A Barragem de Rogun, no Tadjiquistão, combina desvio de rio glaciar, aterro de rocha com núcleo de argila, túneis profundos e cronograma até 2036 para transformar segurança energética, irrigação e receita de exportação, mas carrega custos bilionários, risco sísmico, tensão regional e pressão política permanente no país de alta montanha.
A Barragem de Rogun virou o eixo de uma decisão nacional que mistura engenharia pesada, necessidade energética e sobrevivência econômica. Em um país sem litoral, com recursos fósseis limitados e população de pouco mais de 10 milhões de pessoas, a obra foi colocada no centro da estratégia de longo prazo.
No vale remoto do rio Vakhsh, a dimensão do projeto explica por que ele desperta tanta atenção: estrutura planejada para cerca de 335 metros de altura, capacidade instalada de 3.600 megawatts e reservatório estimado em aproximadamente 13 km³. É uma intervenção desenhada para alterar, ao mesmo tempo, o mapa da eletricidade e o regime de água do país.
De projeto soviético abandonado a prioridade de Estado
A origem da Barragem de Rogun não é recente. A ideia apareceu ainda na década de 1960, quando o Tadjiquistão fazia parte da União Soviética e Moscou priorizava obras de infraestrutura de grande porte na Ásia Central.
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O lançamento formal ocorreu em 1976, com a proposta de controlar o fluxo do Vakhsh, gerar energia em escala e regular abastecimento hídrico regional.
A trajetória, porém, foi interrompida pelo colapso soviético e pela guerra civil após 1991. O canteiro ficou parcialmente construído e sem continuidade por mais de duas décadas.
Quando o projeto renasce, ele já não é apenas uma barragem, é uma tentativa de recuperar tempo histórico perdido em um setor estratégico.
A engenharia da Barragem de Rogun em ambiente extremo

Diferentemente de uma barragem convencional de concreto maciço, a Barragem de Rogun foi concebida como barragem de enrocamento com núcleo de argila.
Na prática, isso significa um corpo formado por rocha e cascalho compactados em camadas sucessivas, enquanto o núcleo central de argila atua como barreira impermeável. Esse arranjo busca estabilidade estrutural e controle de infiltração em um vale de alta energia hidráulica.

Antes de erguer o corpo principal, a obra exigiu fundação seca e estável, o que levou ao desvio do rio por quatro túneis na encosta, cada um com mais de um quilômetro de extensão.
Dois túneis são da fase soviética e foram reabilitados, enquanto dois foram concluídos no reinício do projeto. Sem esse desvio, não existe barragem, existe apenas tentativa de construir dentro de um fluxo ativo de montanha.
O tratamento geotécnico inclui escavação de materiais frágeis, injeção de argamassa em fraturas naturais da rocha e implantação de drenagem para reduzir pressão de água sob a estrutura.
Em paralelo, encostas foram reforçadas com ancoragem, telas e concreto projetado, enquanto instrumentação acompanha deformação, recalque e pressão intersticial em tempo real.
Esse nível de controle operacional é decisivo porque a obra avança por etapas, com compactação em camadas finas, inspeções contínuas e integração com estruturas de descarga, poços verticais e revestimento de túneis.
A barragem cresce em altura, mas o verdadeiro teste diário está no comportamento invisível da fundação e das encostas.
O que muda em energia e água entre 2029 e 2036

A Barragem de Rogun já deixou de ser apenas canteiro puro quando as duas primeiras unidades começaram a gerar eletricidade em 2018 e 2019.

Essa fase inicial cumpre dupla função: atende parte da demanda doméstica e permite validar desenho operacional em condição real, com ajustes técnicos antes da altura final do barramento.
Pelo cronograma informado, o corpo principal deve alcançar a cota de projeto por volta de 2029, enquanto o enchimento completo do reservatório é planejado de forma cautelosa, com horizonte até 2036.
Esse intervalo é técnico e político ao mesmo tempo: aceleração demais eleva risco, lentidão demais pressiona a conta nacional.
Se os parâmetros forem cumpridos, a capacidade total de 3.600 MW pode dobrar a produção atual de eletricidade do país e criar excedente sazonal, especialmente no verão. No papel, isso amplia segurança energética interna e abre espaço para exportação regional de energia, criando nova fonte de receita externa para uma economia com base limitada de arrecadação.
A outra frente é hídrica. Com reservatório de grande porte, a Barragem de Rogun tende a aumentar a capacidade de regular vazões ao longo do ano, com efeito potencial sobre irrigação a jusante. Energia e água, nesse caso, não são agendas separadas, são partes da mesma equação de estabilidade nacional.
Quanto custa, quem paga e por que a geopolítica pesa
Os números financeiros divulgados para o empreendimento variam nas fontes da própria narrativa do projeto, com estimativas em torno de US$ 6,3 bilhões e também próximas de US$ 8 bilhões. Em qualquer cenário, trata-se de montante enorme para a escala econômica do Tadjiquistão, frequentemente descrito como valor próximo de metade do PIB nacional.
Esse peso explica a recorrente escassez de financiamento ao longo dos anos e a cautela de doadores internacionais.
A entrada de instituições multilaterais foi condicionada a estudos independentes de viabilidade e avaliações de impacto regional. O risco não está só no concreto e na geologia, está na capacidade de sustentar fluxo financeiro por anos sem romper o equilíbrio fiscal.
Há ainda a camada diplomática. Países a jusante, especialmente o Uzbequistão, historicamente levantaram preocupação com segurança hídrica e disponibilidade de água para agricultura no sistema do Amu Darya.
Em termos práticos, toda grande barragem a montante reorganiza expectativas regionais de acesso à água e exige governança transfronteiriça mais sofisticada.
Por isso, a Barragem de Rogun opera no cruzamento entre infraestrutura, segurança energética e relações internacionais. A obra será julgada não apenas pela altura final, mas pela capacidade de produzir energia sem ampliar conflito hídrico na vizinhança.
O que a comparação com megaprojetos mostra e o que ela não resolve
Comparações com grandes barragens globais ajudam a dimensionar ambição, mas não eliminam diferenças estruturais.
Projetos em economias continentais, com mercado interno massivo e capacidade financeira muito maior, operam com colchões de risco que o Tadjiquistão não possui. Escala técnica parecida não significa contexto econômico parecido.
Ainda assim, a comparação revela um ponto útil: barragens só entregam benefício sustentável quando combinam fundação robusta, operação segura, cronograma realista e governança contínua da água.
Uma barragem pode mudar o futuro de um país, mas também pode amplificar fragilidades se execução, financiamento e diplomacia não caminham no mesmo ritmo.
No caso da Barragem de Rogun, o projeto sintetiza essa tensão. Existe potencial de transformação energética real, mas também existe uma janela longa de execução até 2036, período em que custos, clima, geopolítica e confiança de investidores continuarão pressionando cada decisão de engenharia e de Estado.
A Barragem de Rogun é, ao mesmo tempo, obra hidráulica, aposta macroeconômica e teste de coordenação nacional em ambiente de alta complexidade. Se alcançar os parâmetros técnicos prometidos, pode reduzir vulnerabilidade energética, melhorar previsibilidade hídrica e reposicionar o Tadjiquistão na Ásia Central. Se falhar, pode deixar um legado de custo elevado, tensão regional e capacidade ociosa.
Um projeto como a Barragem de Rogun deve priorizar primeiro segurança energética interna ou acordos regionais de água para reduzir atrito a jusante? E, olhando para países de baixa renda, você acredita que megainfraestrutura ainda é o caminho mais eficiente para destravar crescimento de longo prazo?
