O Plano Nacional de Agricultura Inteligente 2024-2028 do governo chinês prevê 10 mil fazendas inteligentes, 1.000 fábricas agrícolas e 100 “fazendas do futuro” com sensores, robôs e IA gerenciando plantações, modelo testado na Fazenda Fuxi da Academia Chinesa de Ciências que enfrenta custos elevados e desafios de adoção.
A China está construindo fazendas onde robôs percorrem plantações de arroz enquanto sensores enterrados no solo medem umidade, temperatura e presença de pragas, tudo controlado por um gestor que opera tablet sentado em centro de comando a quilômetros de distância. O cenário descrito pela imprensa estatal chinesa é da Fazenda Fuxi, projeto-piloto da Academia Chinesa de Ciências (CAS) lançado em 2023 na província de Hebei que se tornou modelo para o Plano Nacional de Agricultura Inteligente 2024-2028, programa do Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais (MARA) que prevê a criação de 10 mil fazendas digitais integradas até 2028 como parte de estratégia para garantir segurança alimentar a 1,4 bilhão de habitantes. “A agricultura tradicional envolve grande imprevisibilidade. Mas o big data permite simulação e análise preditiva para cada etapa, do plantio à irrigação e ao controle de pragas, para que possamos escolher a melhor abordagem”, explicou Zhang Yucheng, engenheiro sênior do Instituto de Tecnologia da Computação da CAS, em entrevista ao People’s Daily Online em julho de 2025.
Por trás das fazendas tecnológicas existe trauma histórico que a China nunca esqueceu. A Grande Fome entre 1959 e 1962, durante o “Grande Salto Adiante” de Mao Tsé-tung, causou entre 15 e 45 milhões de mortes segundo diferentes estimativas e transformou a segurança alimentar em prioridade estratégica permanente que as reformas de Deng Xiaoping a partir de 1978 consolidaram e que o programa de fazendas inteligentes atualiza para o século XXI. Cerca de 460 milhões de chineses ainda vivem no campo, realidade que faz de qualquer reforma agrícola uma política social de escala que poucos países do mundo precisam administrar.
O que é a Fazenda Fuxi e como ela funciona na prática

A Fazenda Fuxi é o laboratório vivo que demonstra o que as fazendas inteligentes chinesas pretendem ser em larga escala. Batizada em homenagem a uma divindade mitológica da agricultura na cultura chinesa, a fazenda foi criada pela CAS em 2023 com sede tecnológica em Xiong’an (Hebei) e já foi replicada em províncias como Mongólia Interior, Chongqing, Anhui e Hubei, onde robôs autônomos executam tarefas no campo enquanto plataforma centralizada de inteligência artificial processa dados de sensores e sugere decisões sobre irrigação, fertilização e controle de pragas. Drones mapeiam o estágio de crescimento das lavouras e transmitem informações em tempo real para o centro de comando que Hou Guangyu, gestor agrícola da Fazenda Fuxi, descreveu ao People’s Daily Online como “o cérebro da fazenda inteira”.
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A operação das fazendas inteligentes não elimina a presença humana como algumas manchetes sugerem. Hou Guangyu é exemplo de gestor nascido depois de 1995 que opera robôs por meio de tablet, profissional que combina conhecimento agrícola com competência digital e que representa o perfil de trabalhador rural que a China quer formar em larga escala. As fazendas usam tratores autônomos e equipamentos robotizados, mas a supervisão, a tomada de decisões estratégicas e a manutenção continuam dependendo de pessoas qualificadas que interpretam os dados que a inteligência artificial gera e que corrigem o curso quando os algoritmos erram.
Quais são as metas do plano nacional para as fazendas inteligentes até 2028

