Satélite totalmente desenvolvido na UFSC simboliza avanço decisivo da engenharia brasileira, unindo alunos e pesquisadores na criação de uma tecnologia inédita
O Brasil caminha para um marco inédito ao lançar, no dia 22 de novembro, o primeiro satélite desenvolvido com tecnologia 100% nacional.
A iniciativa nasce na Universidade Federal de Santa Catarina, e integra um projeto que pretende ampliar a capacidade do país de coletar e monitorar dados ambientais.
O lançamento, previsto para ocorrer a partir do Centro Espacial de Alcântara, no Maranhão, envolve estudantes, pesquisadores, empresas brasileiras e uma parceria internacional que permitirá a operação sem custos para a universidade.
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A missão também consolida uma plataforma projetada no país e reforça a formação de novos profissionais capazes de atuar em todas as etapas de uma missão espacial.

Satélite nacional integra constelação ambiental
A UFSC lidera o desenvolvimento do primeiro satélite 100% nacional, criado para integrar uma constelação focada na coleta de dados ambientais em todo o território brasileiro.
Por terem dimensões reduzidas, esses equipamentos funcionam como parte do sistema nacional de monitoramento, que utiliza informações para prever o tempo e acompanhar mudanças ambientais.
A iniciativa reúne professores e estudantes no SpaceLab, o Laboratório de Pesquisa em Sistemas Espaciais da UFSC. O trabalho começou há cinco anos, com equipes de diferentes áreas da engenharia.
Essa integração garante uma formação completa aos alunos e impulsiona a criação de tecnologias próprias.
A estudante Maria Eduarda Emiliano Rezende, do curso de engenharia mecânica, destaca esse intercâmbio interno como um dos alicerces do projeto.
Ela afirma que a presença de alunos de engenharia elétrica, eletrônica, materiais e mecânica constrói um ambiente essencial para o crescimento profissional.
O resultado dessa cooperação aparece na reta final do desenvolvimento, com o satélite pronto para ir ao espaço e com a inclusão de um segundo equipamento na mesma missão, algo que amplia o escopo de testes da nova tecnologia.

