Em Helsinque, os Estados Unidos encomendaram 11 navios quebra gelos com apoio da Finlândia para ampliar a atuação no Ártico, provocar mudança no equilíbrio de poder e chamar atenção de Rússia, China e aliados ocidentais
Enquanto Donald Trump insiste que os Estados Unidos precisam se apropriar da Groenlândia, um movimento prático ganhou força nos bastidores e virou sinal claro de mudança na região ártica: Washington decidiu encomendar novos navios quebra gelos.
O detalhe que mais chamou atenção foi a escolha do parceiro. Para construir navios capazes de navegar por mares cobertos por gelo sólido, os Estados Unidos recorreram ao país que é referência mundial nesse tipo de embarcação, a Finlândia.
Em Helsinque, no laboratório de gelo da Aker Arctic Technology, o cenário parece uma prévia do que está por vir. Temperaturas abaixo de zero, um tanque de simulação com 70 metros de comprimento e uma maquete em escala abrindo um canal limpo na água congelada.
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O que aconteceu e por que os quebra gelos entraram no centro da disputa pelo Ártico e pela Groenlândia
O aumento do interesse americano pelo Ártico se conectou diretamente ao debate sobre a Groenlândia e ao crescimento da competição internacional na região.
Foi nesse contexto que Donald Trump anunciou, em outubro, que os Estados Unidos planejavam encomendar quatro quebra gelos junto à Finlândia para a Guarda Costeira americana.
Além disso, outros sete navios, chamados pelos Estados Unidos de patrulhas de segurança do Ártico, serão construídos em território americano, usando projetos e tecnologia finlandeses.
Trump resumiu o motivo da escolha dizendo que os Estados Unidos estão comprando os melhores quebra gelos do mundo e que a Finlândia é conhecida pela fabricação desses navios.
Como a engenharia finlandesa rompe gelo sólido e por que o formato do casco virou peça chave

Dentro do laboratório de gelo, o projeto não é apenas teoria. O desempenho é testado em condições controladas para simular o que acontece no mar.
A engenheira Riikka Matala, especializada em desempenho no gelo, explica que o navio precisa ter resistência estrutural e potência de motor suficiente. Esse equilíbrio é essencial para manter a operação segura e constante em áreas com gelo espesso.
O diretor executivo da Aker Arctic Technology, Mika Hovilainen, reforça que o formato do navio também é decisivo.
Segundo ele, o casco deve romper o gelo dobrando a camada para baixo, sem cortar nem fatiar. É esse tipo de detalhe técnico que muda completamente a eficiência de um quebra gelo em operação real.
Números da Finlândia mostram por que o país virou superpotência dos quebra gelos
A liderança da Finlândia nesse setor não é apenas reputação, ela aparece nos números.
Empresas finlandesas projetaram 80 por cento de todos os navios quebra gelos atualmente em operação. E 60 por cento dessas embarcações foram construídas nos estaleiros do país.
Maunu Visuri, presidente e diretor executivo da empresa estatal finlandesa Arctia, que opera uma frota de oito quebra gelos, afirma que o domínio veio por necessidade.
Ele explica que este é o único país do mundo onde todos os portos podem congelar durante o inverno. E destaca que 97 por cento dos produtos importados pela Finlândia chegam por via marítima.
Durante os meses mais frios, os quebra gelos mantêm os portos abertos e servem para orientar grandes navios de carga. Visuri resume a dependência com uma frase direta: a Finlândia costuma dizer que é uma ilha.
Contratos assinados, construção em dois países e entrega prevista para 2028
Depois do anúncio preliminar, os primeiros contratos foram firmados no dia 29 de dezembro.
A empresa finlandesa Rauma Marine Constructions vai fabricar dois quebra gelos para a Guarda Costeira americana no estaleiro localizado no porto de Rauma, na Finlândia.
A previsão é que o primeiro seja entregue em 2028. E outros quatro navios serão construídos no estado americano da Louisiana.
No total, serão seis embarcações com propulsão diesel elétrica, seguindo um projeto da Aker Arctic Technology em colaboração com o sócio canadense Seaspan.
