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Há dez anos, um jovem sudanês constrói robôs só com sucata eletrônica que garimpa em mercados, num laboratório improvisado dentro de uma casa de barro em Omdurman

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 07/07/2026 às 16:57 Atualizado em 07/07/2026 às 17:00
Há dez anos, um jovem sudanês constrói robôs só com sucata eletrônica
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No Sudão, o jovem Moatasem Jibril largou a faculdade de engenharia por falta de dinheiro, mas não desistiu da tecnologia. Há cerca de dez anos, ele constrói robôs com sucata eletrônica comprada barato em mercados, montada num cantinho da casa de barro da família, em Omdurman. Tudo autodidata.

De um pequeno espaço dentro de casa, um jovem transformou lixo eletrônico em máquinas que se movem. No Sudão, Moatasem Jibril passou anos montando robôs com sucata eletrônica garimpada em mercados, provando que engenharia de verdade não depende só de laboratórios caros. A trajetória dele foi registrada pela agência de notícias Anadolu.

O ponto de partida foi uma frustração acadêmica. Jibril cursava engenharia eletrônica, mas precisou abandonar a universidade por causa das dificuldades financeiras da família. Em vez de largar o sonho, ele levou o aprendizado para dentro de casa e virou um inventor autodidata, apaixonado por tecnologia.

A matéria-prima dele é o que muita gente joga fora. Sem dinheiro para comprar componentes novos, o jovem aposta na sucata eletrônica vendida barato nos mercados de Omdurman, cidade a oeste da capital, Cartum. A seguir, veja como esse laboratório caseiro funciona e por que a história chama tanta atenção.

Quem é Moatasem Jibril, o jovem que faz robôs de sucata

O sudanês Moatasem Jibril, que abandonou o curso de engenharia eletrônica por motivos econômicos, trabalha em um robô em sua casa usando materiais reciclados em Cartum, Sudão, em 2 de março de 2023 [Mahmoud Hjaj/ Anadolu Agency]
O sudanês Moatasem Jibril, que abandonou o curso de engenharia eletrônica por motivos econômicos, trabalha em um robô em sua casa usando materiais reciclados em Cartum, Sudão, em 2 de março de 2023 [Mahmoud Hjaj/ Anadolu Agency]

O protagonista da história é um jovem comum, com um talento incomum. Moatasem Jibril vive em Omdurman, no Sudão, e ficou conhecido por construir robôs dentro de casa usando peças descartadas. Sua trajetória foi documentada por veículos de imprensa em março de 2023.

O interesse pela tecnologia vem de longa data. Segundo a Anadolu, Jibril começou a montar robôs há cerca de nove anos, somando quase uma década de dedicação ao tema. O que era curiosidade virou uma rotina diária de estudo, testes e montagem, sempre com material reaproveitado.

A base de tudo é a autoformação. Depois de deixar a faculdade, Jibril não teve professores nem laboratórios sofisticados, e aprendeu na prática, por conta própria. Cada robô montado com sucata é fruto de tentativa, erro e muita pesquisa feita por ele mesmo.

Vale um registro honesto sobre a época. As reportagens que retrataram o trabalho de Jibril são de 2023, e este texto conta o percurso dele até aquele momento. Sem informações confirmadas mais recentes, não é possível afirmar como o projeto seguiu depois, então o foco aqui é o feito construído ao longo dos anos.

Casos como o dele fazem parte de um movimento maior. Pelo mundo, cresce a cultura maker, de gente que aprende a construir e consertar por conta própria, muitas vezes fora da universidade. No Sudão, sem estrutura, Moatasem Jibril virou um exemplo dessa engenharia feita na raça.

