Vestígios encontrados durante obras no Centro de Salvador revelaram partes do antigo Teatro São João, construção destruída por incêndio em 1923 e ligada à história cultural da capital baiana por mais de um século, antes de desaparecer da paisagem urbana.
Operários que trabalhavam na requalificação da Praça Castro Alves, no Centro de Salvador, encontraram sob a calçada vestígios associados ao antigo Teatro São João, construção destruída por incêndio em 1923 e ligada a mais de um século da vida cultural da capital baiana. A descoberta expôs partes da fachada e escadarias do edifício, segundo reportagem publicada pelo jornal Correio.
Durante as obras de requalificação da Praça Castro Alves e da Avenida Sete de Setembro, em uma área de grande circulação na Cidade Alta, a equipe de arqueologia responsável pelo acompanhamento da intervenção identificou uma estrutura de concreto nas escavações. O Anota Bahia informou que o achado seria explicado pela Prefeitura de Salvador e pelo Iphan.
Na avaliação inicial, os resquícios poderiam corresponder às fundações do antigo Teatro São João, hipótese levantada ainda durante os primeiros trabalhos arqueológicos no local. Posteriormente, a apuração citada pelo Correio indicou que as estruturas eram, na verdade, parte inferior da fachada e degraus de acesso ao foyer, área por onde o público circulava antes das apresentações.
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Ruínas mudaram a leitura da obra na Praça Castro Alves

Planejada para reorganizar e valorizar um dos pontos mais conhecidos de Salvador, a intervenção urbana passou a ter também um componente arqueológico relevante. Sob a área hoje usada por pedestres, moradores e turistas, surgiram sinais materiais de uma construção que desapareceu da paisagem há mais de cem anos.
No coração da Cidade Alta, a Praça Castro Alves ocupa um trecho central próximo à Rua Chile e à Avenida Sete de Setembro, em uma região associada à formação histórica de Salvador. Antes de receber o nome atual, o espaço foi conhecido como Largo do Teatro, justamente pela presença do São João naquele ponto da cidade.
A importância da descoberta vai além da localização, porque os vestígios não se limitavam a blocos isolados ou fragmentos sem função aparente. As escadarias e a parte da fachada ajudam a compreender como o antigo teatro se relacionava com a praça, indicando o caminho de entrada do público e a posição do edifício no tecido urbano.
Teatro São João marcou a vida cultural de Salvador
Inaugurado em 1812, o Teatro São João funcionou por mais de 110 anos no local onde hoje está a Praça Castro Alves. O Correio descreve o edifício como uma das principais casas de ópera do Império e informa que ele foi destruído por incêndios em 1923.
Ao longo de sua história, o espaço recebeu espetáculos, recitais, apresentações musicais e eventos ligados à vida pública de Salvador. A reportagem do Correio menciona a passagem de nomes como Castro Alves e Carlos Gomes, além de registrar o papel do teatro na vida social da cidade.
Também chama atenção a escala do edifício, citada como um dos pontos que ajudam a explicar o impacto do achado arqueológico. Segundo a reportagem de janeiro de 2020, o historiador Jaime Nascimento afirmou que o São João nasceu como um dos maiores teatros das Américas, com capacidade estimada em cerca de 2 mil pessoas.
Comparado à sala principal do atual Teatro Castro Alves, o antigo São João tinha capacidade superior, de acordo com a observação atribuída pelo Correio ao mesmo historiador. Esse dado reforça a dimensão do prédio desaparecido e a importância que ele teve para a vida artística de Salvador no século XIX e início do século XX.
Fachada e escadarias indicam acesso principal do edifício

Pela localização das estruturas encontradas, os vestígios foram associados à antiga entrada do teatro e ajudam a reconstituir o percurso feito pelo público. De acordo com a descrição publicada pelo Correio, as pessoas passavam pela porta principal, subiam os degraus e chegavam ao foyer antes de seguir para os demais espaços internos do prédio.
Esse detalhe dá concretude à descoberta, porque permite imaginar o fluxo de entrada em uma casa de espetáculos que já foi central para Salvador. Em vez de apenas uma base enterrada, o que surgiu durante a escavação era parte do caminho usado por plateias, artistas e frequentadores do teatro.
Durante os trabalhos, uma antiga fonte localizada na área também entrou nas discussões sobre o futuro da praça. Segundo o Correio, a Fundação Gregório de Matos estudava criar um espaço que aproveitasse a estrutura da fonte como palco para pequenas apresentações.
A proposta mencionada pela publicação previa adaptar o local para integrar memória histórica e uso público contemporâneo. Com isso, a área poderia se transformar em um ambiente de convivência, mantendo visível parte do conjunto arqueológico revelado pela obra de requalificação.
Iphan acompanhou trabalhos arqueológicos na praça
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional participou do processo relacionado ao achado na Praça Castro Alves. Em dezembro de 2019, o Anota Bahia informou que a Prefeitura de Salvador e o Iphan fariam uma coletiva para explicar a descoberta durante as obras no local.
Naquela etapa, a equipe de arqueologia havia encontrado uma estrutura em uma escavação de 20 metros por 10 metros, após prospecção arqueológica e uso de georradar para identificação de materiais no solo. A possível relação com o Teatro São João ainda dependia de estudos complementares naquele primeiro momento.
Em centros históricos, o acompanhamento arqueológico em obras públicas se torna decisivo porque essas áreas acumulam camadas de ocupação ao longo do tempo. Reformas em praças, avenidas e edifícios podem revelar estruturas soterradas que não aparecem na superfície, mas permanecem ligadas à memória urbana.
No caso da Praça Castro Alves, o achado mostrou que parte da história do antigo Teatro São João sobreviveu sob o piso da cidade. Mesmo depois do incêndio de 1923 e das transformações urbanas posteriores, fragmentos do edifício continuaram preservados no subsolo.
Vista hoje como área de circulação urbana, paisagem da Cidade Alta e palco de eventos públicos, a praça ganhou uma nova camada de leitura com a descoberta. Antes de se consolidar como um dos cartões simbólicos de Salvador, o local abrigou um teatro que reunia apresentações artísticas, encontros sociais e episódios da vida pública baiana.
Mais do que revelar uma estrutura antiga, a requalificação trouxe de volta uma parte material de um equipamento cultural que ajudou a moldar a história de Salvador. As escadarias e a fachada reapareceram como vestígios de um prédio cuja presença física havia sido apagada da paisagem desde o início do século XX.


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