Na Lapa, o Grupo Potencial expande a produção e passa a fabricar mais biodiesel de óleo de soja num único lugar do que qualquer outra usina do mundo
A maior fábrica de biodiesel do mundo não vai ficar nos Estados Unidos nem na Europa: vai funcionar na Lapa, cidade de cerca de 50 mil habitantes na região metropolitana de Curitiba. O Grupo Potencial anunciou a expansão que eleva a capacidade da unidade de 900 milhões para 1,62 bilhão de litros de biodiesel por ano, o suficiente para tornar a planta a maior produtora de biodiesel a partir da soja de um único lugar em todo o planeta.
Com a expansão, prevista para ser concluída até o fim de 2026, o grupo familiar salta da 5ª para a 1ª posição mundial no setor. É uma virada silenciosa: enquanto poucos prestavam atenção, uma empresa brasileira montou no interior do Paraná a maior fábrica de biodiesel do planeta, movida a soja.
De 5º para 1º lugar do mundo

Foto: Roberto Dziura Jr/AEN
O salto de posição é o dado que mais impressiona. Sair do quinto para o primeiro lugar mundial não é avançar uma casa: é ultrapassar todos os concorrentes de uma vez. E isso acontece a partir de uma única planta industrial, não de um conglomerado espalhado por vários países.
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O contraste com a imagem tradicional do setor é gritante. Quando se pensa em liderança de combustíveis, a mente vai para gigantes multinacionais e grandes potências. A realidade, aqui, é um grupo de controle familiar apostando pesado num município do interior brasileiro, transformando soja em combustível em escala inédita.
De acordo com o Governo do Paraná, o complexo da Lapa se consolidará como o maior polo de biodiesel de soja do mundo. É a materialização de uma estratégia de crescimento modular que vinha sendo construída, tijolo por tijolo, ao longo de mais de uma década.
Os números que fazem a fábrica de biodiesel a maior do mundo

Os volumes explicam o tamanho do feito. A capacidade atual, de 900 milhões de litros por ano, já fazia da unidade a maior do Brasil. A expansão quase dobra esse número, levando a produção anual para 1,62 bilhão de litros, uma marca que nenhuma outra usina de biodiesel de soja atinge sozinha.
Para chegar lá, o Grupo Potencial anunciou um investimento de cerca de R$ 600 milhões apenas na ampliação da fábrica de biodiesel. Não é um número isolado, mas a peça final de um quebra-cabeça bilionário. Conforme a Forbes, os investimentos do grupo na região já superam a casa dos R$ 6 bilhões acumulados desde 2012.
Os empregos dão a dimensão social: só a expansão da planta da Lapa deve gerar cerca de 600 vagas diretas e entre 1.000 e 1.500 indiretas, um choque de economia formal para uma cidade desse porte.
O complexo de R$ 6 bilhões na Lapa
A grande fábrica não vive sozinha. Ela é o centro de um complexo agroindustrial que integra verticalmente toda a cadeia, e é essa integração que sustenta a liderança. Ao lado da usina, o grupo opera esmagamento de soja com capacidade para processar cerca de 3.500 toneladas por dia, garantindo o óleo que alimenta o processo.
O complexo inclui ainda a maior planta de glicerina refinada das Américas, com produção da ordem de 80 mil toneladas por ano, além de uma usina de etanol de milho e projetos de óleo degomado, DDGS e biogás. Cada subproduto de uma etapa vira insumo ou receita na etapa seguinte, num modelo de economia circular industrial.
Há até um duto próprio no plano: um bioduto de cerca de 55 km ligando o polo industrial da Lapa ao polo petroquímico de Araucária, no Paraná, com investimento estimado em torno de R$ 150 milhões. É logística pensada para escoar o combustível sem depender só do transporte rodoviário.
Por que soja e por que agora
O momento da aposta não é por acaso. O Brasil vem elevando de forma programada o percentual obrigatório de biodiesel misturado ao diesel, e a tendência é de aumento contínuo dessa mistura nos próximos anos, o que amplia a demanda interna pelo combustível renovável.
Quando o país determina que cada litro de diesel carregue uma fatia maior de biocombustível, cria-se um mercado cativo e crescente. Quem tiver capacidade instalada para atender a essa demanda sai na frente, e é exatamente o que o Grupo Potencial está fazendo ao dobrar sua produção antes que a nova onda de consumo chegue.
A soja entra como matéria-prima natural: o Brasil é um dos maiores produtores mundiais do grão, e o óleo extraído dele é a base mais abundante e competitiva para a produção de biodiesel no país. É energia que nasce do agronegócio nacional.
O que é biodiesel e como o óleo de soja vira combustível
Vale entender o que está sendo produzido em tal escala. O biodiesel é um combustível renovável feito a partir de óleos vegetais ou gorduras animais, usado em motores a diesel, puro ou misturado ao diesel fóssil. No caso da Lapa, a base é o óleo de soja.
O processo central chama-se transesterificação: o óleo reage com um álcool, geralmente metanol, na presença de um catalisador, e se transforma em ésteres, que são o biodiesel, mais glicerina como subproduto. É química industrial consolidada, mas fazer isso na casa do bilhão de litros por ano exige engenharia de precisão e escala.
Por isso o complexo integrado importa tanto. Ter o esmagamento de soja, a produção de biodiesel, o aproveitamento da glicerina e o etanol de milho no mesmo lugar reduz custos, perdas e transporte, tornando cada litro mais competitivo.
O efeito na Lapa e no Paraná

