O Projeto Sal da Terra, conduzido pela Embrapa Semiárido, desenvolve sistemas produtivos que utilizam água salina dos poços do Semiárido para irrigar forragem, grãos e sistemas integrados de piscicultura e agricultura, com previsão de implantar 50 unidades de produção biossalina em seis estados da região nordestina
A água salina que existe no subsolo de boa parte do Semiárido brasileiro sempre foi tratada como um problema. Imprópria para irrigação convencional e rejeitada pela agricultura tradicional, essa água salobra ficava parada em poços que não serviam para quase nada. Agora, pesquisadores da Embrapa Semiárido descobriram como transformar esse recurso desperdiçado em ferramenta produtiva. O Projeto Sal da Terra desenvolve sistemas agrícolas adaptados que utilizam água salina para produzir forragem, grãos e até peixes em uma região onde 140 mil poços contêm esse tipo de água.
A produção agrícola no Semiárido sempre dependeu das chuvas, o que torna os agricultores vulneráveis a secas prolongadas que devastam safras e rebanhos. A agricultura biossalina surge como alternativa para romper essa dependência, integrando cultivos, criação animal e piscicultura em sistemas que convivem com a salinidade em vez de combatê-la. O projeto prevê a implantação de 50 unidades de produção biossalina em seis estados da região, levando soluções práticas diretamente para o campo.
O que é agricultura biossalina e por que ela funciona com água salina

A agricultura biossalina é um modelo de produção que utiliza água salina ou salobra para irrigar cultivos e criar animais em sistemas integrados. Em vez de tratar a salinidade como obstáculo, a abordagem seleciona espécies vegetais e animais que toleram ou até se beneficiam de níveis elevados de sais na água.
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O conceito não é exclusivo do Brasil: centros especializados como o Instituto de Agricultura Biossalina de Dubai, nos Emirados Árabes, e pesquisadores na China já desenvolveram variedades de arroz capazes de produzir com água do mar.
Para o pesquisador Everaldo Porto, da Embrapa Semiárido, o mundo está vivendo algo que pode ser considerado uma nova revolução agrícola baseada no uso de água salina para irrigação.
No Semiárido brasileiro, essa revolução tem um campo fértil: são cerca de 140 mil poços perfurados na região, muitos com água salobra ou salina que não serve para irrigação convencional mas pode alimentar sistemas biossalinos.
O Projeto Sal da Terra quer transformar esses poços subutilizados em motores de produção para comunidades que hoje dependem exclusivamente das chuvas.
O que se produz com água salina no Semiárido brasileiro

