Pesquisadores da Espanha e Itália criam asfalto sustentável ao incorporar pontas de cigarro recicladas, reduzindo poluição, emissões e custos na construção de estradas.
Um dos resíduos mais comuns e poluentes do planeta pode estar prestes a ganhar uma função inesperada e inovadora. Pesquisadores europeus encontraram uma forma de transformar pontas de cigarro em um recurso útil, criando um asfalto mais durável, sustentável e menos poluente para as cidades.
A poluição causada por bitucas de cigarro é um dos grandes desafios ambientais atuais. Esses resíduos são tóxicos, se acumulam em ruas, rios e praias, e levam muitos anos para se decompor.
Com isso em mente, pesquisadores da Universidade de Granada, na Espanha, e da Universidade de Bolonha, na Itália, desenvolveram uma técnica inovadora.
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Eles estão reciclando pontas de cigarro para criar um tipo de asfalto mais durável, flexível e menos poluente. A ideia é dar um novo destino a um dos resíduos mais comuns do planeta.
A estimativa é que até 2025 sejam produzidas cerca de 9 trilhões de bitucas de cigarro por ano em todo o mundo.
O problema não para por aí. Com o aumento do consumo de cigarros eletrônicos, especialmente entre jovens de 14 a 30 anos, o volume de resíduos está crescendo ainda mais.
O impacto ambiental é grave, já que a decomposição de uma única ponta pode levar até 15 anos.
Além disso, esses resíduos contêm substâncias tóxicas, como nicotina, alcatrão e metais pesados, que contaminam o solo e os cursos d’água.
Transformando lixo em infraestrutura
O projeto das universidades hispano-italianas foca na parte não queimada das bitucas, que é rica em fibras de celulose e plásticos biodegradáveis como o PLA.
Esses materiais são processados e transformados em pequenos pellets, que depois são incorporados à mistura de asfalto.
A parte queimada, composta por cinzas e resíduos de combustão, é descartada, já que tem pouco valor técnico para o processo.
A produção desses pellets envolve um método industrial que combina ceras Fischer-Tropsch, prensagem, aquecimento e corte a frio.
O resultado é um material que, ao ser misturado com asfalto quente, libera fibras que reforçam a estrutura do pavimento. Isso aumenta a resistência das estradas e ajuda a evitar fissuras causadas por tráfego intenso ou variações de temperatura.
Vantagens além da reciclagem
Os benefícios da técnica não se limitam ao reaproveitamento de um resíduo problemático. Testes realizados no Laboratório de Engenharia de Edificações da Universidade de Granada (LabIC.UGR) comprovaram que o novo asfalto apresenta maior resistência à formação de trincas. Isso significa estradas mais duráveis e menos sujeitas a manutenção constante.
Outro destaque é a redução da temperatura necessária para fabricar o asfalto.
As ceras utilizadas diminuem a viscosidade do betume, permitindo um processo de produção com menor gasto de energia. Esse detalhe também reduz a emissão de gases poluentes durante a construção das vias, algo essencial em um setor conhecido por ser altamente poluente.
Além disso, a técnica permite aumentar a quantidade de material reciclado na composição do asfalto, unindo bitucas de cigarro e restos de pavimentos antigos.
A qualidade final do produto não é comprometida, o que pode gerar economia e benefícios ambientais.
Aplicações reais e futuro próximo
O projeto já despertou o interesse de órgãos públicos e do setor de transportes. Alguns municípios europeus estudam utilizar a técnica em projetos-piloto de recuperação de ruas e avenidas.
A iniciativa se alinha às metas da União Europeia, que aposta no Pacto Ecológico Verde e na Estratégia para a Economia Circular como ferramentas para reduzir o desperdício e melhorar a sustentabilidade urbana.
Outra possibilidade em análise é o uso dos pellets em pavimentos urbanos de alta resistência, ciclovias e até em pistas de aeroportos.
Essas áreas demandam pavimentos de qualidade superior, e a mistura com pontas de cigarro pode atender aos requisitos técnicos.
Potencial e desafios
A tecnologia aponta para uma mudança de mentalidade sobre o destino dos resíduos.
Transformar bitucas em um recurso valioso ajuda a combater a poluição e a reduzir a pegada de carbono da construção de estradas.
Se aplicada em larga escala, a solução poderia eliminar milhões de bitucas de cigarro do meio ambiente todos os anos.
O próximo passo é expandir a produção dos pellets e integrá-los a licitações públicas de obras viárias.
Também é fundamental investir em campanhas de conscientização para incentivar a coleta seletiva das bitucas, garantindo matéria-prima suficiente para o processo.
A pesquisa das universidades de Granada e Bolonha mostra que soluções criativas e tecnológicas podem transformar problemas ambientais em oportunidades.
Com o apoio de políticas públicas e da sociedade, o uso de resíduos tóxicos na produção de asfalto pode ser uma alternativa eficaz para um futuro mais sustentável.
