A EssilorLuxottica projeta, fabrica e vende os óculos ao mesmo tempo, é dona da Ray-Ban, da Oakley e das maiores redes de ótica, e ainda produz as armações de grifes de luxo como Chanel e Prada
Quando você entra numa ótica e acha que está escolhendo entre marcas concorrentes, é bem provável que quase todas venham da mesma empresa. A maior fabricante de óculos do mundo nasceu numa pequena vila dos Alpes italianos e foi erguida por um homem que passou a infância num orfanato, longe de qualquer glamour.
Seu nome era Leonardo Del Vecchio, e a empresa que ele fundou virou a EssilorLuxottica, dona da Ray-Ban, da Oakley e das maiores redes de ótica do planeta. Segundo a Fortune, citando dados da consultoria Euromonitor, o grupo controla cerca de 25% do mercado global de óculos, um domínio raríssimo em qualquer setor de consumo.
Como um órfão criou a maior fabricante de óculos do mundo
A trajetória parece roteiro de cinema. Nascido em Milão em 1935, Del Vecchio perdeu o pai antes de nascer e foi entregue ainda criança a um orfanato, porque a mãe viúva não tinha como sustentá-lo. Começou a vida como aprendiz de ferramenteiro, moldando peças de metal, e só depois enxergou no ramo dos óculos a chance da vida dele.
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Em 1961, ele se mudou para Agordo, uma vila cercada de montanhas no norte da Itália, e montou uma pequena oficina de componentes para armações. A cidade oferecia terreno barato e mão de obra, e o governo local queria gerar emprego na região. Daquela oficina modesta nasceria um dos maiores impérios industriais da Europa.
De aprendiz de ferramenteiro a bilionário dos óculos

O pulo do gato de Del Vecchio foi entender que óculos não eram só um objeto médico, e sim um acessório de moda e desejo. Conforme a Fortune, ele fundou a Luxottica em 1961, em Agordo, produzindo componentes para o setor óptico, e passou a comprar marcas, fábricas e redes de loja, montando peça por peça uma estrutura que ninguém no setor tinha.
Em vez de apenas fabricar armações para terceiros, a empresa decidiu ficar com tudo: a fábrica, a marca e a loja. Del Vecchio morreu em 2022 como um dos homens mais ricos do mundo, dono de uma fortuna de dezenas de bilhões de dólares construída inteiramente sobre um item que cabe no rosto. A história dele é a espinha dorsal do mercado de óculos moderno.
Ray-Ban, Oakley e uma coleção de marcas que parecem rivais
Aqui a coisa fica surreal para o consumidor. A empresa é dona da Ray-Ban e da Oakley, descritas pela Fortune como duas de suas marcas centrais, ao lado de Persol e Oliver Peoples. Só a primeira delas é a mais valiosa de todo o portfólio.
Ou seja, marcas que aparecem lado a lado na vitrine, disputando o seu bolso, muitas vezes pertencem ao mesmo grupo. A sensação de escolha é, em boa parte, uma ilusão de marketing, porque o dinheiro cai no mesmo caixa independentemente da etiqueta. Quem controla os óculos de sol mais famosos do planeta controla também várias das “concorrentes” que estão na mesma prateleira.
As grifes de luxo também são fabricadas por ela

A dominação não para nas marcas próprias. Como aponta a Fortune, a companhia fabrica, sob licença, os óculos de grandes grifes de moda, entre elas Giorgio Armani, Prada e Chanel. Quando você compra um óculos de uma dessas maisons, a armação provavelmente saiu de uma fábrica do grupo.
Isso dá à companhia um poder duplo: ela lucra com as próprias marcas e também com as dos outros. Poucas empresas no mundo conseguem estar nos dois lados de um mercado de luxo ao mesmo tempo. Não por acaso, um analista ouvido pela mesma reportagem resume que 90% da força da empresa vem da integração vertical, que ele chama de vantagem competitiva máxima do setor.
Ela fabrica e ainda vende: a dona dos dois lados do balcão
O que torna esse caso quase inacreditável é o controle da ponta final, a loja. Além de fabricar, a empresa é dona de redes gigantes de ótica. A reportagem da Fortune cita varejistas como LensCrafters e Sunglass Hut entre as redes do grupo, que ainda controla marcas próprias como Persol e Oliver Peoples.
Significa que ela projeta o óculos, fabrica a armação e a lente, coloca a etiqueta da marca e ainda vende para você no balcão. É um domínio da cadeia inteira, do parafuso à vitrine, o que dá à companhia um poder enorme para definir preços. Essa integração da fábrica até a prateleira é apontada pela Fortune como a principal vantagem competitiva do setor.
A fusão com a Essilor e o império de quase 1 bilhão de óculos
O salto final veio em 2018. A empresa italiana, especialista em armações e marcas, se fundiu com a francesa Essilor, líder mundial em lentes, criando a EssilorLuxottica. Segundo a Fortune, a companhia teve receita de cerca de 26,5 bilhões de euros no último ano e valor de mercado próximo de 112 bilhões de euros. Reportagem da revista Exame cita produção de 560 milhões de lentes e 116 milhões de armações por ano, volume que, somado à distribuição, aproxima o grupo da marca de 1 bilhão de pares vendidos.
A união juntou as duas metades do óculos numa só empresa: quem faz a lente e quem faz a armação viraram sócios. O resultado é uma potência que responde por cerca de um quarto de todo o mercado óptico do planeta. Dificilmente existe outro produto de uso tão universal com uma concentração tão grande nas mãos de um único grupo.
No Brasil, o grupo comprou a Óticas Carol
O avanço chegou com força ao mercado brasileiro. Segundo a Exame, o grupo italiano comprou a rede Óticas Carol por cerca de 110 milhões de euros, ampliando sua presença direta no varejo nacional. A rede tinha por volta de 990 pontos de venda quando foi adquirida, e assim parte relevante das óticas que o brasileiro frequenta passou a orbitar a mesma dona da marca de sol mais famosa do mundo.
Com marcas próprias, grifes licenciadas e redes de loja, a companhia toca o consumidor brasileiro em praticamente todas as faixas de preço. Do óculos de sol de rua ao de grau de grife, o caminho quase sempre leva ao mesmo grupo. É a prova de que o domínio construído nos Alpes italianos não respeita fronteiras.
Por que quase não existe concorrência de verdade nos óculos
A história desse império dos óculos incomoda porque desmonta uma ideia querida: a de que o mercado sempre nos dá muitas opções. No caso dos óculos, a variedade de marcas esconde uma concentração brutal de poder num único grupo, capaz de definir preço, moda e disponibilidade.
Não se trata de ilegalidade, e sim de uma estratégia industrial montada com paciência ao longo de sessenta anos. Da próxima vez que você experimentar uma armação e comparar etiquetas, vale desconfiar de quantas delas são de fato rivais. Você já tinha percebido que talvez esteja sempre comprando da mesma empresa, não importa a marca que escolha?
