Simulações computacionais de cientistas de Lisboa e Mainz indicam que a subducção sob o Estreito de Gibraltar pode avançar para o Oceano Atlântico nos próximos 20 milhões de anos, iniciando um processo que eventualmente remodelaria toda a margem oriental do oceano e poderia dar origem a um Anel de Fogo semelhante ao do Pacífico
O Estreito de Gibraltar, a passagem de 58 quilômetros que separa a Espanha de Marrocos e conecta o Mediterrâneo ao Atlântico, pode estar no início de um processo geológico que vai muito além de uma simples mudança no mapa. Um novo estudo publicado na revista Geology utilizou simulações computacionais em 3D para mostrar que as rochas abaixo do Estreito de Gibraltar estão desencadeando um processo de subducção que pode avançar para o Oceano Atlântico nos próximos 20 milhões de anos.
Segundo Geology, a pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Lisboa, do Instituto Dom Luiz e da Universidade Johannes Gutenberg de Mainz. O modelo sugere que uma zona de subducção formada durante o fechamento parcial do Mediterrâneo pode migrar para o Atlântico, um fenômeno que os pesquisadores chamam de invasão de subducção. Se o processo se confirmar ao longo dos milênios, o resultado pode ser uma remodelação completa da margem oriental do oceano, incluindo a possível formação de um Anel de Fogo semelhante ao do Pacífico.
O que está acontecendo nas rochas abaixo do Estreito de Gibraltar

O Estreito de Gibraltar se situa perto de uma fronteira onde as placas tectônicas africana e eurasiática se empurram e deslizam uma contra a outra. Essa zona de contato gera tensões que podem ser liberadas na forma de terremotos.
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Mas o estudo vai além dos abalos sísmicos: ele aponta que uma placa densa sob o Estreito de Gibraltar pode estar afundando lentamente em direção ao interior da Terra, em um processo chamado subducção.
A subducção ocorre quando uma placa tectônica se dobra e mergulha sob outra, deslizando para as camadas mais profundas do planeta. Esse afundamento pode desencadear terremotos, alimentar vulcões e reciclar o antigo fundo oceânico.
As simulações impulsionadas pela gravidade mostram que placas densas podem afundar e exercer força sobre o restante da placa, como uma cortina pesada deslizando de uma mesa. No caso do Estreito de Gibraltar, esse mecanismo pode estar reativando um processo que havia entrado em pausa.
Por que a subducção de Gibraltar pode invadir o Oceano Atlântico
O Oceano Atlântico, diferente do Pacífico, é um oceano em expansão. Nova crosta é criada ao longo da Dorsal Mesoatlântica, e suas margens são relativamente tranquilas.
O Atlântico tem muito menos zonas de subducção do que o Pacífico, e é justamente por isso que qualquer sinal de uma nova zona se formando atrai tanta atenção da comunidade científica.
O estudo relaciona esse processo ao chamado ciclo de Wilson, a teoria de que oceanos podem se abrir, expandir e depois começar a se fechar. O início da subducção marca o ponto de virada em que um oceano para de crescer e começa a ser reciclado de volta para o manto terrestre.
Se a subducção do Estreito de Gibraltar avançar para o Atlântico, pode ser o primeiro passo para que esse oceano entre em uma nova fase geológica. Os pesquisadores estimam que esse avanço levaria cerca de 20 milhões de anos.
O Atlântico pode ter um Anel de Fogo como o do Pacífico
O Anel de Fogo do Pacífico é uma faixa de 40.000 quilômetros marcada por terremotos frequentes e vulcões ativos, resultado direto das zonas de subducção que circundam esse oceano. O estudo levanta a possibilidade de que algo semelhante possa se desenvolver no Atlântico a longo prazo.
Se novos segmentos de subducção se ativarem e se conectarem ao longo da margem oriental do oceano, uma cadeia de atividade sísmica e vulcânica poderia se formar.
A palavra chave aqui é eventualmente. Os modelos descrevem esse cenário se desenvolvendo ao longo de dezenas de milhões de anos, muito além de qualquer horizonte de planejamento humano.
Uma futura versão atlântica do Anel de Fogo, caso venha a se formar, cresceria aos poucos à medida que novas zonas de subducção surgissem a partir do Estreito de Gibraltar. Os pesquisadores tratam a hipótese como algo que vale a pena testar, não como uma previsão para os próximos séculos.
O que isso significa para quem mora perto do Estreito de Gibraltar
Embora o desaparecimento do Estreito de Gibraltar esteja a milhões de anos de distância, existe uma questão mais imediata: se a zona de subducção ainda está ativa, isso afeta o risco de terremotos no sul da Espanha, em Marrocos e em Portugal.
A história geológica da região serve como alerta: o terremoto e tsunami de Lisboa de 1755 matou dezenas de milhares de pessoas, com ondas que atingiram cerca de 6 metros em Lisboa e 20 metros em Cádiz.
O monitoramento sísmico moderno não pode impedir terremotos, mas pode melhorar alertas e preparação.
Códigos de construção mais rigorosos, planejamento de emergência aprimorado e comunicação pública clara são as medidas práticas que a ciência pode subsidiar a partir de estudos como este sobre o Estreito de Gibraltar. Entender que o subsolo da região está geologicamente ativo é o primeiro passo para dimensionar riscos reais.
Como as simulações computacionais chegaram a essas conclusões
Os pesquisadores construíram simulações tridimensionais que recriam como as rochas se movem em grandes profundidades ao longo de extensos períodos geológicos.
Os modelos testam se a lenta subducção sob o Estreito de Gibraltar poderia ser retomada após uma longa pausa, e os resultados indicam que sim, desde que a gravidade continue puxando a placa densa para baixo.
Os autores ressaltam que criar novas zonas de subducção é difícil porque as placas oceânicas são fortes e resistem ao rompimento. O autor principal descreveu a crosta atlântica na região como “super forte e rígida”. Essa resistência explica por que o sistema de Gibraltar pode ficar preso em uma fase lenta em vez de simplesmente parar.
Os próximos passos incluem confrontar os modelos com dados reais de estudos sísmicos e medições de GPS que monitoram como o solo se move na região do Estreito de Gibraltar.
O solo sob o estreito mais famoso do mundo nunca esteve parado
O Estreito de Gibraltar não vai desaparecer amanhã, nem no próximo século, nem no próximo milênio.
Mas as rochas abaixo dele estão em movimento, e o processo de subducção que pode remodelar o Oceano Atlântico inteiro já pode estar em andamento em uma escala de tempo geológica.
Para quem mora na região, o alerta prático não é sobre o futuro distante, mas sobre a atividade sísmica que já é uma realidade mensurável hoje.
Você sabia que o Estreito de Gibraltar está sobre uma zona de subducção ativa? Acha que o Atlântico pode realmente ter um Anel de Fogo no futuro, ou 20 milhões de anos é tempo demais para qualquer previsão? Deixe nos comentários e compartilhe com quem se interessa por geologia e ciência.

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