essa história diz sobre empreender no interior do Brasil
A Animativa é um lembrete de que império não nasce só em capital com investidor de risco. Uma família do interior paulista pegou uma tipografia de jornal de 1944, atravessou oitenta anos de mudanças, entrou no caderno escolar nos anos 1980 e hoje comanda uma operação de R$ 210 milhões que enche mochila de estudante em todo o Brasil. No fim, a lição é simples: paciência de longo prazo, um produto que todo mundo usa e a coragem de dar cara nova ao velho.
Enquanto muitos negócios de família se perdem na terceira geração, os Boso profissionalizaram a gestão sem entregar a alma da empresa.
Conta pra gente nos comentários: qual caderno marcou a sua infância, e você pagaria mais caro por um perfumado do seu personagem favorito?