O Plano Nacional de Agricultura Inteligente lançado pelo Ministério da Agricultura em outubro de 2024 estabelece cronograma com marcos verificáveis. Até 2026, a meta é estabelecer a estrutura básica de serviço público de agricultura inteligente com mais de 30% dos processos agrícolas operando com base em informação digital, e até 2028 o plano prevê 32% de cobertura de informatização, 10 mil fazendas digitais integradas, 1.000 fábricas agrícolas digitais e 100 “fazendas do futuro” que servirão como vitrines do que a tecnologia pode oferecer ao campo chinês. O programa também estabelece meta de desenvolver mais de 20 algoritmos básicos com propriedade intelectual chinesa, objetivo que revela a dimensão de soberania tecnológica embutida no plano de fazendas.
As tecnologias já em uso nas fazendas piloto dão dimensão concreta do que o plano nacional pretende escalar. Na província de Guangdong, 69 conjuntos de sensores 5G-IoT monitoram pomares de lichia em 20 cidades segundo a Xinhua, enquanto em Bengbu (Anhui) drones aplicam pesticidas em plantações de milho e na província de Zhejiang robôs realizam transplantio de alfaces em parques de demonstração. A empresa Zoomlion Smart Agriculture demonstrou técnicas digitais em 3,16 milhões de mu (aproximadamente 210 mil hectares), escala que indica o quanto as fazendas inteligentes chinesas já saíram do estágio de protótipo para operação em campo real.
O que especialistas apontam como limites das fazendas inteligentes chinesas
A visão futurista das fazendas tecnológicas enfrenta barreiras concretas que fontes oficiais chinesas reconhecem abertamente. Song Yang, diretor de pesquisa e desenvolvimento da Zoomlion, admitiu que “as comportas de irrigação inteligentes ainda são caras” e que a tecnologia exige solos com padrão elevado de planura e fertilidade, condição que está longe da realidade de milhões de pequenos produtores chineses cujas propriedades ocupam terrenos irregulares e com solo de qualidade variável. O custo de implantação das fazendas inteligentes é barreira que limita a adoção ao universo de propriedades que recebem subsídio estatal pesado, modelo que depende de financiamento público para funcionar.
A agência Xinhua, veículo oficial do governo chinês, reconhece que “coleta inconsistente de dados, preocupações com privacidade e adoção limitada por agricultores” são entraves reais à expansão da inteligência artificial no campo. Liu Jingjing, pesquisadora ligada ao Ministério da Agricultura, alertou para a necessidade de “reforçar a infraestrutura nas áreas rurais para reduzir as barreiras de acesso à IA”, reconhecimento de que as fazendas inteligentes dependem de conectividade e energia elétrica estáveis que nem todas as regiões rurais chinesas possuem. O modelo de fazendas tecnológicas com planejamento estatal centralizado, escala demográfica de 1,4 bilhão e estrutura política do Partido Comunista Chinês é combinação específica que outros países dificilmente conseguem replicar diretamente.
O que as fazendas inteligentes da China significam para o agronegócio brasileiro
A revolução tecnológica no campo chinês tem implicação direta para o Brasil que ultrapassa a curiosidade tecnológica. A China é o maior importador mundial de soja brasileira, e quanto mais a agricultura chinesa avançar em produtividade com suas fazendas inteligentes, mais o equilíbrio do mercado global de commodities pode mudar: maior eficiência chinesa na produção de grãos pode reduzir demanda por importações ou, alternativamente, liberar terras chinesas para culturas de maior valor agregado enquanto mantém dependência de commodities tropicais que o Brasil fornece. O cenário é incerto, mas a direção é clara: o que se planta nas fazendas de Anhui hoje pode mudar amanhã o que se vende para Pequim.
O Brasil opera modelo de agricultura tecnológica diferente do chinês mas igualmente avançado em seus segmentos. A Embrapa desenvolve soluções de agricultura digital, sensores de campo e plataformas de inteligência artificial para o agro tropical, mas com escala e financiamento menores que a Academia Chinesa de Ciências, enquanto o agronegócio privado brasileiro investe pesado em fazendas de precisão para soja, milho e algodão com tecnologias que competem com o que a China apresenta em suas vitrines. A diferença é que as fazendas inteligentes chinesas nascem de estratégia estatal centralizada para segurança alimentar, enquanto as brasileiras nascem de iniciativa privada orientada por competitividade de mercado, dois modelos que refletem realidades políticas e econômicas distintas mas que convergem no uso de dados, sensores e inteligência artificial para produzir mais com menos.
E você, acha que o Brasil deveria investir mais em fazendas inteligentes como a China? Nosso modelo de agro está preparado para essa corrida tecnológica? Deixe sua opinião nos comentários.

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