Pegadas de dinossauros com 132 milhões de anos foram encontradas em apenas 40 metros de rocha na África do Sul, formando o registro mais jovem do sul do continente.
Em 2026, um estudo publicado no South African Journal of Science e conduzido por pesquisadores do African Centre for Coastal Palaeoscience, da Nelson Mandela University, documentou pegadas de dinossauros na margem sudoeste do estuário de Knysna, no Cabo Ocidental, na África do Sul. As marcas foram identificadas em depósitos da Formação Brenton e aparecem tanto em paredões baixos quanto em uma superfície de lama e silte na zona entremarés, que fica exposta por pouco tempo antes de voltar a ser coberta pela água na maré alta.
O achado chama atenção não apenas pelo espaço reduzido de ocorrência, mas pelo peso científico do registro: os autores descrevem um afloramento com cerca de 40 metros de extensão e estimam idade de aproximadamente 132 milhões de anos, no início do Cretáceo. Pela análise apresentada no artigo, essas pegadas representam provavelmente o registro mais recente de dinossauros já identificado no sul da África, além de constituírem apenas o segundo relato de trilhas cretáceas na província do Cabo Ocidental.
A descoberta também reforça o valor de áreas costeiras como arquivos paleontológicos raros e vulneráveis. Segundo o artigo científico completo, parte das superfícies fossilíferas da Formação Brenton é inundada duas vezes por dia durante a maré alta, um processo que ao mesmo tempo revela e desgasta os vestígios. Em uma faixa costeira onde os depósitos mesozoicos expostos são escassos, o sítio amplia a compreensão sobre a presença de terópodes e de possíveis ornitópodes e saurópodes nesse antigo ambiente lagunar.
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Formação Brenton e o contexto geológico das pegadas de dinossauros no Cretáceo Inferior
O sítio onde as pegadas foram encontradas está inserido na chamada Formação Brenton, uma unidade geológica composta por sedimentos que remontam ao Cretáceo Inferior. Essa formação registra antigos ambientes costeiros e lagunares, onde sedimentos finos eram depositados ao longo de planícies sujeitas a variações do nível da água.
Esse tipo de ambiente é particularmente favorável à preservação de pegadas. Quando um dinossauro caminhava sobre o solo úmido, suas marcas podiam ser rapidamente cobertas por novas camadas de sedimento, protegendo-as da erosão imediata.
Com o passar de milhões de anos, esses sedimentos se consolidaram em rocha, preservando as impressões como fósseis indiretos conhecidos como icnofósseis.
No caso da Formação Brenton, a presença de ambientes costeiros antigos explica por que as pegadas foram preservadas em uma área que hoje está diretamente exposta à ação das marés.
Como a maré esconde e revela um dos registros mais recentes de dinossauros da África
Um dos aspectos mais intrigantes da descoberta é o fato de que as pegadas não estão permanentemente visíveis. Parte do afloramento rochoso fica submersa durante a maré alta, o que significa que o acesso ao sítio depende de condições específicas.
Durante a maré baixa, as superfícies com pegadas ficam expostas, permitindo o estudo detalhado por parte dos pesquisadores. Já nas marés altas, a água cobre novamente o local, protegendo temporariamente as marcas, mas também dificultando o acesso e aumentando o risco de erosão ao longo do tempo.
Esse ciclo natural cria uma dinâmica única: o mesmo oceano que ajudou a preservar os sedimentos ao longo de milhões de anos agora atua como agente de desgaste das pegadas.
Além disso, a exposição intermitente faz com que o sítio seja pouco visível, o que pode explicar por que permaneceu desconhecido por tanto tempo.
O que as pegadas revelam sobre os dinossauros que viveram na região há 132 milhões de anos
As pegadas identificadas no local pertencem a diferentes tipos de dinossauros, sugerindo a presença de múltiplas espécies na região durante o Cretáceo Inferior.
Embora a identificação exata dos animais nem sempre seja possível apenas com base em pegadas, os pesquisadores conseguem inferir características importantes, como o tipo de locomoção, o tamanho aproximado dos indivíduos e até padrões de comportamento.
Algumas trilhas indicam dinossauros bípedes, possivelmente terópodes carnívoros, enquanto outras sugerem a presença de herbívoros de diferentes portes.
A disposição das pegadas também pode revelar aspectos comportamentais, como deslocamento em grupo ou uso recorrente de determinadas áreas, possivelmente associadas a rotas de alimentação ou acesso à água.
Esses registros são particularmente valiosos porque fornecem evidências diretas de movimento, algo que ossos fossilizados nem sempre conseguem revelar com clareza.
Por que esse é o registro mais jovem de pegadas de dinossauros do sul da África
A importância do sítio está diretamente ligada à sua idade geológica. Com cerca de 132 milhões de anos, ele se insere em um período do Cretáceo Inferior para o qual há poucos registros de pegadas na região sul do continente africano.
Grande parte dos icnofósseis conhecidos na África Austral é mais antiga, datando de períodos anteriores como o Jurássico. Isso cria uma lacuna temporal que dificulta a compreensão da evolução e distribuição dos dinossauros ao longo do tempo.
A descoberta em Knysna ajuda a preencher essa lacuna, oferecendo uma janela rara para um momento específico da história geológica da região. Além disso, o fato de o sítio estar localizado em ambiente costeiro amplia o conhecimento sobre os habitats utilizados pelos dinossauros naquela época, indicando que esses animais frequentavam áreas próximas ao litoral.
Os desafios de estudar fósseis em áreas costeiras expostas ao oceano
Embora a descoberta seja cientificamente relevante, ela também apresenta desafios significativos para sua preservação e estudo. A ação constante das ondas, a variação das marés e processos naturais como erosão e intemperismo representam ameaças contínuas às pegadas. Com o tempo, essas marcas podem se desgastar ou desaparecer completamente.
Por isso, os pesquisadores utilizam técnicas como fotogrametria e escaneamento digital para registrar as pegadas em alta resolução, garantindo que os dados sejam preservados mesmo que o sítio sofra danos futuros. Esse tipo de abordagem se tornou essencial em paleontologia moderna, especialmente em ambientes onde a preservação física dos fósseis não pode ser garantida a longo prazo.
O papel das descobertas costeiras na reconstrução da história dos dinossauros
Descobertas como a da Formação Brenton mostram que ainda existem lacunas importantes no registro fóssil global, especialmente em regiões menos exploradas ou de difícil acesso. Áreas costeiras, em particular, têm se mostrado promissoras para novos achados, justamente por combinarem processos de deposição sedimentar com exposição periódica causada pela ação do mar.
Esses ambientes podem preservar evidências únicas, como pegadas e trilhas, que ajudam a reconstruir não apenas a presença de espécies, mas também seu comportamento e interação com o ambiente. Cada novo sítio identificado contribui para uma compreensão mais completa da distribuição dos dinossauros ao longo do tempo e do espaço.
Ainda existem registros importantes escondidos em áreas costeiras ao redor do mundo?
A descoberta de pegadas de dinossauros em uma faixa rochosa tão pequena e parcialmente submersa levanta uma questão relevante para a ciência: quantos outros registros semelhantes podem estar escondidos em regiões costeiras, aguardando as condições certas para serem revelados?
Com o avanço de tecnologias de mapeamento e monitoramento, novas áreas podem ser identificadas e estudadas, ampliando ainda mais o conhecimento sobre a história da vida na Terra.
Diante disso, surge uma reflexão inevitável: quantos vestígios de milhões de anos continuam ocultos sob as marés, aparecendo e desaparecendo sem jamais serem vistos?

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