Oceanos bateram novo recorde de calor em 2025, acumulando 23 zettajoules acima de 2024. Estudo mostra por que o oceano é o principal termômetro do clima global.
Existe um número que resume o estado do clima da Terra melhor do que qualquer temperatura de superfície, qualquer nível de CO₂ ou qualquer recorde de calor registrado em alguma cidade. É um número tão grande que os cientistas que o calculam precisam recorrer a uma unidade de medida que a maioria das pessoas jamais ouviu mencionar. E esse número voltou a subir em 2025, marcando o nono ano consecutivo de recorde global de calor oceânico. Esse número é o conteúdo de calor oceânico, ou ocean heat content (OHC): a quantidade total de energia térmica armazenada nos primeiros 2.000 metros das águas do planeta. Em 2025, os oceanos acumularam cerca de 23 zettajoules a mais do que em 2024, segundo o estudo publicado em janeiro de 2026 na revista Advances in Atmospheric Sciences. O trabalho reuniu dezenas de autores de vários países e foi liderado por pesquisadores ligados ao Instituto de Física da Atmosfera da Academia Chinesa de Ciências.
Um zettajoule é um sextilhão de joules, ou 10²¹ joules. Para dar uma escala concreta, a energia liberada pela bomba lançada sobre Hiroshima costuma ser estimada em algo como 63 trilhões de joules. Isso significa que um único zettajoule equivale à energia de mais de 15 milhões de bombas de Hiroshima. Quando o número anual de ganho de calor oceânico chega a 23 zettajoules, o que está sendo descrito não é um detalhe técnico de um relatório científico. É uma alteração gigantesca no balanço energético do planeta.
Vinte e três zettajoules. Acumulados em um único ano. No oceano.
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O que é conteúdo de calor oceânico e por que esse número importa mais que a temperatura do ar
O motivo de os climatologistas tratarem o conteúdo de calor oceânico como um indicador central é simples: ele mede a maior parte do excesso de energia que está sendo retido pelo sistema climático da Terra.
Os oceanos armazenam cerca de 90% do calor adicional aprisionado pelo desequilíbrio energético do planeta, enquanto a atmosfera guarda apenas uma pequena fração desse excesso. Por isso, olhar apenas para a temperatura do ar na superfície é observar a parte mais visível, mas não a mais volumosa, da mudança climática.
A temperatura do ar, apesar de importante, é muito mais sensível a oscilações de curto prazo. Ela sobe e desce com El Niño e La Niña, com bloqueios atmosféricos regionais, com massas de ar, com secas ou com semanas de calor intenso em áreas específicas.
O oceano, ao contrário, funciona como um enorme reservatório térmico. Ele integra a energia que entrou no sistema climático e permaneceu ali. É por isso que cientistas frequentemente descrevem o conteúdo de calor oceânico como uma medida mais robusta da trajetória do aquecimento global.
Em 2025, o dado traz um contraste revelador. A temperatura média global da superfície do mar ficou abaixo da de 2024, em parte porque as condições climáticas evoluíram em direção à La Niña. Ainda assim, o conteúdo de calor nos primeiros 2.000 metros do oceano bateu novo recorde.
Em outras palavras: mesmo quando a superfície perde um pouco de intensidade relativa por causa da variabilidade natural, o oceano em profundidade continua acumulando energia. Isso é exatamente o tipo de sinal que diferencia variabilidade de curto prazo de mudança climática de longo prazo.
O número que os cientistas traduzem em bombas de Hiroshima para o cérebro humano conseguir entender
O problema dos zettajoules é que eles escapam completamente da intuição humana. O cérebro não foi feito para processar um sextilhão de joules. Por isso, os pesquisadores que trabalham com esse tema recorrem com frequência a analogias energéticas.
Não porque a comparação seja sensacionalista, mas porque sem ela a escala física do fenômeno simplesmente não é assimilável.
No estudo referente a 2024, os autores já haviam estimado um acréscimo de 16 zettajoules em relação a 2023, também confirmado por outros conjuntos de dados. Naquele contexto, coautores do trabalho explicaram o ganho anual de energia como algo equivalente a cerca de 12 bombas de Hiroshima por segundo ao longo do ano inteiro.
Em 2025, o valor ficou ainda acima disso: foram aproximadamente 23 zettajoules adicionais em relação a 2024, segundo a estimativa do conjunto IAP/CAS, com confirmação por outros bancos independentes, como CIGAR-RT e Copernicus Marine. Isso significa que a analogia de 12 bombas por segundo, já usada para dar dimensão ao aquecimento recente, torna-se conservadora diante do ganho observado em 2025.
É esse o ponto central: a maior parte do calor adicional que a humanidade está forçando o sistema climático a reter não aparece diretamente no termômetro da varanda, nem no aplicativo do celular, nem no calor de uma única tarde. Ele está sendo enterrado no oceano, distribuído por centenas e milhares de metros de profundidade, alterando o funcionamento físico do planeta sem produzir um equivalente visual simples para o cotidiano humano.