Para a Lapa, sediar a maior fábrica de biodiesel do mundo significa uma transformação econômica profunda. Arrecadação, empregos, fornecedores, serviços e infraestrutura acompanham um investimento desse porte, colocando um município do interior no mapa energético nacional.
O Paraná, por sua vez, ganha um polo de biocombustível de referência mundial, reforçando sua vocação agroindustrial. Um estado que já é potência agrícola passa a agregar valor em casa, transformando grão em energia em vez de só exportar commodity.
O desafio local é o mesmo de toda cidade que abriga um grande complexo industrial: planejar o crescimento, evitar dependência excessiva de um único empregador e garantir que os benefícios se espalhem pela população.
O Brasil na liderança dos biocombustíveis
O caso da Lapa se soma a uma trajetória em que o Brasil se firma como referência global em biocombustível. Do etanol de cana ao etanol de milho, passando pelo biodiesel, o país construiu uma matriz de transporte muito mais renovável do que a da maioria das nações.
Ter a maior fábrica de biodiesel do mundo dentro das fronteiras nacionais é um símbolo poderoso dessa liderança. Mostra que o país não apenas produz a matéria-prima, a soja, mas também domina a industrialização e a tecnologia para transformá-la em energia em escala mundial.
Isso tem peso geopolítico e econômico. Num mundo que corre para descarbonizar o transporte, dominar a produção de combustíveis renováveis é um ativo estratégico, e o Brasil está posicionado na dianteira.
Os riscos e desafios do modelo
Nada disso está livre de tensões. A expansão da produção de biodiesel de soja acende o debate sobre uso da terra, pressão sobre áreas agrícolas e a velha discussão entre alimento e combustível. Produzir mais óleo para energia exige mais soja, e isso precisa ser feito sem empurrar o desmatamento.
Há também o risco econômico de concentrar tanto capital num único setor e numa única matéria-prima, sensível a preço de grão, câmbio e política de mistura. Liderança mundial traz holofotes, mas também exposição.
Ainda assim, o fato é concreto e contraintuitivo: uma cidade pequena do Paraná vai produzir mais biodiesel de soja num só lugar do que qualquer usina do planeta. Se um grupo familiar do interior do Brasil chegou ao topo mundial dobrando sua capacidade, quanto ainda dá para crescer transformando o agronegócio nacional em energia?
