Os “pais do vento”, Henrik Stiesdal e Andrew Garrad, alertam para os riscos das políticas de Donald Trump, que ameaçam frear o avanço da energia eólica e da transição energética global. Especialistas destacam impactos econômicos e ambientais.
Em meio ao crescimento global das energias renováveis, dois dos maiores nomes da energia eólica — o dinamarquês Henrik Stiesdal e o britânico Andrew Garrad — expressaram profunda preocupação com o rumo da política energética dos Estados Unidos sob a influência de Donald Trump. Conhecidos como os “pais do vento”, os engenheiros alertam que os recentes ataques do ex-presidente americano à energia limpa representam um retrocesso perigoso na luta contra as mudanças climáticas.
Segundo eles, o cenário atual reflete uma apatia climática crescente e uma resistência à transição energética que o planeta urgentemente precisa adotar. “O governo de Trump representa uma mudança de humor que pode impactar negativamente os esforços globais para combater as mudanças climáticas”, afirmou Garrad, durante um encontro com jornalistas especializados em sustentabilidade.
Donald Trump e o impacto direto nas políticas de energia eólica
Desde o início de seu mandato, Trump tem sido um dos maiores críticos da energia eólica, questionando sua eficiência e suspendendo incentivos verdes criados por administrações anteriores. Essa postura política tem provocado efeitos imediatos sobre grandes empresas do setor, especialmente no segmento offshore.
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A dinamarquesa Orsted, considerada a maior companhia de energia eólica do mundo, viu suas ações despencarem mais de 80% desde o pico em 2021. A queda foi agravada após ordens do governo americano para suspender o desenvolvimento de um parque eólico offshore quase concluído.
Outro gigante europeu, a Vestas, também sente os reflexos da instabilidade política. O CEO da empresa, Henrik Andersen, afirmou que, embora a companhia mantenha uma sólida cadeia de suprimentos nos Estados Unidos, “as recentes mudanças de política criam incertezas que afetam o planejamento de longo prazo”.
Esses obstáculos, segundo os “pais do vento”, colocam em risco não apenas a transição energética, mas também milhares de empregos e bilhões de dólares em investimentos no setor eólico.
Ataques retóricos e desinformação sobre energia eólica
As críticas de Trump ao setor vão além das medidas administrativas. O ex-presidente norte-americano chegou a chamar as turbinas eólicas offshore de “patéticas” e “caras”. Em um discurso na Assembleia Geral da ONU, ele chegou a dizer que a “fraude da energia verde” poderia levar países ao fracasso econômico.
Essas declarações, amplamente contestadas pela comunidade científica, foram classificadas por especialistas como desinformação climática. Pesquisadores apontam que a negação das mudanças climáticas ocorre justamente quando eventos extremos — como ondas de calor, incêndios e furacões — se tornam cada vez mais frequentes e devastadores.
Stiesdal, responsável por desenvolver os princípios de design das modernas turbinas eólicas e por liderar a instalação do primeiro parque eólico offshore do mundo em 1991, preferiu não comentar diretamente sobre Trump, mas enfatizou que há “uma fundamental incompreensão entre aqueles que se opõem à transição energética”.
Segundo ele, “muitos apoiadores de políticas conservadoras se beneficiam diretamente da redução de custos energéticos e das oportunidades de emprego trazidas pelas energias renováveis, mesmo sem perceberem isso”.
Energia eólica como pilar de segurança energética e desenvolvimento local
Para os pioneiros da energia eólica, o debate precisa ir além da política partidária. Eles defendem que os benefícios locais da geração de energia limpa — como segurança energética, empregos qualificados e crescimento regional — devem ser comunicados de forma mais clara à sociedade.
Henrik Stiesdal e Andrew Garrad ressaltam que a energia eólica não é apenas uma questão ambiental, mas também um fator estratégico de soberania energética, especialmente diante de crises geopolíticas que afetam o fornecimento de combustíveis fósseis.
“A energia eólica representa uma das maiores oportunidades de desenvolvimento econômico sustentável do nosso tempo”, afirmou Garrad. “Mas é preciso visão e comprometimento político para que isso se torne realidade.”
Reconhecimento internacional e o legado dos “pais do vento”
Ambos os engenheiros serão homenageados com o Prêmio Rainha Elizabeth de Engenharia 2024, concedido pelo Rei Charles III em cerimônia no Palácio de St. James, em Londres. A premiação reconhece o impacto transformador de suas contribuições para a indústria global de energia eólica e para a luta contra as mudanças climáticas.
Henrik Stiesdal e Andrew Garrad acreditam que o momento exige mais do que inovação tecnológica — é preciso liderança política e compromisso coletivo para manter o avanço das energias renováveis, mesmo diante de discursos que tentam desacreditá-las.
