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Presidente da Argentina toma atitude extrema e argentinos migram para o Brasil para trabalhar: decisão de Javier Milei faz CPFs de argentinos saltarem de 8 mil para quase 40 mil em um ano.

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Escrito por Alisson Ficher Publicado em 10/03/2026 às 16:56 Atualizado em 10/03/2026 às 16:57
Preço da erva-mate despenca na Argentina após decisão de Javier Milei, e número de argentinos tirando CPF para trabalhar no Brasil dispara.
Preço da erva-mate despenca na Argentina após decisão de Javier Milei, e número de argentinos tirando CPF para trabalhar no Brasil dispara.
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Mudança no preço da erva-mate em Misiones, avanço dos CPFs no Brasil e busca por trabalho no Sul revelam como a crise no campo argentino passou a redesenhar rotas de migração laboral e a pressionar cadeias produtivas dos dois lados da fronteira.

O avanço de argentinos no mercado de trabalho brasileiro ganhou força nos últimos anos, sobretudo entre moradores de Misiones, província da fronteira que concentra a produção de erva-mate na Argentina.

Segundo reportagem publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, dados atribuídos à Receita Federal indicam que a concessão de CPFs para cidadãos argentinos, documento exigido para contratação formal no Brasil, saiu de uma média próxima de 8 mil por ano entre 2016 e 2021 para quase 40 mil em 2025.

O movimento ocorre em meio à queda da renda no campo argentino e à desregulamentação do setor ervateiro promovida pelo governo de Javier Milei.

Misiones, onde fica Puerto Iguazú, na tríplice fronteira, tornou-se o centro dessa mudança, de acordo com apuração do jornal Folha de S. Paulo.

A região abastece boa parte do consumo de erva-mate no país vizinho, mas produtores e trabalhadores relatam perda acelerada de renda desde que o governo argentino retirou do Instituto Nacional da Erva-Mate, o INYM, a atribuição de estabelecer preços mínimos para a matéria-prima.

O DNU 70/2023 alterou a lei do instituto e passou a enfatizar o caráter competitivo do mercado, reduzindo o papel do órgão na regulação econômica do setor.

Preço da erva-mate na Argentina após Javier Milei

Até o fim de 2023, o INYM participava da definição de valores mínimos para a folha verde e para a erva-mate cancheada, num sistema criado após forte pressão do setor produtivo no início dos anos 2000.

Em 2022 e 2023, resoluções oficiais ainda fixavam esses pisos.

Com a mudança introduzida pelo governo Milei, esse mecanismo deixou de existir, e a negociação passou a depender diretamente da correlação de forças entre produtores, secadores e indústria.

A secretária do Sindicato Único dos Trabalhadores Rurais, Ana Cubilla, afirma que o impacto foi imediato nas áreas produtoras.

Segundo ela, o quilo da folha verde, que em 2023 era remunerado em torno de 420 pesos, caiu para 180 pesos em parte de Misiones, enquanto insumos e combustíveis seguiram em alta.

Relatos mais recentes da imprensa local e de entidades do setor mostram que os valores pagos variam conforme a região e o tipo de comprador, com registros de cerca de 180 pesos no centro-sul da província, patamares mais altos no norte e números intermediários em cooperativas.

Esse encolhimento da remuneração atingiu principalmente os tarefeiros, trabalhadores responsáveis pela colheita manual da erva-mate, e também pequenos produtores.

Ángel Enrique Ozeñuk, de San Vicente, relatou que recebe cerca de 220 pesos por quilo já processado no secadeiro e diz que muitas propriedades menores passaram a sofrer com a saída da mão de obra.

Para ele, parte desses trabalhadores encontrou no Brasil uma forma de sustentar a família diante da deterioração do rendimento em Misiones.

Argentinos buscam trabalho no Brasil e ampliam migração sazonal

O deslocamento ganhou corpo nas colheitas temporárias do Rio Grande do Sul.

