O Xlinks Morocco-UK Power Project planeja instalar 10,5 gigawatts de capacidade solar e eólica no deserto do Marrocos e transmitir até 3,6 gigawatts de eletricidade ao Reino Unido através de 3.800 quilômetros de cabo de corrente contínua de alta tensão enterrado no fundo do Atlântico — contornando Portugal e Espanha antes de emergir no País de Gales, num projeto que seria a maior linha de transmissão elétrica submarina já construída.
Como funciona o cabo e por que 3.800 km são possíveis
Cabos submarinos de corrente contínua de alta tensão — HVDC, na sigla em inglês — já existem há décadas, mas em distâncias muito menores. O cabo Xlinks seria mais longo do que qualquer outro já construído. O recorde atual é do NordLink, que conecta Noruega e Alemanha por cerca de 620 km. O Xlinks seria seis vezes mais longo.
A física favorece a corrente contínua para transmissão de longa distância: as perdas de energia em corrente contínua são muito menores do que em corrente alternada ao longo de distâncias acima de alguns centenas de quilômetros, o que torna a transmissão transatlântica economicamente viável num patamar que seria impossível com a tecnologia de 20 anos atrás. As estações conversoras — que transformam a corrente contínua vinda do Marrocos em corrente alternada para a rede britânica — ficam nos dois extremos.
O cabo percorre o fundo do oceano Atlântico em profundidades que chegam a 4.000 metros, contornando a Península Ibérica pelo oeste. A rota foi escolhida para evitar cruzar territórios de outros países e suas jurisdições regulatórias, mantendo o projeto como bilateral entre Marrocos e Reino Unido.
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Por que o Marrocos e por que o Reino Unido
O Marrocos tem irradiação solar entre as mais altas da Europa e África — nas regiões do deserto do Saara e no sul do país, a energia solar é abundante, barata e previsível. O custo do megawatt-hora solar no Marrocos está entre os mais baixos do mundo, graças à combinação de insolação extrema e custo de terra baixo.
O Reino Unido, por sua vez, tem um problema: seu potencial solar é limitado por latitude e clima. Mesmo com a maior frota offshore de eólica do mundo, o UK enfrenta “estiagens” de geração renovável nos períodos de inverno com pouco vento. Importar energia solar do Marrocos resolve exatamente essa intermitência — o pico solar africano ocorre quando a demanda elétrica britânica é maior no verão, e as baterias integradas ao projeto fornecem energia durante a noite.
O projeto projeta abastecer entre 7% e 8% da demanda elétrica do Reino Unido de forma permanente. Para um país que fixou meta de descarbonização total do setor elétrico até 2035, essa fatia de energia firme e limpa vinda do exterior tem valor estratégico que vai além do preço do megawatt-hora.
Os desafios técnicos e políticos de um cabo de 3.800 km
Um projeto dessa escala não tem precedente operacional. Os cabos de telecomunicações transatlânticos têm diâmetro da grossura de um pulso humano — o cabo Xlinks terá diâmetro muito maior, pois precisa carregar gigawatts de eletricidade. A instalação exige navios lançadores de cabo especializados que operam por meses, e qualquer falha ao longo da rota requer reparo em profundidades que desafiam qualquer ROV existente.
O investimento total estimado é superior a 20 bilhões de euros, tornando o Xlinks um dos projetos de infraestrutura energética mais caros já propostos por uma empresa privada. O modelo de financiamento ainda está em desenvolvimento — o projeto precisa de contratos de compra de energia de longo prazo com o governo britânico para viabilizar o financiamento bancário.
Politicamente, o projeto é um marco na cooperação energética Europa-África. A geopolítica da energia mudou radicalmente com a invasão russa da Ucrânia: a Europa precisa diversificar fontes com urgência. O Marrocos, que já exporta eletricidade para a Espanha via cabo existente, aparece agora como o hub energético estratégico da África do Norte para o continente europeu.
O que o Xlinks sinaliza para o futuro da energia global
O Xlinks representa uma mudança de paradigma: energia renovável não precisa ser consumida onde é gerada. Países com abundância de sol ou vento podem exportar sua vantagem geográfica via cabo — assim como países exportam petróleo ou gás natural, mas sem o CO₂.
Para o Brasil — que tem irradiação solar entre as maiores do mundo, especialmente no Nordeste —, o projeto Xlinks é um espelho do que poderia ser feito com planejamento e investimento de longo prazo. O Brasil já exporta energia hidrelétrica do Norte para o Sul via linhas de transmissão continentais. Exportar solar para a Europa via cabo submarino seria a versão oceânica do mesmo princípio — e o Atlântico Sul que separa o Nordeste brasileiro da África é bem mais curto do que os 3.800 km do Xlinks.
O timing do projeto Xlinks é importante de entender. A empresa foi fundada em 2020 e já passou por várias rodadas de levantamento de capital e negociação de licenças com o governo marroquino, o regulador energético britânico e os reguladores dos países costeiros pelo qual o cabo vai passar. O projeto está em estágio avançado de viabilidade técnica e econômica, mas ainda não atingiu o “final investment decision” (FID) — o momento em que os financiadores assinam e a construção começa. A estimativa é que o FID aconteça entre 2026 e 2028, com a operação comercial prevista para a segunda metade dos anos 2030. Isso coloca o Xlinks no mesmo horizonte que outros megaprojetos de infraestrutura energética europeia — a eólica offshore do Mar do Norte, os corredores de hidrogênio verde, as interconexões submarinas da bacia mediterrânea. É uma aposta de longo prazo, mas baseada em tecnologia que já existe e em necessidade que só vai crescer. O custo do cabo, que parece absurdo hoje, vai parecer modesto quando comparado ao custo de depender de gás natural russo por mais uma década.
Se o Marrocos vai vender energia solar para o Reino Unido cruzando o Atlântico, qual é a distância entre o sol do sertão nordestino e a tomada de uma casa europeia?
