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Pentágono gastou US$ 120 milhões em ‘raio da dor’: arma de micro-ondas aquece pele a 55°C e foi quase usada no Iraque e na fronteira

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Escrito por Débora Araújo Publicado em 18/02/2026 às 15:40 Atualizado em 18/02/2026 às 15:44
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O Pentágono investiu US$ 120 milhões no Active Denial System, arma de micro-ondas que aquece a pele a ~55 °C para dispersar pessoas e quase foi usada no Iraque e na fronteira.

Em março de 2012, o jornalista Spencer Ackerman, da revista Wired, se voluntariou para ser atingido por uma das armas mais controversas já desenvolvidas pelo Pentágono. Ele estava em uma base militar no sul da Virgínia, cercado por câmeras e oficiais militares ansiosos para demonstrar sua nova tecnologia.

“Quando o sinal foi dado para atirar em mim, não houve aviso — nenhum flash, nenhum cheiro, nenhum som, nenhum projétil”, escreveu Ackerman depois. “De repente, meu peito e pescoço pareciam ter sido expostos a uma fornalha, com uma queimação jogada para boa medida.”

Ackerman conseguiu suportar por apenas 2 segundos antes de fugir. A maioria dos voluntários não aguenta mais que 3 segundos. Ninguém jamais suportou mais de 5 segundos. O nome oficial da arma: Active Denial System (ADS), ou Sistema de Negação Ativa. O apelido que todos usam: “Pain Ray” — Raio da Dor.

Após quase duas décadas de desenvolvimento e mais de US$ 120 milhões gastos, essa arma que parece ficção científica está pronta para uso. Mas há um problema: nenhum comandante militar realmente quer usá-la.

O que é o Active Denial System

O Active Denial System é uma arma de energia direcionada desenvolvida pelos militares dos EUA, projetada para negação de área, segurança de perímetro e controle de multidões. Informalmente, a arma também é chamada de “raio de calor”, pois funciona aquecendo a superfície dos alvos — especificamente a pele de seres humanos.

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O ADS funciona disparando um feixe de alta potência (100 kW de potência de saída) de ondas de 95 GHz em um alvo, o que corresponde a um comprimento de onda de 3,2 mm. A energia de onda milimétrica do ADS funciona em um princípio semelhante ao de um forno de micro-ondas, excitando as moléculas de água e gordura na pele e aquecendo-as instantaneamente através de aquecimento dielétrico.

Uma diferença significativa é que um forno de micro-ondas usa a frequência muito mais baixa (e comprimento de onda mais longo) de 2,45 GHz. As ondas milimétricas curtas usadas no ADS penetram apenas as camadas superiores da pele, com a maior parte da energia sendo absorvida em 0,4 mm (1/64 de polegada), enquanto micro-ondas penetrariam no tecido humano cerca de 17 mm.

Em termos mais simples: imagine um forno de micro-ondas que aquece apenas a superfície externa da sua pele, mas faz isso com intensidade tão alta que você sente como se estivesse pegando fogo.

Como funciona: a ciência da dor instantânea

A física por trás do ADS é elegante e aterrorizante ao mesmo tempo.

A radiação eletromagnética emitida pelo dispositivo militar penetra apenas 0,4 mm na pele humana. Não causa lesões, mas causa imenso desconforto, a sensação de um calor de 55°C, o que dá a impressão de que as roupas estão prestes a pegar fogo.

O efeito de repelir humanos do ADS ocorre a pouco mais de 44°C (111°F), embora queimaduras de primeiro grau ocorram em cerca de 51°C (124°F), e queimaduras de segundo grau ocorram em cerca de 58°C (136°F).

A temperatura da superfície de um alvo continuará a subir enquanto o feixe for aplicado, a uma taxa ditada pelo material do alvo e distância do transmissor, juntamente com a frequência e nível de potência do feixe definidos pelo operador.

A maioria dos sujeitos de teste humanos atingiu seu limiar de dor em 3 segundos, e ninguém conseguiu suportar mais de 5 segundos. Um porta-voz do Laboratório de Pesquisa da Força Aérea descreveu sua experiência como sujeito de teste: “No primeiro milissegundo, pareceu apenas que a pele estava esquentando. Então ficou mais quente e mais quente e você sentiu como se estivesse pegando fogo”.

O que torna o ADS particularmente eficaz como arma de controle de multidão é a combinação de três fatores:

  1. Alcance extraordinário: Até 500 metros
  2. Invisibilidade total: Você não vê, ouve ou sente nada até ser atingido
  3. Dor instantânea e intolerável: Força as pessoas a fugirem imediatamente

A história secreta: décadas de desenvolvimento

O ADS foi desenvolvido na década de 1980 pelo Laboratório de Pesquisa da Força Aérea dos EUA e pela Diretoria Conjunta de Armas Não-Letais a um custo de mais de 51 milhões de dólares. Aproximadamente nove milhões de dólares foram o volume de investimento em testes em humanos, com os quais começamos em 2000 na Base Aérea de Kirtland.

