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Primeiros humanos da América do Sul caçavam preguiças-gigantes e tatus de até 44 kg: estudo revela detalhes sobre as presas dos primeiros habitantes do continente e a extinção da megafauna no final da Era do Gelo

Escrito por Ana Alice
Publicado em 29/01/2026 às 05:24
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Estudo arqueológico indica que animais gigantes foram parte central da dieta humana no Cone Sul antes da extinção da megafauna.
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Estudo arqueológico no Cone Sul analisa vestígios de fauna associados a ocupações humanas antigas e aponta padrões de consumo alimentar no fim do Pleistoceno, período marcado por mudanças ambientais profundas e pelo desaparecimento de grandes mamíferos.

Um estudo científico analisou vestígios de fauna associados a ocupações humanas no Cone Sul e indica que animais de grande porte, conhecidos como megafauna, estiveram entre as principais presas de grupos humanos no fim do Pleistoceno.

A pesquisa avaliou conjuntos arqueológicos localizados na Argentina, no Chile e no Uruguai e aponta que mamíferos com mais de 44 quilos aparecem de forma predominante nos registros anteriores ao desaparecimento dessas espécies.

Os dados reunidos abrangem cerca de 20 conjuntos arqueológicos com cronologias estimadas entre aproximadamente 13 mil e 11,6 mil anos atrás, período de transição para o Holoceno.

Segundo os autores, em 15 desses conjuntos os ossos de animais da megafauna superam os de espécies menores, e em 13 casos representam mais de 80% do material identificado.

Evidências arqueológicas e dieta humana no fim do Pleistoceno

A análise incluiu sítios reconhecidos por concentrarem evidências antigas de presença humana associadas a fauna do Pleistoceno tardio.

Entre eles estão Campo Laborde, na região dos Pampas, Cueva Fell, na Patagônia, Tagua Tagua, no Chile Central, e Monte Verde II, também no Chile.

De acordo com o estudo, a recorrência de grandes mamíferos nesses locais sugere que a exploração desse tipo de presa ocorreu em diferentes contextos ambientais do sul da América do Sul.

Ao examinar a composição dos conjuntos faunísticos, os pesquisadores observaram variações regionais.

Na Patagônia, restos atribuídos à preguiça-gigante Mylodon darwinii aparecem com frequência elevada.

Nos Pampas, os registros destacam Megatherium americanum.

Enquanto isso, no Chile Central há maior presença de Notiomastodon platensis, um proboscídeo extinto aparentado aos elefantes.

Embora os conjuntos também incluam espécies de porte médio e pequeno, como outros mamíferos e animais menores, esses restos aparecem em proporções reduzidas quando comparados aos da megafauna.

Para os autores, esse padrão indica que, enquanto esses grandes animais estavam disponíveis, eles tiveram peso relevante na dieta registrada nos sítios analisados.

(Imagem: Reprodução)
(Imagem: Reprodução)

Modelos energéticos explicam escolhas de caça

Para avaliar se a caça de animais de grande porte seria compatível com estratégias de subsistência, os pesquisadores aplicaram modelos de escolha de presa.

Esses modelos são utilizados para estimar o equilíbrio entre o esforço necessário para capturar um animal e o retorno energético obtido, considerando fatores como quantidade de carne, gordura e calorias disponíveis.

Com base nesses cálculos, o estudo aponta que várias espécies extintas de grande porte apresentariam alto retorno energético após o encontro, mesmo levando em conta os custos associados à caça e ao processamento das carcaças.

Segundo os autores, esse tipo de análise ajuda a explicar por que grandes presas aparecem de forma recorrente nos conjuntos arqueológicos, apesar das dificuldades envolvidas em sua captura.

A pesquisa ressalta que a predominância da megafauna não pode ser atribuída apenas a processos de preservação ou à forma como os sítios foram escavados.

Na interpretação apresentada, a repetição desse padrão em diferentes regiões reforça a ideia de que esses animais integravam de maneira sistemática as estratégias de subsistência de parte das populações humanas do período.

Mudanças no consumo após o declínio da megafauna

O estudo também relaciona mudanças na composição dos conjuntos faunísticos à redução progressiva da megafauna.

De acordo com as cronologias reunidas, a disponibilidade desses grandes animais começa a diminuir de forma acentuada a partir de cerca de 12,5 mil anos atrás, com desaparecimento quase completo por volta de 11,6 mil anos atrás.

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Com a redução desse recurso, os modelos utilizados sugerem uma ampliação do espectro alimentar, com maior inclusão de animais de menor porte.

Esse padrão é observado em contextos arqueológicos posteriores, nos quais aumentam os registros de espécies médias, como camelídeos e cervídeos, além de outros recursos que variam conforme o ambiente local.

Ainda assim, o foco principal da análise recai sobre os conjuntos anteriores a esse colapso.

Neles, a participação da megafauna permanece elevada, o que, segundo os autores, diferencia esses contextos de períodos mais recentes e ajuda a compreender mudanças nas estratégias de subsistência ao longo do tempo.

Debate científico sobre extinções no Cone Sul

A relação entre a presença humana e a extinção da megafauna segue como tema de debate na arqueologia e na paleoecologia.

Pesquisas anteriores já apontaram que mudanças climáticas associadas ao fim da última era glacial provocaram alterações ambientais significativas, consideradas por muitos especialistas como um fator central no desaparecimento de grandes mamíferos em diferentes partes do mundo.

Ao mesmo tempo, há divergências quanto ao papel da caça humana nesse processo.

Parte da literatura sustenta que a influência direta dos grupos humanos foi limitada, enquanto outros estudos defendem que a pressão exercida por caçadores-coletores contribuiu de forma relevante para o declínio das populações de megafauna.

A revista Popular Archaeology resume esse debate ao destacar a coexistência dessas interpretações na produção científica recente.

No contexto sul-americano, os próprios autores do estudo reconhecem limitações no registro arqueológico.

A escassez de sítios com associação inequívoca entre restos humanos e animais extintos, além de problemas de preservação e de resolução cronológica, dificulta estabelecer relações causais diretas entre caça e extinção.

Apesar dessas restrições, a constatação de que a megafauna ocupa posição central em muitos conjuntos anteriores ao seu desaparecimento amplia o debate sobre o papel das populações humanas no fim do Pleistoceno no Cone Sul.

Segundo os pesquisadores, esses dados indicam a necessidade de reavaliar a importância relativa da exploração humana em conjunto com fatores ambientais mais amplos.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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