Depois de voltar de São Paulo para comprar um sítio em Cândido Sales, Sílvio de Jesus apostou na criação de galinhas, viu o plano fracassar e encontrou na falta de pão fresco da comunidade rural uma saída para recomeçar. Hoje, os biscoitos artesanais sustentam a família, a criação de aves virou renda complementar e a rotina simples da propriedade já reúne mais de 100 mil seguidores no YouTube.
O produtor rural Sílvio de Jesus deixou São Paulo depois de três anos e meio de trabalho com um objetivo direto, comprar um pequeno sítio na zona rural de Cândido Sales, no sudoeste da Bahia, e viver da roça. O primeiro plano era criar galinhas, mas a perda de quase toda a criação mudou o caminho da família.
De acordo com a Agência Sebrae de Notícias da Bahia, Sílvio investiu praticamente todas as economias no galpão e na compra de 50 pintinhos. A ideia era transformar a avicultura em sustento, mas as dificuldades no começo da produção obrigaram o produtor a procurar outra fonte de renda dentro da própria comunidade.
A virada veio de uma necessidade básica. A propriedade fica a cerca de 22 quilômetros da cidade, em uma região onde moradores compravam pão para vários dias porque não conseguiam ir ao comércio urbano com frequência. Sílvio percebeu a lacuna, começou a produzir pães artesanais e, depois, ampliou a venda para sonhos, bolos e biscoitos.
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Hoje, os biscoitos artesanais são o principal produto da família. A criação de galinhas continua na propriedade, mas deixou de ser a atividade central e passou a funcionar como segunda renda.
A criação de galinhas era o plano, mas o prejuízo mostrou outro mercado na comunidade rural
Sílvio voltou para a Bahia com o dinheiro contado e uma expectativa comum entre pequenos produtores: transformar a terra em negócio. Ele construiu o galpão, comprou os pintinhos e iniciou a criação acreditando que a venda das aves sustentaria a propriedade.
O problema apareceu antes de o projeto ganhar escala. A perda de praticamente toda a criação atingiu o caixa e a confiança da família. Para quem havia colocado as economias no primeiro lote, o prejuízo não era só financeiro, era também a interrupção do plano que motivou a mudança de vida.
A saída não veio de um curso caro nem de um investimento alto. Veio da observação da rotina local. Como a comunidade ficava longe da cidade, o pão fresco não chegava todos os dias à mesa de muitos moradores.
Foi nesse intervalo entre distância, necessidade e consumo recorrente que Sílvio encontrou espaço. Ele começou a produzir pão na própria zona rural, vendendo para vizinhos e famílias que já tinham demanda, mas não tinham facilidade de acesso.
O pão abriu a porta, mas o biscoito artesanal virou o carro-chefe da família
A produção começou pequena, como alternativa para gerar dinheiro depois do fracasso com as aves. Primeiro vieram os pães. Depois, a cozinha da família passou a entregar sonhos, bolos e biscoitos.
Com o tempo, o biscoito passou a vender mais e ocupar o centro do negócio. O produto tinha vantagens práticas para a realidade da zona rural: maior durabilidade que o pão, facilidade de transporte e aceitação no café da manhã e no lanche da tarde.
Esse ponto ajuda a explicar a mudança de rota. Em comunidades afastadas, alimentos com vida útil um pouco maior podem ter mais espaço comercial, principalmente quando o deslocamento até a cidade depende de tempo, combustível e disponibilidade.

A renda dos biscoitos permitiu que a família voltasse a investir na propriedade. A avicultura não desapareceu, mas perdeu o papel de principal aposta econômica. Na prática, Sílvio saiu de um modelo dependente de uma criação vulnerável para uma produção artesanal com venda mais constante.
A história ganhou força porque a internet viu a rotina antes de ver o produto
Enquanto o negócio da família crescia, Sílvio passou a gravar a vida na roça. O objetivo inicial não era montar uma vitrine comercial, mas mostrar a rotina da propriedade, os animais, a produção artesanal e o jeito simples de viver no campo.
A resposta do público mudou o alcance da história. O canal Silvio de Jesus Aqui na Roça passou a reunir mais de 100 mil seguidores no YouTube, além de cerca de 11 mil seguidores no Instagram, segundo os dados informados na reportagem original.
O conteúdo ajudou a aproximar consumidor, produtor e território. Para quem acompanha de longe, os vídeos mostram uma rotina que mistura trabalho, comida caseira, criação de animais e convivência familiar. Para o negócio, essa exposição reforça a confiança no produto e dá rosto à produção.