Um ponto importante é que a legislação americana determina que navios da Marinha e da Guarda Costeira devem ser construídos em território nacional. Mesmo assim, neste caso, Trump descartou a exigência alegando motivos de segurança nacional.
Ele citou a atitude militar agressiva e a intrusão econômica de adversários estrangeiros, em referência à Rússia e à China.
Ártico mais navegável, rotas comerciais e a comparação que revela a corrida contra Rússia e China
A decisão americana ocorre em um momento em que mudanças climáticas tornam o Oceano Ártico mais navegável para navios de carga, desde que quebra gelos abram caminho.
Esse cenário abre rotas comerciais entre Ásia e Europa, seja pelo norte da Rússia ou pelo norte do Alasca até o Canadá continental, descendo pela Groenlândia.
A redução do gelo também deixa jazidas de petróleo e gás do Ártico mais acessíveis, aumentando o interesse econômico e estratégico pela região.
O oficial aposentado da Marinha americana Peter Rybski, especialista em navios quebra gelos que mora em Helsinque, afirma que existe agora muito mais trânsito naquela parte do mundo.
Ele cita uma indústria ativa de exploração e extração de petróleo e gás na Rússia, além de uma nova rota de transbordo emergente entre Europa e Ásia.
A comparação entre frotas ajuda a entender a escala da disputa. A Rússia possui atualmente cerca de 40 navios quebra gelos, oito deles movidos a energia nuclear. Já os Estados Unidos possuem apenas três em funcionamento.
A China opera cerca de cinco navios com capacidade de navegar em regiões polares. Mas, segundo Rybski, nenhum deles é tecnicamente um quebra gelo, por não atender aos critérios rigorosos estabelecidos.
Mesmo assim, ele afirma que a China está aumentando sua frota e enviando cada vez mais navios de pesquisa para águas do Ártico entre o Alasca e o extremo leste da Rússia, incluindo regiões que os Estados Unidos consideram sua zona econômica exclusiva.
Para ele, com meios limitados para reagir, isso se torna um problema para os Estados Unidos.
Quebra gelos viram ferramenta de poder, e estaleiro de Helsinque tenta novos contratos
O desejo de ampliar a frota americana vai além do lado prático, segundo a pesquisadora Lin Mortensgaard, do Instituto Dinamarquês de Estudos Internacionais.
Para ela, também é uma questão de projetar poder. Ela explica que, por mais porta aviões que um país tenha, não é possível navegar com esse tipo de navio na região central do Oceano Ártico.
Nesse cenário, os quebra gelos se tornam praticamente o único tipo de navio de guerra que permite demonstrar capacidade real na região e reforçar presença como Estado ártico.
De volta à Finlândia, o estaleiro de Helsinque ocupa um cais no litoral da capital e foi responsável pela fabricação de metade dos quebra gelos do mundo.
O estaleiro pertence à empresa canadense Davie e também espera conseguir novos contratos da Guarda Costeira americana.
O diretor geral do estaleiro, Kim Salmi, afirma que a situação geopolítica mudou e cita a Rússia, que está construindo uma frota nova, e a China, que também está avançando.
Ele afirma que os Estados Unidos, o Canadá e aliados ocidentais em geral buscam equilíbrio de poder.
Dentro de um enorme hangar de construção naval, trabalhadores cortam e soldam aço para o último quebra gelo do estaleiro, um navio ártico de grande capacidade chamado Polarmax, destinado à Guarda Costeira canadense.
Visuri afirma que os finlandeses conseguem construir esses navios complexos com rapidez, entre dois anos e meio e três anos, graças a um método de produção otimizado e décadas de experiência.
Ele diz que praticam isso há mais de 100 anos, em um ciclo formado por projetistas, operadores e construtores, e por isso a Finlândia se tornou a superpotência dos quebra gelos.
No fim, o que parecia apenas uma compra técnica virou um recado geopolítico. Mais navios, mais presença, mais rotas possíveis e uma disputa cada vez mais visível no coração do Ártico.
