Pneus velhos que antes ficavam jogados na natureza viram artesanato de impacto no meio oeste catarinense, com peças que atraem motoristas e sustentam uma família após o desemprego
Esta história mostra como pneus velhos podem deixar de ser problema e virar sustento, criatividade e vitrine a céu aberto. No meio oeste de Santa Catarina, um artesão transforma o que estava na beira da rodovia em vasos, bancos e esculturas que chamam atenção de quem passa.
E tudo começou de um jeito duro. Lauvir, aos 55 anos, perde o emprego na véspera de Natal, leva o choque do desemprego e precisa encontrar um caminho rápido para manter a família. É aí que os pneus velhos entram como matéria-prima e como oportunidade real.
O artesanato de pneus velhos que muda a paisagem da estrada

Na estrada de acesso entre Joaçaba e Luzerna, motoristas desaceleram ao ver um colorido diferente na beira da rodovia. De longe, parece um jardim de esculturas.
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De perto, vem a surpresa: quase tudo nasce de pneus velhos, muitos deles recolhidos da natureza.
O autor é Lauvir. Ele mesmo conta que não imaginava viver isso até pouco tempo atrás. O que era descarte vira peça pronta para expor, vender e encomendar, com detalhes que fazem o público parar, olhar e fotografar.
O choque do desemprego e a virada com pneus velhos
Lauvir trabalhava em uma empresa e fica desempregado justamente na véspera de Natal. Ele descreve o impacto e o medo do futuro, ainda mais porque a idade pesa na hora de buscar recolocação. A sensação é de travar, sem saber o que fazer.
A virada vem dentro de casa. Ele já tinha feito um cisne de pneu, e a esposa incentiva: se dá para fazer uma peça, por que não tentar outras?
A partir daí, pneus velhos deixam de ser só borracha e viram um plano de vida, com esculturas e vasos aparecendo como possibilidade concreta.
O mosquito e a vitrine na beira da rodovia
Uma das obras que chama atenção é um mosquito transmissor da dengue. A escultura pode até não ter vendido de imediato, mas cumpre um papel decisivo: vira vitrine. Muita gente vê, comenta e entende que ali existe um trabalho diferente.
Com isso, a “bicharada” começa a crescer. Aparecem sapos, cavalos, zebras, insetos e outras formas. A cada nova peça, mais curiosos param, e o artesanato com pneus velhos ganha força como negócio.
Como ele transforma pneus velhos em vasos e peças prontas para plantar
O processo mistura força, ferramenta e cuidado. Para cortar a borracha, ele usa faca. Para lidar com o arame do pneu, precisa de ferramenta como Makita e lixadeira.
A peça que tem saída forte, segundo ele, é um modelo que muita gente compra para plantar, como alface.
Depois do corte, ele vira o pneu, prega o fundo e finaliza com atenção a um ponto essencial: o vaso precisa estar bem lavado e bem furado para não segurar água.
Ele conta que, no começo, o foco era a dengue, então furar bem os pneus velhos também era uma forma de evitar acúmulo de água.
Cristo de 4 metros feito com 130 pneus velhos
A maior das esculturas é um Cristo de quatro metros. É uma obra que demora mais de um mês para ficar pronta e exige volume de material e paciência. O Cristo usa 60 pneus de carro, 40 de moto e 30 de bicicleta, totalizando 130 pneus usados.
O método começa simples e vai ficando complexo. Ele desenha no chão com giz, dobra o ferro por cima e vai subindo a estrutura como se a peça estivesse “levantando” do chão.
Pneus velhos entram como revestimento e forma, enquanto o ferro dá sustentação para o conjunto aguentar o tamanho e o uso.
Por que alguns pneus velhos servem para banco e outros para vaso
Nem todo pneu funciona do mesmo jeito. Para banco, ele explica que precisa ser um pneu mais duro e mais forte, porque vai suportar peso de gente sentando. Para vaso, o ideal é um pneu mais mole, porque facilita virar ao contrário e moldar melhor.
Esse tipo de escolha mostra que o artesanato com pneus velhos não é improviso. Existe técnica, tentativa, ajuste e aprendizado até encontrar o material certo para cada função.
Dinossauros, tratores, motos e o salto nas encomendas
Com o tempo, o portfólio cresce. Aparecem tratores com e sem concha, motos que lembram modelos famosos de filmes e um item que faz sucesso com crianças: dinossauros expostos até em um parque da cidade.
Essas peças combinam ferro, pneus, parafusos e tinta automotiva. Lauvir conta que o ferro entra especialmente nas esculturas maiores porque a criançada pula em cima sem medo. Para o artesanato de pneus velhos durar, precisa de estrutura firme, não apenas de aparência bonita.
Personagens, hotel rural e novos projetos em pneus velhos
A maior parte do trabalho vira encomenda. Além do Cristo, entram pedidos como Shrek, pica-pau em versão específica para um hotel rural e projetos novos que ele chama de desafiadores.
Ele cita encomenda de pirata, dois aviões diferentes e até helicóptero. A lógica é clara: quanto mais gente vê, mais gente pede, e os pneus velhos viram matéria-prima de um catálogo em expansão.
Durabilidade e impacto ambiental de tirar pneus velhos da natureza
Existe um benefício que vai além da renda. O pneu demora muitos anos para se decompor na natureza, então recolher e reaproveitar significa reduzir um resíduo que costuma aparecer em lugares errados, inclusive perto de rio e em áreas de pesca.
Lauvir diz que gosta de pescar e se incomoda ao ver pneu jogado. Quando encontra, ele leva embora. E fecha com uma frase que explica a energia por trás do trabalho: ele faz algo que ama, cria carinho pelo que constrói e isso o mantém trabalhando, mesmo quando seria mais fácil desistir.
Qual peça feita com pneus velhos você teria na sua casa, um vaso para plantar, um banco ou uma escultura gigante?

