Estudo mostra que dias na Terra mais longos avançam em ritmo inédito e a rotação da Terra já sente o efeito do derretimento do gelo.
Os dias na Terra estão ficando mais longos, e esse movimento ganhou força em uma velocidade que não aparecia há 3,6 milhões de anos. O fenômeno está ligado ao avanço das mudanças climáticas e ao derretimento das calotas polares, que alteram a distribuição de massa do planeta.
O impacto não muda a rotina de forma perceptível no dia a dia, mas pode afetar sistemas que dependem de extrema precisão, como satélites GPS, navegação espacial e redes financeiras. As informações foram divulgadas por Journal of Geophysical Research: Solid Earth, periódico científico da área de geociências.
A Terra leva, em teoria, 24 horas para completar uma rotação. Na prática, esse tempo sofre pequenas variações por causa da influência da Lua e de processos geofísicos que atuam no interior do planeta, na superfície e também na atmosfera.
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Em julho e agosto de 2025, a proximidade da Lua já tinha provocado dias um pouco mais lentos, com diferença de pouco mais de 1 milissegundo acima da média. Só que o novo cenário aponta para uma tendência mais ampla e persistente.
Mudanças climáticas alteram a rotação da Terra
O aquecimento global provocado pela ação humana está acelerando o derretimento de geleiras e calotas polares. Com isso, uma enorme quantidade de água antes presa no gelo passa a circular pelos oceanos, elevando o nível do mar.
Esse deslocamento muda a forma como a massa da Terra se distribui. Quanto mais água se afasta das regiões polares e avança em direção ao equador, maior é o efeito sobre a rotação da Terra.
A lógica lembra o movimento de um patinador artístico. Quando os braços se afastam do corpo, o giro perde velocidade. No planeta, o efeito é parecido: a massa se afasta do eixo de rotação e o giro desacelera.
Taxa atual de alongamento do dia chama atenção dos cientistas
A equipe formada por pesquisadores da Universidade de Viena e da ETH Zurich analisou milhões de anos da história da Terra desde o fim do Plioceno. O objetivo era descobrir se já houve outro período em que o clima interferiu na duração do dia em um ritmo semelhante.
O resultado apontou que o dia está se alongando em cerca de 1,33 milissegundos por século. O principal fator por trás disso é a elevação do nível do mar provocada pelo derretimento do gelo.
Mostafa Kiani Shahvandi, autor do estudo e pesquisador do Departamento de Meteorologia e Geofísica da Universidade de Viena, resumiu o mecanismo com uma comparação simples:
“Em nosso trabalho anterior, mostramos que o derretimento acelerado das calotas polares e geleiras de montanha no século XXI está elevando o nível do mar, o que diminui a rotação da Terra e, portanto, prolonga o dia, semelhante a um patinador artístico que gira mais lentamente quando estica os braços e mais rapidamente quando mantém as mãos próximas ao corpo”.
Ele também destacou a dúvida central da pesquisa: “O que permanecia incerto era se houve períodos anteriores em que o clima aumentou a duração do dia em um ritmo igualmente acelerado”.
Ritmo atual não aparece em nenhum outro momento dos últimos 3,6 milhões de anos
A análise mostrou que o processo atual ocorre em uma velocidade sem precedentes dentro da janela estudada. Nenhum outro período dos últimos 3,6 milhões de anos apresentou o mesmo avanço na duração do dia.
Esse dado reforça o peso da influência humana sobre o clima e sobre a dinâmica física do planeta. O fenômeno não se resume a aquecimento e elevação do mar. Ele também alcança o próprio tempo de rotação da Terra.
Journal of Geophysical Research: Solid Earth, periódico científico da área de geociências, publicou o estudo com os dados que embasam essa conclusão. Benedikt Soja, professor de Geodésia Espacial da ETH Zurich, resumiu a gravidade do cenário:
“Este rápido aumento na duração do dia implica que a taxa de mudança climática moderna não tem precedentes, pelo menos desde o final do Plioceno, há 3,6 milhões de anos. O atual aumento rápido na duração do dia pode, portanto, ser atribuído principalmente à influência humana”.
Efeito da Lua pode perder espaço para o avanço do aquecimento global
A influência da Lua sempre foi uma das principais forças por trás das variações na duração do dia. Mesmo assim, a projeção para as próximas décadas indica que o peso das mudanças climáticas pode ultrapassar esse efeito natural até o fim do século.
Benedikt Soja chamou atenção para esse ponto ao afirmar: “Até o final do século XXI, espera se que as mudanças climáticas afetem a duração do dia ainda mais do que a Lua. Mesmo que as mudanças sejam de apenas milissegundos, elas podem causar problemas em muitas áreas, por exemplo, na navegação espacial precisa, que requer informações exatas sobre a rotação da Terra”.
A mudança parece pequena quando observada em números absolutos. Ainda assim, em áreas de alta precisão, qualquer desvio pode comprometer cálculos, sincronização de sistemas e operações críticas.
Dias mais longos podem afetar GPS, satélites e redes financeiras
Para a maior parte das pessoas, um aumento de 1,33 milissegundos por século passa despercebido. O problema surge em setores que trabalham com referência temporal extremamente rígida.
É o caso de satélites GPS, missões espaciais e redes financeiras complexas. Nesses ambientes, portanto, a menor alteração na rotação do planeta pode gerar falhas em sistemas calibrados com enorme precisão.
Isso transforma um detalhe aparentemente distante em um tema técnico de grande importância. O avanço das mudanças climáticas já não interfere apenas no clima, no gelo e no nível do mar. Ele também começa a alterar um dos parâmetros mais básicos da vida no planeta: a duração do dia.
Os dias na Terra estão ficando mais longos em um ritmo incomum, e o derretimento do gelo aparece como peça central dessa mudança. O fenômeno conecta clima, oceanos, física do planeta e tecnologia de alta precisão em um mesmo cenário.
A desaceleração da rotação da Terra pode parecer mínima agora, mas o efeito acumulado ganha relevância à medida que o aquecimento global avança. Se quiser, deixe sua opinião nos comentários e compartilhe esta publicação com quem gosta de ciência, clima e inovação.


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