O laboratório improvisado num cantinho da casa de barro

O sudanês Moatasem Jibril, que abandonou o curso de engenharia eletrônica por motivos econômicos, trabalha em um robô em sua casa usando materiais reciclados em Cartum, Sudão, em 2 de março de 2023 [Mahmoud Hjaj/ Anadolu Agency]
O sudanês Moatasem Jibril, que abandonou o curso de engenharia eletrônica por motivos econômicos, trabalha em um robô em sua casa usando materiais reciclados em Cartum, Sudão, em 2 de março de 2023 [Mahmoud Hjaj/ Anadolu Agency]

O espaço de trabalho está longe do que se imagina para um inventor. Jibril monta seus robôs em um cômodo estreito dentro da casa da família, uma construção simples de barro em Omdurman. É ali, em poucos metros quadrados, que a tecnologia ganha forma.

A modéstia do lugar contrasta com a ambição do projeto. Sem bancadas industriais nem equipamentos caros, o jovem transformou um cantinho da casa em oficina, laboratório e depósito de peças ao mesmo tempo. Tudo é organizado em torno da meta de fazer uma máquina funcionar.

Esse improviso diz muito sobre o método dele. Trabalhar com o que tem à mão, em um espaço apertado, obriga a ser criativo e a aproveitar cada componente ao máximo. É uma engenharia de necessidade, feita para caber no que a realidade permite.

Ainda assim, o resultado impressiona pelo esforço. Manter um projeto de robôs por tantos anos, sem estrutura, exige disciplina e organização acima da média. O laboratório de barro virou o símbolo de uma dedicação que não dependeu de recursos, e sim de vontade e método.

Improvisar espaço é comum entre inventores mundo afora. De grandes empresas de tecnologia que nasceram em garagens a projetos escolares montados na cozinha, a história mostra que boas ideias nem sempre precisam de um prédio. O cômodo de barro de Jibril entra nessa tradição de criar onde dá.

Sucata eletrônica garimpada nos mercados de Omdurman

O sudanês Moatasem Jibril, que abandonou o curso de engenharia eletrônica por motivos econômicos, trabalha em um robô em sua casa usando materiais reciclados em Cartum, Sudão, em 2 de março de 2023 [Mahmoud Hjaj/ Anadolu Agency]
O sudanês Moatasem Jibril, que abandonou o curso de engenharia eletrônica por motivos econômicos, trabalha em um robô em sua casa usando materiais reciclados em Cartum, Sudão, em 2 de março de 2023 [Mahmoud Hjaj/ Anadolu Agency]

O segredo do baixo custo está na origem das peças. Como os componentes eletrônicos novos são caros demais para o orçamento dele, Jibril recorre à sucata eletrônica vendida a preço baixo nos mercados locais. É ali que ele garimpa placas, motores, fios e sensores descartados.

Esse garimpo exige olho treinado. Em meio a pilhas de aparelhos velhos e quebrados, o jovem precisa identificar o que ainda serve, o que pode ser recuperado e o que combina com seus projetos. Transformar lixo eletrônico em peça útil é, por si só, uma habilidade e tanto.

Para bancar essa busca, ele também trabalha. Segundo as reportagens, Jibril atua no mercado para juntar o dinheiro necessário e comprar os materiais de que precisa. Ou seja, o mesmo lugar que fornece a sucata é o que lhe dá renda para seguir com os robôs.

Esse ciclo dá ao projeto uma lógica sustentável. Reaproveitar sucata eletrônica reduz custos, evita que o material vire lixo e ainda alimenta a criação de tecnologia. Sem saber, Jibril pratica uma espécie de economia circular caseira, dando nova vida ao que seria descartado.

Os mercados de sucata são um universo à parte. Neles, aparelhos quebrados trocam de mãos, peças são separadas e revendidas, e quem entende do assunto encontra verdadeiros tesouros. Para o jovem sudanês, esse comércio popular funciona como uma loja de eletrônicos improvisada, só que muito mais barata.

De estudante de engenharia a inventor autodidata

A saída da universidade poderia ter encerrado o sonho, mas fez o contrário. Impedido de concluir o curso de engenharia por falta de recursos, Jibril decidiu continuar aprendendo sozinho. A formação formal deu lugar a uma escola prática, montada dentro de casa.

