Barco elétrico sueco combina bateria automotiva, hidrofólios e controle eletrônico para reduzir o atrito com a água, ampliar a autonomia declarada e testar novas possibilidades para lazer e transporte urbano silencioso.
O Candela C-8, barco elétrico desenvolvido pela sueca Candela, usa hidrofólios controlados por computador para erguer parte da embarcação acima da água e reduzir o atrito durante a navegação.
Equipado com bateria de 69 kWh fornecida pela Polestar, o modelo tem alcance informado de até 57 milhas náuticas, o equivalente a cerca de 105 quilômetros, a 22 nós, segundo dados da fabricante.
A proposta do projeto está ligada a um problema recorrente da eletrificação no setor náutico.
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Na água, o desafio não se limita ao armazenamento de energia.
Uma parte relevante do consumo ocorre porque o casco precisa vencer a resistência da superfície durante o deslocamento.
Em lanchas convencionais, o aumento da velocidade eleva o esforço necessário para empurrar a embarcação contra a água.
Esse arrasto reduz a eficiência e pode limitar o alcance de modelos elétricos.
No C-8, a solução adotada pela Candela foi combinar propulsão elétrica, casco leve e hidrofólios ativos.
Quando o barco alcança velocidade suficiente, asas submersas passam a gerar sustentação.
A embarcação, então, deixa de navegar com todo o casco apoiado na água e passa a se deslocar principalmente sobre essas estruturas.
O efeito visual é o de um barco que “voa” sobre a superfície, embora a sustentação continue sendo produzida dentro da água.
Hidrofólios reduzem o gasto de energia no barco elétrico
A tecnologia dos hidrofólios já era conhecida no setor naval, mas ganhou novas aplicações com sensores, motores elétricos e sistemas de controle em tempo real.
No caso da Candela, a empresa afirma que suas embarcações com hidrofólios podem usar até 80% menos energia do que barcos convencionais em alta velocidade, por causa da redução do arrasto.
Esse dado ajuda a explicar por que barcos elétricos enfrentam uma condição diferente da observada em carros elétricos.
Em estradas, parte das perdas está ligada ao atrito dos pneus e à resistência do ar.
Em rios, lagos ou no mar, a água impõe uma resistência muito maior ao avanço do casco.

Apenas aumentar a bateria, nesse contexto, não resolve todos os obstáculos.
Um pacote maior de energia tende a elevar o peso da embarcação, o que pode ampliar o esforço necessário para navegar.
A solução usada no C-8 procura reduzir a demanda de energia antes de ampliar a capacidade de armazenamento.
Na ficha técnica atual, a Candela informa velocidade de cruzeiro de 22 nós e velocidade máxima de 27 nós.
Comunicados anteriores sobre a versão equipada com tecnologia da Polestar mencionavam velocidade máxima de 30 nós, o que indica diferença entre informações de lançamento e dados técnicos hoje apresentados pela fabricante.
Com o casco elevado, a área em contato direto com a água diminui.
A empresa informa que ondas de até 1,1 metro podem passar sob a embarcação durante a operação em hidrofólio.
Nessa condição, o barco reduz batidas sucessivas contra a superfície, um comportamento comum em lanchas rápidas durante a navegação sobre ondulações.
Controle eletrônico ajusta o Candela C-8 sobre as ondas
Para manter a estabilidade, o C-8 depende de um sistema eletrônico de controle.
A Candela chama esse conjunto de Flight Controller, responsável por ajustar continuamente os hidrofólios conforme as condições da navegação.
Esse sistema atua sobre a posição das asas submersas e considera fatores como velocidade, inclinação, ondas e movimentos da embarcação.
Segundo a Candela, o controle automático reduz em até 90% as forças g sentidas pelos passageiros em comparação com barcos convencionais em condições semelhantes.
A diferença técnica está na integração entre hardware e software.
O C-8 não é apenas uma lancha com motor elétrico no lugar do motor a combustão.
O projeto depende de sensores, processamento eletrônico, hidrofólios móveis e propulsão elétrica para reduzir a resistência e manter o deslocamento estável.
O casco também faz parte dessa arquitetura.
A Candela usa fibra de carbono no C-8, material empregado para reduzir peso e manter rigidez estrutural.
De acordo com a ficha técnica atual, o barco tem 8,5 metros de comprimento, 2,5 metros de largura e peso de 1.950 kg.
A capacidade informada atualmente pela fabricante é de cinco passageiros mais um condutor.
O motor é o Candela C-Pod, com potência de 45/50 kW.
Esses dados diferem de materiais anteriores, que mencionavam espaço para oito pessoas, e por isso a ficha técnica mais recente foi adotada como referência.
Bateria da Polestar leva tecnologia automotiva ao uso náutico
A ligação com a indústria automotiva é um dos elementos centrais do projeto.