A internet também trouxe relações fora do padrão de uma venda comum. Sílvio relata que alguns seguidores passaram dias em sua casa, aproximando a audiência da família e da propriedade. Esse vínculo explica por que a história circula além do produto vendido.
Cândido Sales ajuda a entender por que pequenos negócios rurais dependem de acesso e organização
Cândido Sales tem 25.247 habitantes no Censo 2022 e população estimada em 26.469 pessoas em 2025, segundo o IBGE. O município ocupa uma área de 1.169,814 km², o que ajuda a dimensionar o peso das distâncias internas para quem vive e trabalha fora da sede urbana.
Nesse tipo de cenário, pequenos negócios rurais enfrentam duas barreiras ao mesmo tempo. A primeira é produzir com regularidade. A segunda é fazer o produto chegar ao consumidor, seja por venda direta, feira, encomenda, redes sociais ou parcerias locais.
A trajetória de Sílvio mostra uma resposta prática a esse desafio. Em vez de depender apenas da ida à cidade, ele criou oferta dentro da própria comunidade. Depois, usou a internet para ampliar o alcance da rotina e fortalecer a confiança em torno da produção.
Esse movimento não substitui estrutura, assistência técnica ou canais de comercialização. Mas reduz a dependência de um único produto e dá ao produtor uma chance maior de ajustar o negócio quando a primeira aposta falha.
Feira Agrocultural aproximou produtores, compradores e instituições em Cândido Sales
Sílvio esteve entre os participantes da Feira Agrocultural de Cândido Sales, realizada nos dias 27 e 28 de junho. O evento reuniu agricultores familiares, empreendedores, artesãos e instituições parceiras para estimular a comercialização e a troca de experiências no município.
A feira funciona como vitrine para negócios que muitas vezes nascem dentro de casa, na cozinha, no quintal ou em pequenas áreas de produção. Para o produtor rural, vender em um evento local reduz a distância entre quem faz e quem compra.
Também é uma oportunidade para testar produtos, ouvir clientes e criar contatos com outros agricultores. No caso de Sílvio, a presença na feira reforça uma etapa importante da virada: o negócio saiu da necessidade da comunidade e passou a circular em um ambiente de economia local organizada.
A programação contou com participação do Sebrae em palestra voltada ao empreendedorismo no campo, associativismo e cooperativismo. Para pequenos produtores, esse tipo de orientação pode ajudar na formação de grupos, melhoria de venda e acesso a novos mercados.
Agricultura familiar ainda sustenta parte importante da produção de alimentos no Brasil
A história de Sílvio se encaixa em um quadro maior da agricultura familiar brasileira. Dados do Censo Agropecuário 2017 apontam que esse segmento representava 77% dos estabelecimentos agrícolas do país, embora ocupasse apenas 23% da área agropecuária total.
O mesmo levantamento mostrou o peso da agricultura familiar em alimentos comuns na mesa dos brasileiros. O segmento respondia por 80% do valor de produção da mandioca, 69% do abacaxi, 42% do feijão e 48% do valor de produção de café e banana.
Esses números ajudam a explicar por que histórias como a de Cândido Sales não são apenas casos individuais de superação. Elas mostram como pequenos produtores buscam renda em produtos de consumo diário, muitas vezes com estrutura simples e trabalho familiar.
No caso de Sílvio, a família aparece como base do negócio. Mãe, irmã e irmão participaram da construção da atividade, algo comum em propriedades onde produção, venda, cozinha e cuidado com os animais se misturam na mesma rotina.
Do prejuízo com 50 pintinhos ao biscoito que paga as contas
A principal mudança na trajetória de Sílvio não foi abandonar a roça. Foi mudar o produto quando o primeiro plano deixou de funcionar. A criação de galinhas continuou, mas sem carregar sozinha a renda da propriedade.
O biscoito artesanal ocupou esse espaço porque resolveu um problema real da vizinhança, cabia na estrutura da família e ganhou visibilidade com os vídeos da rotina rural. A história tem prejuízo, adaptação e trabalho diário, sem fórmula pronta.
Para pequenos produtores, o caso deixa uma lição concreta: olhar para a demanda local pode ser tão decisivo quanto investir em uma criação ou plantio. No campo, a oportunidade nem sempre está no produto mais planejado, mas naquele que falta na mesa de quem vive por perto.
O que você acha da decisão de Sílvio de trocar a aposta principal na criação de galinhas pela produção de pães e biscoitos? Deixe seu comentário e conte se conhece outras histórias de produtores rurais que mudaram de caminho para manter a renda da família.