Mas o projeto tinha raízes ainda mais profundas e controversas. Em 2001, a Força Aérea anunciou publicamente que havia feito progresso substancial no desenvolvimento de armas de micro-ondas direcionadas a pessoas.

O desenvolvimento incluiu três projetos com codinomes reveladores:

  • “Hello” — estudou como modular os sons de clique ou zumbido produzidos pelo aquecimento de micro-ondas no ouvido interno, para produzir psicologicamente devastadoras “vozes na cabeça”
  • “Goodbye” — explorou o uso de micro-ondas para controle de multidões
  • “Good Night” — investigou se poderiam ser usadas para matar pessoas

Apenas o efeito “Goodbye” entrou em desenvolvimento como arma. A pesquisa adicional de bioefeitos foi conduzida em segredo na Base Aérea de Brooks perto de San Antonio, no Texas.

Ao longo das décadas seguintes, aproximadamente US$ 40 milhões foram gastos nessa tecnologia ao longo de dez anos. Quando somados todos os custos de desenvolvimento, testes e produção de protótipos, as estimativas chegam a mais de US$ 120 milhões.

Testes em humanos: 11.000 exposições

O Pentágono levou os testes a sério — possivelmente sério demais.

O militar afirma ter testado a arma em mais de 11.000 pessoas, observando que apenas duas até agora necessitaram de tratamento médico depois. Essas duas sofreram queimaduras de segundo grau e desde então se recuperaram completamente.

Mas outros dados são mais preocupantes. Em testes, bolhas do tamanho de ervilhas foram observadas em menos de 0,1% das exposições do ADS, indicando que queimaduras superficiais de segundo grau foram causadas pelo dispositivo.

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A metodologia inicial de teste levantou sérias questões éticas. A metodologia inicial de teste, na qual os voluntários foram solicitados a remover óculos, lentes de contato e objetos metálicos que poderiam causar pontos quentes, levantou preocupações sobre se o dispositivo permaneceria fiel ao seu propósito de incapacitação temporária não-letal se usado em campo, onde as precauções de segurança não seriam tomadas.

Em outras palavras: nos testes controlados, as pessoas foram preparadas para minimizar riscos. No mundo real, alguém usando óculos de metal ou com piercings poderia sofrer queimaduras graves por pontos quentes.

Quase foi para a guerra — mas não foi

A história do ADS é marcada por múltiplas tentativas frustradas de usá-lo em combate real.

Iraque, 2005: Em julho de 2005, foi relatado que o Active Denial System seria implantado no Iraque antes do final do ano. Sob uma iniciativa chamada Project Sheriff, as tropas receberiam um total de 15 veículos. O Coronel James Brown, comandante da 18ª Brigada de Polícia Militar no Iraque, solicitou o sistema para suprimir ataques insurgentes e reprimir rebeliões prisionais.

Essas implantações nunca aconteceram.

Iraque, 2006: Um pedido semelhante foi feito em 2006 pelo General de Brigada do Corpo de Fuzileiros Navais Robert Neller, também no Iraque, que emitiu uma declaração urgente solicitando ADS para postos de controle de entrada e observação, bem como iniciativas anti-sniper.

Novamente, nada aconteceu.

Afeganistão, 2010: Em 2010, o Pentágono chegou a enviar a arma para o Afeganistão, apenas para tê-la devolvida aos EUA sem uso. Novamente, os militares estavam preocupados com a imagem de micro-ondar pessoas.

O General Stanley McChrystal enviou a máquina de volta, antecipando que o Talibã poderia ver a arma como uma oportunidade de propaganda e acusar os Estados Unidos de micro-ondar afegãos.

Fronteira EUA-México, 2018: Durante a administração Trump, houve relatos de que o ADS poderia ser usado para controle de multidões na fronteira sul. Novamente, a ideia foi abandonada devido a preocupações com a percepção pública.

Por que ninguém quer usar o “raio da dor”

Se a arma funciona como anunciado — e os testes provam que funciona — por que nenhum comandante militar realmente quis usá-la em campo?

Preocupações com tortura: Alguns se concentraram em preocupações de que armas cujo princípio operativo é o de infligir dor (embora “não-letal”) possam ser úteis para fins como tortura, pois podem deixar pouca ou nenhuma evidência de uso, mas, sem dúvida, têm a capacidade de infligir dor horrível em um sujeito contido. De acordo com a Wired, o ADS foi rejeitado para implantação no Iraque devido aos temores do Pentágono de que seria considerado um instrumento de tortura.