Em 2023, a Polestar informou que forneceria ao Candela C-8 o pacote de bateria de 69 kWh e a tecnologia de recarga rápida em corrente contínua usados no Polestar 2 Standard Range Single Motor.
Segundo a Polestar, foi a primeira vez que esse tipo de componente passou a abastecer uma aplicação externa ao setor automotivo.
A adaptação indica como sistemas desenvolvidos para carros elétricos podem ser usados em outros meios de transporte, desde que passem por integração específica para cada ambiente.
Baterias, gerenciamento eletrônico, recarga rápida e controle térmico são áreas nas quais o setor automotivo já acumulou escala industrial.
Ao levar parte dessa tecnologia para uma embarcação, a Candela busca enfrentar uma limitação recorrente dos barcos elétricos: manter alcance útil em velocidades mais altas.
A recarga também segue esse modelo de integração.
A ficha técnica atual informa carregamento em corrente alternada de 11 kW em cerca de 6,5 horas para ir de 0% a 100%.
Em corrente contínua, com carregador de 135 kW, o C-8 pode ir de 10% a 80% em menos de 30 minutos, segundo a fabricante.
O alcance real, porém, depende de variáveis de navegação.
Carga a bordo, vento, estado da água, temperatura e modo de condução podem alterar o consumo.
Por isso, as 57 milhas náuticas informadas pela Candela devem ser entendidas como dado declarado para condições específicas de cruzeiro.
Hidrofólios elétricos chegam ao transporte público
Embora o C-8 seja voltado ao mercado de lazer, a mesma base tecnológica aparece no Candela P-12, embarcação desenvolvida para transporte de passageiros.
O modelo passou a operar no sistema público de Estocolmo, na Suécia, como parte de uma aplicação urbana dos hidrofólios elétricos.
Segundo a Candela, o P-12 opera com velocidade de serviço de 25 nós, já ultrapassou 30 nós em testes e tem alcance de até 40 milhas náuticas em velocidade de cruzeiro com uma carga.
A empresa também afirma que o modelo é o primeiro ferry elétrico com hidrofólios produzido em série.
Em fevereiro de 2026, a fabricante divulgou dados de uma avaliação oficial na Suécia sobre a operação em Estocolmo.
De acordo com o material, o tempo de viagem na rota entre Ekerö e o centro da capital sueca caiu de 55 minutos para cerca de 30 minutos.
O mesmo levantamento, citado pela Candela e por veículos especializados, apontou redução de 94% nas emissões de dióxido de carbono em comparação com embarcações a diesel.
Também houve aumento de 22,5% no número de passageiros na linha durante o período avaliado.
Esses números se referem ao P-12 em operação de transporte público, não ao C-8 de lazer.
Ainda assim, os dois modelos compartilham a mesma lógica de engenharia: usar hidrofólios para diminuir o arrasto e, com isso, reduzir a energia necessária para navegar em velocidade mais alta.
Menos ruído e menor esteira mudam a navegação elétrica
A tecnologia dos barcos elétricos com hidrofólios atua sobre três pontos observáveis na navegação: ruído, consumo de energia e esteira deixada na água.
O motor elétrico reduz o barulho associado à combustão, enquanto os hidrofólios diminuem o contato do casco com a superfície.
No transporte urbano, a esteira é um fator relevante porque afeta margens, píeres e outras embarcações.
Na avaliação divulgada pela Candela sobre a operação em Estocolmo, a esteira atribuída ao P-12 foi de 13 centímetros, nível comparado pela empresa ao de uma pequena embarcação com motor de popa.
Essa característica pode influenciar a operação em áreas com restrição de velocidade ou sensibilidade ambiental.
Qualquer adoção em larga escala, no entanto, depende de fatores externos ao barco, como infraestrutura de recarga, custo de aquisição, regras locais de navegação e manutenção especializada.
No mercado de lazer, o C-8 ocupa um segmento específico de embarcações elétricas de alta tecnologia.
A proposta combina autonomia declarada de 57 milhas náuticas, bateria de origem automotiva e navegação elevada sobre hidrofólios.
O preço e a disponibilidade, porém, mantêm o modelo distante de uma aplicação popular imediata.
A leitura técnica do projeto mostra que a eletrificação náutica não depende apenas da troca de motores.
Em barcos rápidos, a eficiência também passa pelo desenho do casco, pela redução de peso, pelo controle eletrônico e pela maneira como a embarcação interage com a água.
O Candela C-8 reúne esses elementos em um produto de lazer, enquanto o P-12 aplica a mesma lógica ao transporte coletivo.
Em ambos os casos, os dados disponíveis vêm principalmente da fabricante e de avaliações divulgadas sobre a operação sueca, o que exige separar informações declaradas de resultados já observados em serviço.
Ao usar uma bateria derivada de carro elétrico e reduzir o contato do casco com a água, o C-8 mostra uma alternativa técnica para ampliar a autonomia de embarcações elétricas.


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