Os sistemas desenvolvidos pela Embrapa integram diferentes atividades em áreas relativamente pequenas. Em cerca de um hectare, é possível combinar piscicultura, produção de forragem e cultivos agrícolas destinados ao consumo das comunidades, tudo irrigado com água salina.
Estudos mostram que culturas como erva-sal, gliricídia e capim-elefante apresentam bom desempenho quando irrigadas com água de elevada salinidade, o que as torna ideais para alimentar rebanhos durante os períodos de seca, quando a vegetação da Caatinga perde biomassa e a oferta de alimento para os animais despenca.
A produção de forragem irrigada com água salina é especialmente relevante durante as estiagens prolongadas que castigam o Semiárido. Sem alternativa de alimentação, criadores perdem animais ou são forçados a vendê-los por preços irrisórios.
Com o sistema biossalino, o agricultor mantém a produção de forragem mesmo sem chuva, quebrando o ciclo de perdas que se repete a cada seca. Além da forragem, os sistemas também permitem a produção de mudas de espécies nativas da Caatinga e fruticultura irrigada adaptada às condições locais.
Os cuidados que o uso de água salina exige para não destruir o solo
Usar água salina na agricultura não é simplesmente abrir o poço e irrigar. O pesquisador Welson Simões, da Embrapa Semiárido, alerta que o problema muitas vezes não está na salinidade da água em si, mas no acúmulo de sais no solo ao longo do tempo.
Sem manejo adequado, a irrigação com água salina pode degradar o terreno e torná-lo improdutivo em poucos anos.
Além da salinidade, outro fator crítico é a sodicidade, relacionada ao excesso de sódio na água ou no solo. Enquanto parte dos sais pode ser removida pela infiltração natural da água da chuva, o sódio altera a estrutura do solo, reduz a capacidade de infiltração e prejudica o desenvolvimento das plantas.
Por isso, as pesquisas do Projeto Sal da Terra envolvem análises detalhadas de solo, água e sistemas de cultivo, além da seleção de variedades mais tolerantes à salinidade. O uso de água salina sem esse conhecimento técnico pode causar mais dano do que benefício.
As 50 unidades de produção biossalina que vão levar a tecnologia ao campo
O Projeto Sal da Terra não se limita ao laboratório. A iniciativa prevê a implantação de 50 unidades de produção biossalina em seis estados do Semiárido, funcionando como vitrines tecnológicas e unidades demonstrativas.
Nesses espaços, agricultores poderão conhecer na prática diferentes alternativas produtivas adaptadas às condições locais, incluindo sistemas que utilizam água salina para irrigar, criar peixes e produzir forragem ao mesmo tempo.
Welson Simões destaca que parte do conhecimento técnico necessário foi construída ao longo de décadas de pesquisa da Embrapa no Semiárido. A estratégia agora é ampliar esses estudos e transferir as soluções para o campo por meio de demonstrações práticas que permitam ao agricultor ver os resultados antes de adotar o sistema.
As unidades vão demonstrar sistemas agrícolas integrados, produção de mudas de espécies nativas da Caatinga, fruticultura irrigada com água salina e outras tecnologias desenvolvidas pela Embrapa e por universidades parceiras.
Por que a água salina pode mudar a agricultura do Semiárido brasileiro
O Semiárido brasileiro abriga milhões de pessoas cuja subsistência depende de uma agricultura vulnerável à falta de chuvas. Cada seca prolongada significa perda de safra, morte de animais e êxodo rural.
A água salina que existe em abundância no subsolo da região era vista como inutilizável, mas a ciência está provando que ela pode ser a base de sistemas produtivos que funcionam independentemente das chuvas.
O impacto potencial é enorme. Com 140 mil poços disponíveis e uma tecnologia que permite transformar essa água salina em recurso produtivo, o Semiárido pode deixar de ser sinônimo de escassez agrícola.
A agricultura biossalina não substitui a irrigação convencional onde ela é possível, mas oferece uma alternativa real onde a única opção até agora era esperar pela chuva. É uma mudança de paradigma que coloca a ciência brasileira na vanguarda de uma tendência global.
Quando o problema vira solução no Sertão
A água salina do Semiárido foi tratada como problema durante décadas. Agora, a Embrapa está mostrando que 140 mil poços de água salina podem se transformar em fontes de produção para comunidades que não tinham alternativa à chuva.
Com o Projeto Sal da Terra e suas 50 unidades demonstrativas, a agricultura biossalina sai do laboratório e vai para o campo.
O Sertão pode estar no início de uma revolução silenciosa que transforma sal em alimento.
Você conhecia a agricultura biossalina? Acha que essa tecnologia pode realmente mudar a vida no Semiárido, ou os desafios de manejo do solo são grandes demais? Deixe nos comentários e compartilhe este artigo com quem se interessa por agricultura e inovação no Nordeste.

Tenho interesse nesse sistema. Pois tenho a Atriplex que retira o sal do solo e fica nas folhas. Faltou mencionar o Sorgo Sudaneses que já plantei e se desenvolve muito bem com água salobra. Tenho plantio de pitanga, acerola, ****, limão e no verão irrigo com água salobra e produzem.
Israel usa a muito tempo inclusive com ajuda da Embrapa