Uma escultura de ouro maciço criada por Maurizio Cattelan volta ao mercado após anos em sigilo, reacendendo debates sobre luxo, sátira e os limites de valor no mundo da arte contemporânea.
Uma privada totalmente funcional, feita com pouco mais de 100 quilos de ouro 18 quilates e avaliada em cerca de US$ 10 milhões, volta ao centro das atenções ao ser colocada em leilão em Nova York.
A escultura, batizada de “America” e criada em 2016 por Maurizio Cattelan, ficou anos em um acervo privado e agora será oferecida pela Sotheby’s, em 18 de novembro, com lance inicial atrelado ao valor do metal.
Fontes do mercado apontam o bilionário americano Steve (Steven) Cohen, dono do New York Mets, como o consignador da obra.
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Durante quase uma década, circulou entre galerias e museus a mesma pergunta: quem havia comprado o vaso sanitário de ouro que permitiu ao público literalmente “sentar” sobre uma obra de arte?
Documentos públicos nunca revelaram o comprador, e tanto o artista quanto sua galeria mantiveram silêncio sobre o destino da peça.
Agora, pessoas com conhecimento direto da operação atribuem a Cohen a compra feita em 2017, em uma galeria de Nova York, e a decisão de colocá-la no pregão da Sotheby’s.
Embora a casa de leilões evite confirmar oficialmente o nome do vendedor, a estratégia de divulgação coloca a história da obra no centro da campanha.
A Sotheby’s vem enfatizando que o lance mínimo será calculado com base no valor do ouro usado na escultura, criando uma ligação direta entre cotação de commodities e preço de arte conceitual.
Cattelan, conhecido por trabalhos que misturam ironia, crítica social e gestos espetaculares, concebeu “America” como uma privada de luxo, inteiramente feita em ouro maciço de 18 quilates, mas plenamente utilizável.
Para funcionar, basta instalar o vaso como qualquer outro equipamento hidráulico.
A peça ganhou notoriedade não apenas pelo material, mas pela proposta de convidar o público a usar um objeto que normalmente simboliza ostentação extrema.
Exposição no Guggenheim e simbolismos da obra

Em 2016, um exemplar da escultura foi instalado no Museu Solomon R. Guggenheim, em Nova York.
A obra ficou disponível para uso dos visitantes, mediante fila e tempo controlado no banheiro.
A experiência reforçava a leitura da obra como comentário sobre riqueza, desigualdade e a relação entre museu, público e luxo.
Quem é Steve Cohen e por que a obra o interessa
Steve (Steven A.) Cohen é presidente e CEO da Point72, gestora de recursos que ele próprio fundou.
A empresa expandiu investimentos em áreas como entretenimento, defesa e setor farmacêutico.
Cohen consolidou-se como um dos colecionadores de arte mais influentes dos Estados Unidos.
Seu acervo inclui obras relevantes da arte pós-guerra, muitas com teor crítico ou provocador.
Entre elas está “Flag”, de Jasper Johns, criada em 1958.
O bilionário também é apontado como proprietário de uma escultura de Damien Hirst com um tubarão suspenso em formol.
Esse perfil ajuda a explicar o interesse de Cohen por “America”.
A obra ostenta um material de altíssimo valor e ironiza a associação entre riqueza e consumo.
A decisão de colocá-la em leilão num momento de valorização do ouro reforça o caráter híbrido da peça.
Para dimensionar o contraste, especialistas lembram que, pelo valor estimado para a escultura, seria possível comprar cerca de 100 mil vasos sanitários comuns vendidos em lojas de material de construção nos Estados Unidos.
O roubo em Blenheim Palace e o destino do segundo exemplar
Cattelan produziu a obra em edição limitada, e apenas outro exemplar havia sido exibido amplamente.
Esse vaso foi emprestado pelo Guggenheim ao Palácio de Blenheim, na Inglaterra, em 2019.
Instalado em um banheiro do palácio e conectado ao sistema hidráulico, o trabalho pôde ser usado por visitantes.
Poucos dias após a abertura da exposição, o vaso de ouro foi roubado durante a madrugada.
Ladrões usaram veículos roubados e marretas para arrombar o edifício.
A conexão do vaso à tubulação gerou alagamento e danos estruturais na construção.
Autoridades britânicas trabalharam com a hipótese de que a obra tenha sido serrada ou derretida para revenda do ouro.
Em 2025, três homens foram condenados pelo crime.
Outro suspeito foi absolvido.
Apesar das condenações, nenhuma parte do ouro foi recuperada.
Com isso, o exemplar associado a Cohen passou a ser visto como o último remanescente em circulação privada de “America”.
Sigilo, galerias e o caminho até a Sotheby’s
Cohen teria adquirido o vaso sanitário em 2017, em uma transação privada com a Marian Goodman Gallery.
A galeria não comenta operações específicas.
Representantes do colecionador também não responderam a perguntas sobre a obra.
Ao anunciar o leilão, a Sotheby’s destaca o caráter simbólico e polêmico da peça.
A casa informa que a obra será oferecida no leilão noturno de arte contemporânea, em Manhattan, no edifício Breuer.
A escultura estará em exibição pública antes da venda, embora não possa ser utilizada como banheiro.
O efeito Cattelan no mercado e a expectativa para o leilão
O desempenho recente de outra obra de Cattelan ajuda a explicar o interesse pelo vaso de ouro.
Em 2024, a escultura “Comedian” — a banana presa à parede com fita adesiva — foi vendida na Sotheby’s por US$ 6,2 milhões.
O comprador foi o empresário de criptomoedas Justin Sun, que pagou em ativos digitais.
O sucesso reforçou a percepção de que obras de Cattelan funcionam como termômetro do apetite do mercado.
Para casas de leilão, esse tipo de trabalho atrai tanto colecionadores tradicionais quanto novos ricos ligados a tecnologia e finanças digitais.
A Sotheby’s destaca que “America” aceita pagamento em criptomoedas.
O lance inicial está vinculado ao preço do ouro.
Especialistas acreditam que o histórico de “Comedian” pode atrair novamente compradores do ecossistema cripto para disputar a privada.