Problemas de imagem: A ideia de “micro-ondar” pessoas — mesmo que tecnicamente diferente de um micro-ondas comum — é uma catástrofe de relações públicas esperando para acontecer. Nenhum comandante quer ser responsável por manchetes dizendo “Militares dos EUA Cozinham Manifestantes Vivos”.

Limitações práticas: Embora o Active Denial System funcione (na maior parte) conforme anunciado, seu tamanho massivo, consumo de energia e complexidade técnica o tornam efetivamente inutilizável no campo de batalha.

O sistema completo é montado em um caminhão Humvee modificado. Requer geradores massivos. Precisa de operadores treinados. E em condições meteorológicas adversas — chuva, neve, poeira pesada — sua eficácia diminui drasticamente.

Riscos à saúde não resolvidos: Apesar de 11.000 exposições controladas, persistem preocupações sobre efeitos de longo prazo. Especialistas notam que a exposição ao feixe de micro-ondas pode causar danos aos olhos. “As pessoas vão sair do feixe, mas [lesão aos olhos] depende de quanta exposição elas recebem”.

Há também o problema de que os únicos pesquisadores estudando os efeitos à saúde da radiação eletromagnética são os mesmos desenvolvendo a arma — o Laboratório da Força Aérea. Isso levanta questões óbvias sobre conflito de interesses.

A versão comercial: Silent Guardian

Enquanto o Pentágono hesitava, a empresa de defesa Raytheon viu uma oportunidade de mercado diferente.

A contratada de defesa Raytheon desenvolveu uma versão menor do ADS, o Silent Guardian. Este modelo simplificado é diretamente comercializado para agências de aplicação da lei, militares e outros provedores de segurança. O sistema é operado e direcionado com um joystick e tela de direcionamento.

O Silent Guardian é menor, mais portátil e teoricamente mais adequado para uso em prisões, controle de fronteiras e segurança de instalações críticas. Mas até agora, as vendas foram limitadas — novamente devido às mesmas preocupações sobre percepção pública e potencial abuso.

O futuro das armas de energia direcionada

Apesar das frustrações com o ADS, o Pentágono não abandonou o conceito de armas de energia direcionada.

Para desenvolvimentos futuros, o Exército dos EUA está trabalhando em circuitos integrados monolíticos de micro-ondas de estado sólido para melhorar o tamanho, peso e resfriamento no ADS que permitirá a integração em várias plataformas móveis. Nitreto de gálio (GaN) é mais eficiente que o silício para circuitos integrados.

A meta: criar uma versão que seja:

  • Menor e mais leve
  • Mais eficiente energeticamente
  • Montável em drones, robôs ou veículos menores
  • Capaz de operar em diversas condições climáticas

O paradoxo da arma não-letal perfeita

O Active Denial System representa um paradoxo fascinante da guerra moderna.

De um lado, é exatamente o tipo de arma que teoricamente deveríamos querer: não-letal, reversível, capaz de dispersar multidões hostis sem matar ninguém. É infinitamente preferível a balas reais ou gás lacrimogêneo.

De outro lado, é precisamente porque causa dor tão intensa — sem deixar marcas visíveis — que se torna assustadora. Uma arma que causa sofrimento extremo mas não deixa evidências é o sonho de um torturador.

Como um especialista em direitos humanos observou: “A linha entre controle de multidão e tortura pode ser muito tênue quando você tem uma arma que causa dor insuportável com o apertar de um botão.”

Lições de um projeto de US$ 120 milhões

Após quase duas décadas e mais de US$ 120 milhões gastos, o Active Denial System está tecnicamente pronto para uso. Foi testado exaustivamente. Funciona conforme projetado. Está em estoque e disponível para implantação.

E ainda assim, nenhum comandante militar quis realmente usá-lo.

A história do “raio da dor” é um lembrete de que a tecnologia militar não existe no vácuo. Mesmo armas que funcionam perfeitamente do ponto de vista técnico podem falhar espetacularmente no mundo real devido a considerações políticas, éticas e de percepção pública.

É também um aviso sobre o futuro das armas de energia direcionada. À medida que a tecnologia melhora e os sistemas se tornam menores, mais baratos e mais eficientes, essas armas inevitavelmente se tornarão mais comuns — não apenas em campos de batalha, mas em contextos domésticos de aplicação da lei.

A questão não é se a tecnologia funcionará. Já funciona. A questão é: como sociedade, estamos confortáveis com um mundo onde autoridades podem infligir dor insuportável a distância, instantaneamente, sem deixar marcas?

O Active Denial System nos força a confrontar essa pergunta. E até agora, mesmo o Pentágono parece desconfortável com a resposta.

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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