Por que o oceano é o termômetro real do planeta
Há uma razão física para o oceano responder pelo diagnóstico mais sólido do aquecimento global. A água tem grande capacidade térmica.
Ela consegue absorver enormes quantidades de energia com variações relativamente menores de temperatura quando comparada ao ar. Como os oceanos cobrem cerca de 70% da superfície terrestre, eles se tornam o principal depósito do calor extra gerado pela intensificação do efeito estufa.
Essa energia não fica parada. O oceano redistribui calor no espaço e no tempo. Ele transfere energia para a atmosfera, influencia padrões de chuva, modula a formação de tempestades, controla parte do regime de secas e enchentes e altera a circulação em larga escala. O que acontece no oceano, portanto, não é uma curiosidade oceanográfica isolada. É um componente central do clima continental, agrícola, energético e humano.
Foi nesse sentido que pesquisadores ligados a essa linha de estudos resumiram a mensagem dos relatórios anuais: para saber o que está acontecendo com o clima do planeta, a resposta está no oceano. O oceano é onde o sistema climático registra, com menor ruído e maior inércia, a assinatura energética do aquecimento global.
E o oceano, por essa medida, vem dizendo a mesma coisa há nove anos seguidos: o calor continua aumentando.
Nove anos seguidos de recorde de calor oceânico mudam o significado do dado de 2025
O número de 2025 é impressionante por si só, mas o que o torna qualitativamente mais grave é a sequência histórica. O aquecimento oceânico não bateu recorde apenas uma vez por causa de um evento extremo. Nem duas vezes, nem três. O conteúdo de calor oceânico global nos primeiros 2.000 metros atingiu em 2025 o nono recorde anual consecutivo.
Isso importa porque sequências longas reduzem drasticamente a possibilidade de estarmos vendo apenas flutuações naturais. A repetição persistente de novos máximos em intervalos anuais sucessivos é a marca de uma tendência forçada e contínua. Cada ano desde 2017 empurrou o sistema para um novo topo histórico. Não houve uma pausa. Não houve um respiro estatístico. Não houve estabilização.
Mais do que isso, os próprios autores destacam que a taxa de aquecimento do oceano aumentou quando comparada ao período do final do século XX.
O artigo de 2026 aponta que o aquecimento medido pelo OHC de 0 a 2.000 m cresceu de cerca de 0,14 W/m² por década no período 1960–2025 para cerca de 0,32 W/m² por década no intervalo 2005–2025, em linha com estimativas do desequilíbrio energético da Terra. Em termos práticos, isso mostra que o sistema não apenas aquece: ele está acumulando energia em ritmo mais alto do que antes.
A frase de Lijing Cheng, repetida em diferentes relatórios anuais, resume esse padrão com precisão: os recordes quebrados no oceano tornaram-se um disco riscado. O problema é que esse disco não parou de tocar em 2025.
Aquecimento do Mediterrâneo, do Atlântico e do Índico mostra que o recorde não ficou concentrado em uma única região
Uma das maneiras de subestimar a gravidade do aquecimento oceânico é imaginar que ele esteja confinado a um ponto isolado do globo. Não está. O estudo de 2026 destaca que, em 2025, cerca de 33% da área oceânica global ficou entre as três condições mais quentes de toda a série histórica iniciada em 1958, enquanto cerca de 57% ficou entre as cinco mais quentes.
As regiões de maior destaque incluíram o Atlântico tropical e o Atlântico Sul, o Mar Mediterrâneo, o norte do Oceano Índico e os oceanos austrais. Trata-se de um padrão amplo, distribuído por diferentes hemisférios e bacias, o que reforça o caráter sistêmico do aquecimento.

O Mediterrâneo chama atenção porque já vinha apresentando aquecimento excepcional nos relatórios anteriores. No estudo referente a 2024, ele apareceu como uma das áreas de maior intensificação, justamente por ser um mar quase fechado, com menor intercâmbio de água com o Atlântico e menor capacidade de dispersar calor em comparação com grandes bacias oceânicas abertas.
Quando se observa o conjunto regional, fica claro que o recorde de 2025 não foi produzido por uma anomalia local desproporcional. Ele reflete uma expansão do calor por grande parte do oceano global.
O que o calor acumulado no oceano faz com o clima, os recifes, o nível do mar e a vida marinha
O calor armazenado no oceano não é uma energia passiva. Ele altera diretamente fenômenos atmosféricos, ecossistemas marinhos e processos físicos de larga escala. Um dos efeitos mais conhecidos é a intensificação de furacões e ciclones.
Sistemas tropicais extraem energia da superfície do mar. Quanto mais quente a água, maior a disponibilidade de vapor e energia latente para alimentar tempestades intensas. O aquecimento oceânico não significa automaticamente mais ciclones em número absoluto, mas aumenta o potencial para eventos mais fortes, mais úmidos e, em muitos casos, mais destrutivos.