Esse tipo de percurso tem seus próprios méritos. Aprender tecnologia sem professor, apenas com pesquisa e experimentação, desenvolve uma compreensão profunda de como as coisas funcionam. Cada robô montado ensina algo novo sobre eletrônica, mecânica e programação.

O caso também expõe uma barreira real. Muita gente talentosa fica pelo caminho por falta de dinheiro para estudar, perdendo o acesso à educação técnica. A história de Jibril mostra o que se perde quando o ensino não chega a todos, e o que se ganha quando alguém insiste mesmo assim.

Mais do que superação individual, o ponto central é o conhecimento. O jovem provou, na prática, que é possível dominar conceitos avançados de tecnologia com estudo e persistência. O diploma ficou pelo caminho, mas a competência foi construída peça por peça.

Vale reforçar que isso não é um caso isolado no Sudão. O país enfrenta anos de instabilidade econômica, o que pesa sobre os estudantes e sobre o acesso à tecnologia. Nesse contexto, aprender a fazer robôs com sucata vira também uma forma de driblar a falta de oportunidades.

O que torna o e-lixo uma fonte de peças

Para entender o feito, é preciso olhar para o lixo eletrônico. Aparelhos descartados, como celulares, computadores e televisores, são verdadeiros baús de componentes que ainda funcionam ou podem ser recuperados. Para quem sabe garimpar, a sucata vira estoque de peças baratas.

Dentro de um aparelho velho há muita tecnologia aproveitável. Placas de circuito, motores pequenos, sensores, baterias, fios e conectores podem ser retirados e reutilizados em novos projetos. É como desmontar um quebra-cabeça e usar as peças para montar outro diferente.

Esse reaproveitamento tem um valor que vai além do bolso. O lixo eletrônico é um dos que mais crescem no mundo e um dos mais difíceis de tratar, cheio de materiais tóxicos e metais valiosos. Dar utilidade a essa sucata ajuda a reduzir o desperdício e a poluição.

Por isso, o trabalho de Jibril tem uma camada ambiental. Ao construir robôs com componentes que iriam para o lixo, ele mostra, na prática, como o e-lixo pode virar recurso. É uma lição de engenharia e de sustentabilidade ao mesmo tempo, nascida da necessidade.

Dentro do lixo eletrônico há até metais preciosos. Placas e conectores contêm pequenas quantidades de ouro, prata e cobre, além de componentes que custam caro quando novos. É por isso que a sucata eletrônica é disputada, tanto por recicladores quanto por inventores como o jovem de Omdurman.

Movido por filmes de inventores

A faísca inicial do projeto veio das telas. Segundo a Anadolu, Jibril começou a se interessar por robôs depois de assistir a muitos filmes que falavam de inventores e de máquinas. A ficção despertou nele a vontade de criar algo real.

Essa inspiração diz muito sobre o poder das referências. Ver histórias de gente que constrói e inventa pode plantar em alguém a ideia de que também é capaz de fazer o mesmo. No caso do jovem sudanês, o cinema virou o primeiro empurrão rumo à tecnologia.

Da inspiração à prática, porém, foi um longo caminho. Transformar a admiração por robôs de filme em máquinas de verdade exigiu anos de estudo e de trabalho com sucata. O sonho inicial só se sustentou porque veio acompanhado de esforço diário e muita teimosia.

É essa combinação que torna o caso marcante. Uma ideia nascida de filmes, alimentada por peças de mercado e construída em um cômodo de barro resultou em um projeto que durou quase uma década. Poucos sonhos resistem tanto tempo com tão poucos recursos.

Esse detalhe reforça o papel da divulgação científica. Filmes, vídeos e histórias de inventores podem despertar vocações e mostrar caminhos, sobretudo para jovens sem acesso a laboratórios. No caso do Sudão, uma tela foi suficiente para acender o interesse pela tecnologia e pelos robôs.

África e a engenhosidade de transformar lixo em máquina

O caso do Sudão não é isolado no continente. Pela África, é comum encontrar jovens que criam tecnologia a partir de sucata, diante da falta de acesso a componentes novos e a laboratórios. A criatividade supre, em parte, a ausência de estrutura.

