Pouca visibilidade do Teredo navalis faz estruturas de madeira falharem sem aviso, elevando custos de manutenção e risco operacional em portos e marinas.
Debaixo da linha d’água, onde a maioria das inspeções é difícil e a decomposição vira rotina, existe um inimigo silencioso de estruturas de madeira que não precisa de tempestades para causar prejuízo.
O Teredo navalis, conhecido internacionalmente como naval shipworm e frequentemente chamado de verme-do-navio, é um bivalve marinho altamente modificado que perfura madeira submersa e abre galerias internas capazes de comprometer estacas, plataformas, cascos antigos, boias, docas e até partes de muros e obras costeiras que usam madeira como elemento estrutural.
Embora o apelido sugira um verme, trata-se de um molusco da família dos teredinídeos, aparentado a mariscos e ostras.
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A diferença é que, ao longo da evolução, o animal reduziu a concha a duas pequenas peças na extremidade anterior do corpo e passou a usá-las como ferramenta, raspando e moendo fibras de madeira para avançar.
Do lado de fora, um poste ou uma viga podem parecer intactos por algum tempo; por dentro, o material pode estar atravessado por túneis, perdendo a resistência que sustentava o peso e a pressão do mar.
O risco estrutural é agravado por um detalhe básico do comportamento desse organismo: ele vive dentro do próprio túnel que escava.
Em outras palavras, a ação destrutiva acontece “encapsulada” na madeira, com pouca evidência imediata na superfície.

Quando o problema aparece, costuma surgir como falha de fixação, quebra de estaca, deslocamento de peças e deformações que obrigam a interdição preventiva, a substituição de componentes e a revisão de projetos em áreas com presença constante do perfurador.
Distribuição global e presença em portos e estuários
O Teredo navalis é descrito por bases de referência como uma das espécies de perfuradores de madeira mais disseminadas do planeta, associada a danos em embarcações, estruturas portuárias e elementos costeiros de madeira.
A mesma fonte registra que a espécie suporta variações amplas de temperatura e salinidade, o que ajuda a explicar por que consegue se estabelecer em estuários, águas costeiras e portos com condições ambientais muito diferentes entre si, inclusive em áreas onde outras espécies de perfuradores seriam menos eficientes.
A distribuição global do verme-do-navio também carrega um aspecto que chama a atenção de pesquisadores: a origem nativa do Teredo navalis não é considerada resolvida.
Em regiões onde a navegação e o uso de madeira no mar são antigos, é difícil separar o que é histórico do que foi transportado por rotas comerciais ao longo do tempo.
Ainda assim, registros compilados por instituições científicas classificam o animal como introduzido em determinadas costas e países, incluindo o Brasil, além de apontar sua ampla presença em diferentes continentes.
Casos históricos e impacto econômico em infraestrutura marítima
A história marítima oferece exemplos que ajudam a entender por que o tema não é apenas biológico, mas também de engenharia e economia.
Documentos e estudos sobre o litoral holandês descrevem um episódio no século XVIII em que componentes de madeira usados para proteção costeira sofreram danos extensos atribuídos a shipworms, desencadeando respostas técnicas e debates sobre materiais de defesa contra o mar.
Em linguagem prática, a questão ia além de “pragas em navios”: envolvia a confiabilidade de barreiras e proteções que amorteciam a força das ondas e protegiam áreas baixas de inundações.

Em outro caso frequentemente citado em compilações científicas, a chegada do Teredo navalis à baía de San Francisco, nos Estados Unidos, foi associada a destruição severa de estruturas de madeira ao longo de áreas portuárias e industriais.
O registro reúne referências históricas e aponta estimativas de danos que ultrapassaram US$ 500 milhões em valores de 1995, com base em levantamentos e literatura técnica do período.
O número é lembrado justamente por traduzir, em moeda, o efeito de um organismo pequeno sobre infraestrutura construída para durar décadas.
Onde a madeira ainda é vulnerável no ambiente marinho
A lógica é simples, mas difícil de aceitar à primeira vista: a madeira submersa, por melhor que pareça, pode virar alvo contínuo de perfuração biológica.
Em portos e marinas, isso envolve estacas de fundação, defensas, passarelas e estruturas auxiliares.
Em regiões costeiras, pode envolver componentes de obras de contenção, quebra-mares, revestimentos e antigas estruturas de proteção que ainda dependem de madeira, seja por herança histórica, seja por custo e disponibilidade local.
Medidas de proteção, materiais e rotinas de inspeção
Quando o tema chega à mesa de gestores e engenheiros, a discussão costuma migrar rapidamente do “o que é” para o “como evitar”.
A literatura reunida por bases científicas registra que, historicamente, cascos e componentes de madeira foram protegidos com soluções como revestimentos metálicos e aplicação de materiais como alcatrão, além do uso de madeiras mais resistentes ao ataque.
Em infraestrutura fixa, o enfrentamento passa por escolhas de projeto e manutenção:
- substituir madeira por aço, concreto ou compósitos onde for viável
- isolar fisicamente a superfície com barreiras e capas protetoras
- adotar madeira tratada quando permitido
- realizar monitoramento subaquático em pontos críticos
A presença do Teredo navalis também força uma conversa sobre prevenção e vigilância, porque o transporte marítimo movimenta estruturas, cascos e materiais entre regiões.
Como perfuradores conseguem se alojar em madeira à deriva, pilhas e peças submersas, o controle não depende apenas de reconhecer o animal em laboratório, mas de criar rotinas de inspeção que detectem galerias e fragilização antes que a falha vire um acidente ou uma interrupção operacional.
Na prática, o que transforma o verme-do-navio em notícia recorrente em diferentes países não é um evento isolado, e sim a combinação de três fatores: madeira ainda é usada em ambientes marinhos; o organismo atua de forma contínua e discreta; e a consequência costuma aparecer na forma de manutenção cara e urgente, muitas vezes sob pressão de maré, ondas e operação portuária.


Concordo plenamente com os comentários do colega Dr. Hélcio. Me parece que a irresponsabilidade do site não reside apenas na confusão de imagens, o que demonstra falta de critério na seleção e revisão dos textos, colocados por geradores de conteúdo, que não possuem afinidade com o tema, nem mesmo sabem diferenciar um crutáceo de um molusco. Lamentável.
Sou o Helcio.Marques pesquisador científico do Instituto de Pesca de SP e especialista em camarões de água doce. Há alguns dias esse mesmo site publicou uma notícia mentirosa a respeito do camarão Macrobrachium rosenbergii que foi refutada por mim e outros colegas. Agora, para ilustrar uma matéria sobre um molusco petfurador, o site coloca a foto do mesmo camarão. Não pode ser coincidência. Parece que o site está sendo cooptado por alguém ou por algum grupo interessado em demonizar essa espécie de camarão. Gostaria que alguém responsável pelo site entrasse em contato comigo para debatermos com argumentos sérios e responsaveis essa série de ataques coordenados contra a espécie em questão.
O que tem haver um camarão “crustáceo ” da foto com esse ****???