Outro impacto crítico é o branqueamento de corais. Eventos prolongados de aquecimento marinho elevam a temperatura da água acima do limite de tolerância de muitos recifes, forçando os corais a expulsar as algas simbióticas que lhes fornecem parte importante de sua energia e coloração.
O resultado são episódios de branqueamento em massa, com risco real de mortalidade quando o estresse térmico persiste. A literatura recente vem tratando esses eventos como cada vez mais frequentes e mais amplos em escala regional e global.
Há ainda a elevação do nível do mar por expansão térmica. A água se expande quando aquece. Isso significa que parte do aumento médio do nível dos oceanos não depende apenas do derretimento de geleiras e calotas polares, mas também do simples fato de que a coluna d’água está armazenando mais energia térmica.
Além disso, o aquecimento reforça a estratificação da água e dificulta a mistura vertical entre camadas superficiais mais quentes e camadas mais profundas e frias. Quando essa mistura diminui, também se altera a redistribuição de oxigênio, favorecendo o surgimento ou a expansão de zonas de baixo oxigênio em que a vida marinha encontra condições cada vez mais hostis.
A redução dos aerossóis de enxofre dos navios pode ter acelerado o aquecimento recente
Os pesquisadores chamam atenção para um ponto menos conhecido do debate climático recente. Além do aumento contínuo das concentrações de gases de efeito estufa, reduções recentes nos aerossóis de sulfato também podem ter contribuído para a intensificação do aquecimento oceânico observado nos últimos anos. O próprio artigo de 2026 atribui a continuidade do aquecimento global do oceano ao aumento dos gases de efeito estufa e às recentes reduções nos sulfatos atmosféricos.
A lógica física é contraintuitiva, mas conhecida. Parte da poluição por enxofre lançada na atmosfera por navios contribui para refletir radiação solar, funcionando como um mascaramento parcial do aquecimento.
Quando regulações reduzem essa emissão, o benefício para a saúde e para a qualidade do ar é evidente, mas também se reduz esse efeito refletor. Com menos radiação sendo devolvida ao espaço, mais energia líquida pode ser absorvida pelo sistema climático.
Isso não significa que reduzir poluição seja errado. Significa apenas que o aquecimento provocado pelos gases de efeito estufa pode aparecer de forma mais nítida quando certos aerossóis que antes mascaravam parte dele diminuem.
O que os modelos climáticos acertaram e por que o oceano está aquecendo mais rápido que o esperado em alguns cenários
A discussão científica atual não gira em torno de saber se o oceano está aquecendo. Esse ponto está encerrado. O debate mais refinado envolve a taxa do aquecimento e a combinação exata de fatores responsáveis pela aceleração recente, especialmente a partir de 2023.
Os modelos climáticos de longo prazo projetavam aumento contínuo do conteúdo de calor oceânico à medida que as concentrações de gases de efeito estufa seguissem subindo. O que parte dos pesquisadores vem examinando agora é por que a velocidade observada em alguns anos recentes parece ter ultrapassado o centro de certas projeções medianas.

Uma parte da explicação está na própria atmosfera: concentrações de CO₂ continuam em patamar recorde e seguem reforçando o desequilíbrio energético do planeta. Outra parte pode estar no efeito combinado de menos sulfatos e de um El Niño muito intenso em 2023–2024, que ajudou a reorganizar o calor na interface oceano-atmosfera.
O artigo de 2026 observa que, mesmo com a transição para condições de La Niña ao longo de 2025, o calor oceânico seguiu aumentando, enquanto a temperatura média da superfície do mar recuou levemente em relação a 2024, mas ainda permaneceu entre as mais altas da série histórica.
Em resumo, a variabilidade natural pode modular a superfície por algum tempo, mas o conteúdo de calor em profundidade continua revelando a tendência dominante: o sistema segue absorvendo e retendo energia.
O número de 23 zettajoules é grande demais para a escala humana, mas é isso que o oceano está absorvendo
Voltar ao número inicial ajuda a recolocar o problema em perspectiva: 23 zettajoules acumulados em um único ano nos primeiros 2.000 metros do oceano global. Não se trata de uma anomalia local de temperatura. Não se trata de uma semana de calor. Não se trata de um verão extremo em um continente específico. Trata-se da entrada líquida de uma quantidade colossal de energia em um reservatório que controla grande parte da dinâmica climática do planeta.
Esse calor não desaparece rapidamente. O oceano tem enorme inércia térmica. Parte dessa energia voltará gradualmente a influenciar a atmosfera e o clima de superfície por anos e décadas. Parte continuará penetrando camadas mais profundas, alterando circulação, estratificação, química e ecologia marinha.
É por isso que cientistas insistem que o oceano é o termômetro real do planeta. Ele não mede apenas a sensação do momento. Ele registra a contabilidade física do aquecimento global. E, por nove anos seguidos, essa contabilidade mostra a mesma coisa: o planeta continua acumulando calor.


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