1. Início
  2. Ciência e Tecnologia
  3. O projeto Xlinks vai enterrar 3.800 quilômetros de cabo no Atlântico para exportar energia solar do Marrocos direto para tomadas britânicas sem uma única turbina no meio do caminho
Faça um comentário 5 min de leitura

O projeto Xlinks vai enterrar 3.800 quilômetros de cabo no Atlântico para exportar energia solar do Marrocos direto para tomadas britânicas sem uma única turbina no meio do caminho

Imagem de perfil do autor Douglas Avila
Escrito por Douglas Avila Publicado em 01/07/2026 às 19:17 Atualizado em 01/07/2026 às 19:25
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

O Xlinks Morocco-UK Power Project planeja instalar 10,5 gigawatts de capacidade solar e eólica no deserto do Marrocos e transmitir até 3,6 gigawatts de eletricidade ao Reino Unido através de 3.800 quilômetros de cabo de corrente contínua de alta tensão enterrado no fundo do Atlântico — contornando Portugal e Espanha antes de emergir no País de Gales, num projeto que seria a maior linha de transmissão elétrica submarina já construída.

Como funciona o cabo e por que 3.800 km são possíveis

Cabos submarinos de corrente contínua de alta tensão — HVDC, na sigla em inglês — já existem há décadas, mas em distâncias muito menores. O cabo Xlinks seria mais longo do que qualquer outro já construído. O recorde atual é do NordLink, que conecta Noruega e Alemanha por cerca de 620 km. O Xlinks seria seis vezes mais longo.

A física favorece a corrente contínua para transmissão de longa distância: as perdas de energia em corrente contínua são muito menores do que em corrente alternada ao longo de distâncias acima de alguns centenas de quilômetros, o que torna a transmissão transatlântica economicamente viável num patamar que seria impossível com a tecnologia de 20 anos atrás. As estações conversoras — que transformam a corrente contínua vinda do Marrocos em corrente alternada para a rede britânica — ficam nos dois extremos.

O cabo percorre o fundo do oceano Atlântico em profundidades que chegam a 4.000 metros, contornando a Península Ibérica pelo oeste. A rota foi escolhida para evitar cruzar territórios de outros países e suas jurisdições regulatórias, mantendo o projeto como bilateral entre Marrocos e Reino Unido.

Por que o Marrocos e por que o Reino Unido

O Marrocos tem irradiação solar entre as mais altas da Europa e África — nas regiões do deserto do Saara e no sul do país, a energia solar é abundante, barata e previsível. O custo do megawatt-hora solar no Marrocos está entre os mais baixos do mundo, graças à combinação de insolação extrema e custo de terra baixo.

O Reino Unido, por sua vez, tem um problema: seu potencial solar é limitado por latitude e clima. Mesmo com a maior frota offshore de eólica do mundo, o UK enfrenta “estiagens” de geração renovável nos períodos de inverno com pouco vento. Importar energia solar do Marrocos resolve exatamente essa intermitência — o pico solar africano ocorre quando a demanda elétrica britânica é maior no verão, e as baterias integradas ao projeto fornecem energia durante a noite.

O projeto projeta abastecer entre 7% e 8% da demanda elétrica do Reino Unido de forma permanente. Para um país que fixou meta de descarbonização total do setor elétrico até 2035, essa fatia de energia firme e limpa vinda do exterior tem valor estratégico que vai além do preço do megawatt-hora.

Os desafios técnicos e políticos de um cabo de 3.800 km

Um projeto dessa escala não tem precedente operacional. Os cabos de telecomunicações transatlânticos têm diâmetro da grossura de um pulso humano — o cabo Xlinks terá diâmetro muito maior, pois precisa carregar gigawatts de eletricidade. A instalação exige navios lançadores de cabo especializados que operam por meses, e qualquer falha ao longo da rota requer reparo em profundidades que desafiam qualquer ROV existente.

O investimento total estimado é superior a 20 bilhões de euros, tornando o Xlinks um dos projetos de infraestrutura energética mais caros já propostos por uma empresa privada. O modelo de financiamento ainda está em desenvolvimento — o projeto precisa de contratos de compra de energia de longo prazo com o governo britânico para viabilizar o financiamento bancário.

Politicamente, o projeto é um marco na cooperação energética Europa-África. A geopolítica da energia mudou radicalmente com a invasão russa da Ucrânia: a Europa precisa diversificar fontes com urgência. O Marrocos, que já exporta eletricidade para a Espanha via cabo existente, aparece agora como o hub energético estratégico da África do Norte para o continente europeu.

O que o Xlinks sinaliza para o futuro da energia global

O Xlinks representa uma mudança de paradigma: energia renovável não precisa ser consumida onde é gerada. Países com abundância de sol ou vento podem exportar sua vantagem geográfica via cabo — assim como países exportam petróleo ou gás natural, mas sem o CO₂.

Para o Brasil — que tem irradiação solar entre as maiores do mundo, especialmente no Nordeste —, o projeto Xlinks é um espelho do que poderia ser feito com planejamento e investimento de longo prazo. O Brasil já exporta energia hidrelétrica do Norte para o Sul via linhas de transmissão continentais. Exportar solar para a Europa via cabo submarino seria a versão oceânica do mesmo princípio — e o Atlântico Sul que separa o Nordeste brasileiro da África é bem mais curto do que os 3.800 km do Xlinks.

O timing do projeto Xlinks é importante de entender. A empresa foi fundada em 2020 e já passou por várias rodadas de levantamento de capital e negociação de licenças com o governo marroquino, o regulador energético britânico e os reguladores dos países costeiros pelo qual o cabo vai passar. O projeto está em estágio avançado de viabilidade técnica e econômica, mas ainda não atingiu o “final investment decision” (FID) — o momento em que os financiadores assinam e a construção começa. A estimativa é que o FID aconteça entre 2026 e 2028, com a operação comercial prevista para a segunda metade dos anos 2030. Isso coloca o Xlinks no mesmo horizonte que outros megaprojetos de infraestrutura energética europeia — a eólica offshore do Mar do Norte, os corredores de hidrogênio verde, as interconexões submarinas da bacia mediterrânea. É uma aposta de longo prazo, mas baseada em tecnologia que já existe e em necessidade que só vai crescer. O custo do cabo, que parece absurdo hoje, vai parecer modesto quando comparado ao custo de depender de gás natural russo por mais uma década.

Se o Marrocos vai vender energia solar para o Reino Unido cruzando o Atlântico, qual é a distância entre o sol do sertão nordestino e a tomada de uma casa europeia?

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Tags
Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x