Esse tipo de engenhosidade tem raízes práticas. Onde os recursos são escassos, aprender a consertar, adaptar e reaproveitar vira uma habilidade essencial do dia a dia. Transformar lixo eletrônico em algo útil é uma extensão natural dessa cultura de fazer muito com pouco.

Há também um pano de fundo global nessa história. Boa parte do lixo eletrônico do mundo acaba em países mais pobres, gerando problemas ambientais, mas também abrindo, involuntariamente, um estoque de peças para inventores locais. É uma contradição que casos como o de Jibril escancaram.

O que falta, muitas vezes, é apoio. Talentos como o do jovem de Omdurman costumam precisar de investimento, formação e oportunidades para crescer, algo nem sempre disponível. Reconhecer essas histórias é um primeiro passo para que elas não se percam.

Exemplos não faltam pelo continente. De jovens que montam geradores e rádios com peças recuperadas a polos de tecnologia que reciclam e-lixo, a África mostra como a escassez pode virar motor de criatividade. Os robôs de sucata do Sudão se encaixam nessa mesma lógica de inventar com o que existe.

O volume de e-lixo cresce a cada ano no mundo, empurrado pela troca cada vez mais rápida de celulares e computadores. Boa parte desse material acaba em aterros ou em depósitos informais, onde a sucata é separada, muitas vezes, sem segurança. Aproveitá-la com técnica, como faz o jovem sudanês, é uma saída bem mais inteligente.

O que isso tem a ver com o Brasil

O Brasil também produz montanhas de lixo eletrônico. O país está entre os maiores geradores de e-lixo do mundo, com milhões de aparelhos descartados todos os anos, boa parte sem reciclagem adequada. Essa sucata é, ao mesmo tempo, um problema e uma oportunidade.

Os números brasileiros ajudam a dimensionar o cenário. O país gera mais de 2 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano, segundo levantamentos do setor, e recicla apenas uma fração disso. Boa parte dessa sucata poderia alimentar projetos de tecnologia em escolas e comunidades, em vez de virar poluição.

Por aqui, também há inventores que nascem da necessidade. Em periferias e cidades do interior, jovens montam projetos de tecnologia com material reaproveitado, muitas vezes sem acesso a bons laboratórios. A história do Sudão ecoa a realidade de muitos talentos brasileiros.

O caso reforça a importância da educação técnica. Assim como Jibril foi barrado pela falta de dinheiro, muitos estudantes brasileiros enfrentam dificuldades para concluir cursos e desenvolver suas ideias. Investir em ensino e em espaços de criação, os chamados laboratórios makers, pode revelar novos inventores.

Já há sinais promissores por aqui. Clubes de robótica e laboratórios makers em escolas públicas mostram como a tecnologia pode chegar a quem tem pouco. Com sucata, placas de baixo custo e criatividade, estudantes brasileiros montam robôs e projetos, num caminho que aproxima a educação técnica da realidade de casos como o do Sudão.

Por fim, fica a lição sobre reaproveitamento. Transformar sucata eletrônica em robôs e projetos úteis é um caminho que combina inovação, economia e cuidado com o meio ambiente. Para um país cheio de e-lixo e de gente criativa como o Brasil, é uma ideia que faz todo o sentido.

E você, já imaginou construir um robô com peças de lixo eletrônico?

A história de Moatasem Jibril mostra o que a curiosidade e a persistência podem fazer com pouquíssimos recursos. Sem concluir a engenharia, o jovem do Sudão passou cerca de dez anos construindo robôs com sucata eletrônica garimpada em mercados, dentro de um cômodo de barro, provando que a tecnologia pode nascer nos lugares mais improváveis.

E você, já pensou no quanto de tecnologia aproveitável existe dentro de um celular ou computador velho? Conta aqui nos comentários o que achou da trajetória do inventor sudanês e se acredita que projetos com sucata eletrônica poderiam ganhar mais espaço nas escolas e periferias do Brasil.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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