Em Carlópolis, no Norte Pioneiro do Paraná, a goiaba deixou de ser apenas uma fruta regional e passou a disputar mercado fora do Brasil. A virada veio com Indicação Geográfica, certificação internacional e organização dos produtores em cooperativa. No meio desse movimento está Juliano Bicudo, policial militar que assumiu as terras da família sem vivência no campo e hoje vê no sítio sua principal fonte de renda.
O policial militar Juliano Azevedo de Oliveira Bicudo entrou na fruticultura sem o roteiro tradicional de quem cresceu trabalhando na lavoura. Em 2016, ele começou a cuidar das terras do pai em Carlópolis, município do Norte Pioneiro do Paraná, e apostou na goiaba como caminho para transformar uma pequena área rural em negócio.
A primeira colheita veio em 2018. Hoje, a propriedade tem cerca de 3 hectares e 1,6 mil pés de goiaba, com produção ligada ao sistema de certificações que abriu espaço para vendas mais valorizadas e exportação.
De acordo com a Agência Sebrae de Notícias, a Cooperativa Agroindustrial de Carlópolis, a Coac, viu as exportações de goiaba crescerem 580% entre 2020 e 2023, passando de 16.730 kg para 113.703 kg. O avanço poderia ter sido maior, mas a produção foi atingida por geada em 2021 e chuva de pedra em 2022.
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A aposta começou nas terras do pai e virou uma produção certificada de goiaba

Juliano não começou como especialista em agricultura. O salto ocorreu quando ele se aproximou da Coac, iniciou o plantio e passou a seguir o padrão exigido para uma fruta com rastreabilidade, manejo controlado e mercado fora do Brasil.
O produtor afirma que a exportação trouxe previsibilidade. Segundo relato dele ao Sebrae, o quilo da goiaba exportada fica em torno de R$ 5 durante o ano, enquanto o mercado interno costuma oscilar conforme a oferta.
Esse ponto pesa no planejamento. No primeiro trimestre, período de maior oferta da fruta, o preço nacional tende a ficar mais pressionado. A saída encontrada em Carlópolis foi combinar poda escalonada, seleção na cooperativa e certificação, o que permite abastecer compradores em diferentes épocas.
Bicudo pretende direcionar 20% da produção ao mercado externo. Ele também planejava ampliar a área com mais 2 mil pés de goiaba em 2024, sinal de que a exportação deixou de ser uma promessa distante e passou a orientar o investimento dentro da propriedade.
O selo que mudou o preço da fruta não nasceu dentro de uma única propriedade
A força da goiaba de Carlópolis não depende apenas de um produtor. Ela vem de um arranjo local que reúne pequenos agricultores, cooperativa, assistência técnica e certificações reconhecidas por compradores.

Segundo ficha técnica do Instituto Nacional da Propriedade Industrial, a Indicação Geográfica Carlópolis foi concedida em 17 de maio de 2016 como Indicação de Procedência, com área delimitada nos municípios de Carlópolis e Ribeirão Claro, no Paraná. O documento também descreve o uso de poda total escalonada, técnica que permite produção ao longo do ano, e o ensacamento dos frutos quando chegam a 2 cm ou 3 cm de diâmetro.
Esse ensacamento individual ajuda a proteger a goiaba contra pragas e melhora o padrão visual. Na prática, reduz perdas, facilita a seleção e atende um mercado que exige fruta uniforme, limpa e com origem identificada.
O selo de Indicação Geográfica funciona como uma identidade territorial. Ele não garante sozinho o preço maior, mas ajuda a separar a goiaba de Carlópolis de uma fruta comum vendida sem procedência destacada.
Certificação internacional abriu portas que antes pareciam fora do alcance
O passo seguinte foi a certificação internacional. Como informou o Governo do Paraná, a goiaba de Carlópolis conquistou em 2019 a certificação Good Agricultural Practices, ligada a requisitos de segurança alimentar, sustentabilidade e rastreabilidade para produtos agrícolas. Na época, a certificação foi concedida à Coac e a nove propriedades.
Para o produtor, o efeito apareceu no preço. Bicudo calcula que, depois das certificações, conseguiu agregar ao menos 50% de valor à fruta. Mesmo mantendo o trabalho como servidor público, ele diz que a maior renda vem do sítio.
A certificação GlobalG.A.P. é relevante porque conversa com exigências de compradores internacionais. A própria organização informa que o padrão IFA para frutas e vegetais cobre temas como segurança dos alimentos, meio ambiente, saúde e segurança dos trabalhadores, processos produtivos e rastreabilidade.
Na rotina, isso significa mais controle. O produtor precisa registrar procedimentos, cuidar do manejo, organizar a colheita, seguir regras de higiene e garantir que a fruta possa ser rastreada da lavoura até o comprador.
A cooperativa virou o elo entre a roça e compradores da Europa, Canadá e Brasil
A Coac reúne produtores que enviam a goiaba para a sede da cooperativa. Lá, a fruta passa por seleção por peso, padrão e destino. Uma parte segue para o mercado interno; outra, quando atende aos critérios, é direcionada à exportação.
Segundo a gerente de vendas da Coac, Inês Yumiko Sato Sasaki, citada pela Agência Sebrae, os compradores incluem clientes na Inglaterra, Portugal e Canadá. No Brasil, a cooperativa também ampliou presença em estados como Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Amazonas.
O gargalo, porém, não está apenas na lavoura. A separação da fruta exige gente treinada, tempo e cuidado. Bicudo aponta falta de mão de obra como um limite para aumentar o volume exportado.
Esse detalhe mostra que a certificação abre mercado, mas não elimina os problemas de operação. Para vender mais, a cooperativa precisa processar mais fruta, manter padrão e evitar que perdas no pós-colheita derrubem o resultado.
Carlópolis virou capital nacional da goiaba de mesa após décadas de cultivo
O município ganhou reconhecimento formal em 2023. A Agência Senado informou que a Lei 14.672, publicada em 12 de setembro daquele ano, concedeu a Carlópolis o título de Capital Nacional da Goiaba de Mesa. O texto legislativo associa a cultura local à introdução feita por imigrantes japoneses e ao uso de técnicas que permitem produtividade durante o ano.
Esse título não é apenas simbólico para quem vive da fruta. Ele reforça a imagem de origem, ajuda em feiras, negociações comerciais e ações de promoção da goiaba certificada.
A região também se beneficia da concentração de produtores. Quando vários agricultores seguem padrões semelhantes, a cooperativa consegue formar lotes maiores, negociar melhor e atender compradores que não comprariam volumes pequenos de propriedades isoladas.
No caso de Juliano Bicudo, a história individual ajuda a explicar a mudança maior. Um policial militar que começou sem experiência virou produtor certificado porque encontrou uma cadeia organizada, com orientação técnica e mercado disposto a pagar por padrão.
A história de Juliano Bicudo mostra como certificação, cooperativa e manejo podem mudar o destino de uma pequena propriedade rural. Você acha que mais frutas brasileiras deveriam seguir esse caminho para ganhar mercado fora do país?