Lançamento previsto para o fim de novembro
A Força Aérea Brasileira prevê o lançamento para o dia 22 de novembro. O veículo que partirá de Alcântara transportará cinco satélites e três experimentos.
O transporte dos equipamentos da UFSC começou em Florianópolis e terminou na base maranhense, onde as equipes acompanham as últimas etapas da preparação.
A operação ocorre por meio de uma parceria com a Agência Espacial Brasileira e com uma empresa privada da Coreia do Sul, que garantiu a participação sem custos para a universidade.
Entre os detalhes confirmados da missão, a equipe informa:
- os satélites vão ser lançados a cerca de 300 km de altitude
- eles vão permanecer aproximadamente 5 semanas no espaço
- cada equipamento dará 19 voltas ao redor da Terra durante o período de coleta de dados
- as informações coletadas serão enviadas para a UFSC para processamento e rastreamento
Essas etapas integram o esforço para consolidar uma nova tecnologia nacional e fortalecer o monitoramento ambiental brasileiro.
FloripaSat-2 amplia a validação de sistemas
Além do satélite ambiental, o SpaceLab se prepara para levar à órbita dois novos modelos da família FloripaSat, denominados FloripaSat-2A e FloripaSat-2B.
O lançamento ocorrerá na missão Spaceward 2025, que também partirá de Alcântara. O foco central é a validação em órbita das tecnologias desenvolvidas internamente pelo laboratório.
Será a primeira vez que uma plataforma completa projetada inteiramente pela UFSC será testada no espaço. O professor Eduardo Bezerra, coordenador do SpaceLab, ressalta que essa etapa representa o amadurecimento de uma linha de pesquisa construída ao longo dos anos.
Ele afirma que o processo une ciência, tecnologia e formação de pessoas, além de consolidar a capacidade brasileira de atuar em todas as etapas de uma missão espacial.
O projeto começou com o FloripaSat-1, lançado em 2019, quando parte dos subsistemas ainda precisava ser importada de países europeus. Agora, a plataforma FloripaSat-2 alcança autonomia total.
O laboratório projetou e testou a antena, especificou a estrutura fabricada pela empresa USIPED, de São José dos Campos, e definiu os painéis solares produzidos pela Orbital Engenharia, também localizada na cidade paulista.
A nova geração passou por ensaios dinâmicos, térmicos e ambientais. A validação em órbita confirmará a capacidade brasileira de construir satélites com tecnologia própria, além de consolidar a plataforma como base aberta para novas missões de baixo custo.
Avanços técnicos seguem padrões internacionais
Os dois satélites seguem o padrão CubeSat. O FloripaSat-2A utiliza o formato 1U, com dimensões de 10 x 10 x 11,35 cm e 1,2 kg. O FloripaSat-2B adota o modelo 2U, com 10 x 10 x 22,7 cm e 2,3 kg. Ambos contam com sistemas essenciais para missões espaciais, como:
- OBDH, responsável pelo processamento e controle de bordo
- EPS, que gerencia a energia elétrica
- TT&C, utilizado na comunicação entre os satélites e a estação de controle
Um dos experimentos mais relevantes é o teste do sistema de comunicação LoRa. A tecnologia, conhecida na área de internet das coisas, permite transmitir pequenas quantidades de dados a longas distâncias com baixo consumo de energia.
Essa será a primeira validação em órbita dessa solução no Brasil e abrirá caminho para o uso do sistema em futuras constelações de satélites.
A operação em órbita tem duração estimada de cinco semanas, com altitude média de 300 km. Esse período curto não diminui o impacto estratégico da missão, que reforça a autonomia tecnológica do país e fortalece o ecossistema nacional de nanosatélites.
A plataforma FloripaSat-2 já é utilizada por outras instituições brasileiras. A UFMA opera os satélites Aldebaran e Jussara, enquanto o SENAI CIMATEC utiliza o CIMATELITE. O modelo se consolida como alternativa aberta e colaborativa para o setor espacial nacional.
Formação de novos profissionais
A missão também se destaca pela formação de engenheiros e cientistas. Estudantes de graduação, pós-graduação e pesquisadores integram a equipe que projeta e monta todos os sistemas dos satélites. A iniciativa conta com apoio da Agência Espacial Brasileira e do CNPq.
O coordenador Eduardo Bezerra afirma que o foco do laboratório é preparar pessoas capazes de idealizar e realizar missões completas. Ele considera esse processo o motor da pesquisa acadêmica e um dos pilares para o avanço do setor espacial no país.
Foguete sul-coreano será usado no lançamento

Os satélites serão lançados no foguete HANBIT-Nano, veículo híbrido de dois estágios desenvolvido pela empresa sul-coreana Innospace. O projeto ocorre em cooperação com o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial, vinculado à Força Aérea Brasileira, e com a Agência Espacial Brasileira.
O foguete tem 21,9 metros de comprimento, 1,4 metro de diâmetro e 20 toneladas de massa total. Ele transporta até 90 kg de carga útil. A missão Spaceward 2025 é a primeira operação comercial da FAB em parceria com a empresa asiática.
A autorização foi concedida pela Korea AeroSpace Administration após o cumprimento dos padrões de segurança, ambientais e de desempenho.
A equipe do SpaceLab segue para Alcântara para acompanhar as etapas finais de integração e lançamento. A janela de lançamento vai até 28 de novembro e depende das condições climáticas e das verificações operacionais.
Marco simbólico para Alcântara e para o programa espacial
A operação representa um marco para a engenharia espacial brasileira. A participação do SpaceLab na primeira missão comercial realizada a partir do território nacional carrega significado científico, institucional e simbólico.
O lançamento ocorre mais de duas décadas após o acidente de 2003, que marcou a história do Centro Espacial de Alcântara.
A nova missão representa a retomada das operações no centro e inaugura um ciclo de reconstrução para o programa espacial brasileiro. O projeto reafirma a capacidade do país de desenvolver tecnologia própria e de investir na formação de novos profissionais.
Bezerra resume esse momento ao afirmar que o céu de Alcântara se prepara para abrir caminho a novas possibilidades da engenharia espacial nacional. Ele ressalta o impacto de ver estudantes participando diretamente dessa etapa, algo que considera a maior conquista do projeto.
