Mesmo expostos à corrente alternada, variações de voltagem e redes de alta tensão, aves sobrevivem graças a princípios físicos pouco explicados nas aulas tradicionais
É uma cena cotidiana em cidades do mundo inteiro: pássaros pousam tranquilamente sobre fios elétricos que transportam milhares de volts, como se estivessem completamente imunes ao perigo. À primeira vista, a explicação parece simples e costuma ser ensinada ainda na escola. No entanto, quando a física entra em detalhes, o fenômeno se mostra mais complexo — e até contraintuitivo.
A informação foi divulgada pela BBC Science Focus, em um artigo que desmonta a explicação simplificada ensinada em aulas de física e apresenta os fatores reais que impedem que essas aves sejam eletrocutadas. Conforme a análise, os pássaros não escapam do choque porque não há corrente, mas porque a corrente que existe é pequena demais para causar danos.
A explicação clássica que não conta toda a história
Tradicionalmente, ensina-se que pássaros não tomam choque porque ambas as patas estão no mesmo fio, o que significa que não existe diferença de potencial elétrico entre elas. Sem essa diferença, não há força capaz de empurrar os elétrons através do corpo da ave. Assim, a eletricidade continua fluindo pelo fio, que oferece menor resistência do que o corpo do animal.
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Essa explicação está correta — mas apenas em sistemas de estado estacionário, nos quais a tensão não varia com o tempo. O problema é que linhas de energia não funcionam assim. Diferentemente de baterias, os fios de transmissão e distribuição transportam corrente alternada (AC), na qual a direção da corrente muda constantemente.
Basta lembrar de uma situação comum para perceber a falha do argumento clássico: uma pessoa pode levar choque ao tocar um carro estacionado, mesmo que o veículo esteja isolado do solo e não exista um circuito fechado. Isso ocorre porque a variação de voltagem é suficiente para gerar corrente momentânea através do corpo.
Corrente alternada, capacitância e microcorrentes no corpo das aves
As redes elétricas utilizam corrente alternada, em que a tensão oscila entre valores positivos e negativos. No Reino Unido, por exemplo, a frequência dessas oscilações é de 50 hertz (50 Hz), o que significa 50 ciclos por segundo. Em cada ciclo, a voltagem muda de direção, carregando e descarregando tudo o que está conectado ao fio — inclusive um pássaro pousado sobre ele.
Isso significa que, ao contrário do que muitos imaginam, há sim corrente elétrica atravessando o corpo da ave. A razão pela qual ela não sofre choque está ligada a outro conceito fundamental da física: a capacitância.
Capacitância é a capacidade de um corpo de armazenar carga elétrica. Pássaros são pequenos e têm um formato aproximado de uma esfera, o que limita drasticamente essa capacidade. Como resultado, mesmo em um fio de 50 Hz, a corrente que atravessa o corpo da ave fica na ordem de microampères (μA) — algo em torno de 0,00000001 ampère.
Para efeito de comparação, em seres humanos:
- 10 miliampères (0,01 amp) já são suficientes para causar um choque doloroso;
- A eletrocussão pode ocorrer a partir de cerca de 50 miliampères.
Ou seja, embora exista corrente elétrica passando pelo corpo do pássaro, ela é milhões de vezes menor do que o necessário para causar qualquer dano fisiológico.
Redes de alta tensão e quando o risco se torna real
O cenário muda drasticamente quando falamos de linhas de transmissão de alta tensão. Essas redes operam com valores muito superiores aos da distribuição urbana, variando entre 275 kV e 400 kV no Reino Unido, podendo chegar a 800 kV em algumas regiões do mundo.
Em tensões tão elevadas, o campo elétrico ao redor do fio se torna intenso o suficiente para ionizar o ar, criando um gradiente de voltagem que aumenta conforme a proximidade do cabo. Esse efeito é facilmente observado quando técnicos se aproximam dessas linhas com hastes condutoras e faíscas surgem antes mesmo do contato físico.
Nessas condições, um pássaro pode sentir a presença da eletricidade antes de pousar e, em muitos casos, evita o fio. Contudo, se estiver voando em alta velocidade ou não conseguir desviar a tempo, o gradiente elétrico pode ser suficiente para gerar uma corrente intensa através do corpo, levando à eletrocussão ou a um choque tão forte que provoca a queda e a morte do animal.
Outro risco ocorre quando o pássaro toca dois fios com tensões diferentes ou entra em contato simultâneo com um fio energizado e uma estrutura aterrada, como postes ou torres. Nesses casos, cria-se um curto-circuito, e a diferença de potencial gera uma corrente letal.
As aves mais vulneráveis são as de grande porte e voo rápido, como aves de rapina, corujas, pelicanos, flamingos, cegonhas, cisnes e gansos. Há registros, inclusive, de incêndios florestais iniciados após pássaros colidirem com linhas de alta tensão e caírem em chamas.
Por esse motivo, organizações de conservação e empresas de energia em todo o mundo desenvolvem medidas preventivas, como espaçadores, isoladores e sinalização visual, para reduzir o impacto das linhas elétricas sobre a fauna e o meio ambiente.


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