Joaquin Rios, de 32 anos, morador de San Pedro e pai de duas crianças, deixou a atividade na erva-mate e passou a trabalhar na colheita da uva em Pinto Bandeira, em relato citado em reportagem do jornal Folha de S. Paulo.

Ele relatou que, na Argentina, o valor pago por quilo já não encontrava correspondência prática no mercado e que, no Brasil, recebe também alimentação e transporte.

“Além da passagem, temos almoço e jantar, nós nem cozinhamos”.

No local onde atua, afirmou haver centenas de argentinos em situação semelhante.

Outro trabalhador, Lúcio Rodríguez Velasquez, disse circular pelo Brasil desde 2018, com passagens por colheitas de tomate, maçã, uva e morango em municípios como Flores da Cunha, Nova Pádua e Caxias do Sul.

Segundo ele, o ganho diário de R$ 180 permite atravessar o mês com margem financeira superior à obtida em Misiones.

O fluxo, portanto, não se limita a um deslocamento pontual: ele já forma uma rede de trabalho sazonal que conecta cidades argentinas a polos agrícolas do Sul brasileiro.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bento Gonçalves, Cedenir Postal, relatou crescimento da presença argentina nas safras de uva do município nos últimos três anos; o jornal Folha de S. Paulo também apontou que o fluxo migratório passou a crescer de forma contínua nesse período.

A dinâmica, segundo ele, funciona por indicação entre parentes, vizinhos e conhecidos, num processo em que um trabalhador puxa o outro à medida que encontra remuneração melhor e contratação mais previsível no lado brasileiro da fronteira.

Colheita no Sul do Brasil e falta de mão de obra no campo

A absorção desses trabalhadores também se explica por carências do agronegócio gaúcho.

Representantes do setor rural afirmam que falta mão de obra para a colheita, enquanto produtores brasileiros valorizam a experiência dos argentinos no trabalho agrícola, especialmente na poda e na colheita manual.

Ilvandro Barreto, da Câmara Setorial da Erva-Mate do Rio Grande do Sul, sustenta que os tarefeiros chegam com conhecimento técnico sobre a planta e preservam melhor a fisiologia da árvore durante a retirada das folhas.

Ao mesmo tempo, o ambiente de contratação no campo mudou após o escândalo trabalhista envolvendo a colheita da uva em 2023.

Naquele ano, mais de 200 trabalhadores foram resgatados em situação análoga à escravidão na Serra Gaúcha, e o episódio levou grandes vinícolas a reforçarem a contratação temporária sob regime CLT depois de compromissos firmados com o Ministério Público do Trabalho.

Em janeiro de 2025, outra operação oficial resgatou quatro argentinos em São Marcos, mostrando que o problema não desapareceu, embora o setor tenha ampliado a pressão por vínculos formais.

Postal afirma que os argentinos demonstram menor resistência ao trabalho formal, característica que se tornou ainda mais importante nesse novo cenário de fiscalização.

Para empregadores, isso ajuda a preencher vagas sazonais com menos risco jurídico.

Para os migrantes, o CPF passa a ser a porta de entrada para carteira assinada, conta bancária, aluguel e permanência mais estável durante a safra.

Competitividade da erva-mate e efeito regional na fronteira

A mudança regulatória também teve reflexos na concorrência internacional.

Barreto avalia que a erva-mate argentina vinha perdendo espaço para o produto brasileiro antes da desregulamentação e que a queda do preço da matéria-prima aproximou os custos argentinos dos praticados no Brasil.

Esse ajuste, porém, teve efeito desigual: pode melhorar competitividade de parte da cadeia exportadora, mas reduziu a renda na base produtiva e acelerou a saída de trabalhadores de Misiones.

Em vez de uma migração motivada por um único fator, o que se vê é a combinação entre liberação de preços, compressão da renda rural, redes informais de recrutamento e demanda por mão de obra no Sul do Brasil.

O resultado aparece tanto nas estatísticas de CPF quanto nas frentes de colheita, onde a presença argentina deixou de ser exceção e passou a integrar a paisagem do trabalho sazonal na região.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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