A mineração de lítio foi vendida como o eldorado que tiraria o Vale do Jequitinhonha da pobreza. Mas em Araçuaí e Itinga, em Minas Gerais, moradores convivem com casas rachadas pelas detonações da Sigma Lithium, com o custo de vida nas alturas e com a riqueza prometida que simplesmente não chega.
Venderam o lítio como a salvação da região mais pobre do Brasil, mas o que muita família do Vale do Jequitinhonha recebeu foi parede trincada e medo de o teto cair. Em dezembro de 2025, uma reportagem da Agência Pública mostrou que a mineração de lítio nos municípios de Araçuaí e Itinga, em Minas Gerais, deixou um rastro de casas rachadas, poeira e promessas não cumpridas.
A reviravolta é cruel. O minério que abastece as baterias do mundo todo, símbolo da transição energética limpa, virou sinônimo de prejuízo para quem mora ao lado da lavra. Enquanto a Sigma Lithium, maior produtora de lítio do país, exporta o metal, os vizinhos da mina relatam rachaduras, doenças e um custo de vida que expulsa os mais pobres da própria terra.
As casas rachadas e o medo de o teto cair

Segundo a Agência Pública, metade dos moradores ouvidos na região de Piauí Poço Dantas, entre Araçuaí e Itinga, relata casas rachadas por anos de detonações da mineração, e 89% dizem sentir o tremor das explosões. Não é exagero de quem reclama por reclamar, é o cotidiano de quem dorme sem saber se a parede aguenta.
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O medo tem nome e voz. “Eu tenho medo que ela caia em cima da gente de noite”, contou Dona Fatinha, aposentada, à Agência Pública, falando da própria casa. O vizinho Amilcar Viana, também aposentado e morador há décadas, resumiu o sentimento de quem viu a paz acabar: “Esse povo veio pra cá, a gente estava de boa. Eles podiam ter deixado a gente quietinho”.
Diante das casas rachadas, a Justiça virou o único caminho. A Agência Pública identificou pelo menos 12 ações movidas por moradores de Piauí Poço Dantas contra a Sigma Lithium na Justiça estadual de Minas, além de uma ação federal de indígenas Pankararu e Pataxó. Os afetados pedem indenização e, em muitos casos, que a empresa compre os imóveis danificados, porque morar ali virou risco.
O aluguel disparou e o custo de vida explodiu
Quem não mora na beira da mina sente o golpe no bolso. A chegada da mineração de lítio ao Vale do Jequitinhonha atraiu uma multidão de fora, e o custo de vida disparou. O Observatório da Mineração registrou que tanto o aluguel dos imóveis quanto os preços no comércio subiram muito com o boom do metal.
O efeito mais perverso atinge quem tem menos. Estudantes da zona rural, que precisam alugar um quarto na cidade para conseguir estudar, estão sendo empurrados para fora pela alta do aluguel. “Os estudantes da área rural às vezes têm que pagar um aluguel para poder estudar e muitos não conseguem”, relatou Cleonice Pankararu, liderança da terra indígena Aldeia Cinta Vermelha-Jundiba, ao Observatório da Mineração. O custo de vida subiu, mas a renda da maioria, não.
E o custo de vida não para no aluguel. Com o inchaço populacional, o acesso à saúde piorou. Segundo o mesmo levantamento, os hospitais ficaram superlotados, e quem precisa de uma especialidade médica tem que viajar até Belo Horizonte ou Diamantina. A promessa de progresso, na prática, deixou o serviço público local pior do que era antes da mineração de lítio.
A água que falta para o povo e sobra para a mineradora
Talvez nenhum número resuma melhor a desigualdade do que o da água. No Vale do Jequitinhonha, castigado pela seca, uma família chega a viver com uma caixa de 16 mil litros por oito meses de estiagem, o equivalente a cerca de 2 mil litros por mês, segundo o Observatório da Mineração. Enquanto isso, a outorga concedida à Sigma Lithium na região de Itinga é de 3,8 milhões de litros por dia.
A conta não fecha para quem vive ali. De um lado, o sertanejo racionando cada gota; do outro, a mineração de lítio com permissão para captar um volume de água que a população local nem sonha em ter. É a tradução exata de quem ganha e quem perde com o chamado Vale do Lítio.
A poeira completa o quadro. Pela reportagem da Agência Pública, 76% dos moradores reclamam do pó levantado pela lavra e 55% apontam impactos na saúde por causa dele. José Nelson, agente da Cáritas em Araçuaí, e Rodrigo Pires Vieira, coordenador da Cáritas em Minas Gerais, estão entre as vozes que acompanham de perto os danos socioambientais da mineração de lítio nas comunidades.
A promessa de R$ 1 bilhão que virou R$ 0 de royalties
O contraste entre o discurso e a realidade aparece com força no dinheiro público. A mineração de lítio foi vendida com a promessa de cerca de R$ 1 bilhão em royalties ao longo de 20 anos, uma média de R$ 50 milhões por ano para uma região que sempre foi pobre. Era esse o eldorado prometido ao Vale do Jequitinhonha.
A realidade foi outra. Conforme a Agência Pública, a arrecadação da CFEM, a compensação paga pela exploração mineral, foi de R$ 9,5 milhões em 2023 e R$ 12,5 milhões em 2024, mas despencou para zero em 2025, com a empresa não repassando um centavo no ano. Para prefeituras pequenas, esse buraco é enorme. “Esses recursos têm feito falta”, reconheceu João Bosco Cordeiro, o Bosquinho, prefeito de Itinga, à Agência Pública.
E os empregos, o maior argumento de venda da mineração de lítio? Também minguaram. A reportagem registra a demissão de 500 funcionários pela Fagundes Construção e operações paralisadas no período. Até o bispo de Araçuaí, Dom Geraldo Maia, contestou o discurso da empresa, afirmando que a propalada entrega de quatro escolas “não procede”. A riqueza prometida não se materializou nem no caixa, nem no emprego, nem na escola.
Por que o Vale do Lítio prometeu tanto e entregou tão pouco
O caso do Vale do Jequitinhonha é o retrato de um modelo que se repete no Brasil. Promete-se que a chegada de uma grande mineradora vai transformar a região pobre num polo de prosperidade, e a comunidade aceita o incômodo na esperança do progresso. Quando a conta chega, porém, o lucro viaja para fora e o passivo fica com quem nunca saiu dali.
A Sigma Lithium opera num dos territórios mais carentes do país, numa atividade que move bilhões no mercado global. Mesmo assim, são as casas rachadas, o custo de vida nas alturas, a água disputada e a poeira que definem o dia a dia de Araçuaí e Itinga. A promessa verde do lítio, do lado de dentro das casas, tem cor de prejuízo.
Nada disso significa que a região seja contra gerar renda. A frustração é com o jeito. “Eu não sou contra a mineração, eu sou contra o jeito que as mineradoras fazem”, disse o morador Márcio à Agência Pública. É um recado que vale para toda a corrida do lítio: sem repartir o ganho e sem reparar o dano, o desenvolvimento prometido vira só mais uma promessa quebrada no Vale do Jequitinhonha.
A história do lítio no Vale do Jequitinhonha mostra o outro lado da transição energética que ninguém coloca no folheto. Enquanto o mundo celebra as baterias limpas, as famílias de Araçuaí e Itinga somam casas rachadas, custo de vida impagável, água disputada e R$ 0 de royalties em 2025, num eldorado que prometeu tudo e entregou conta. A mineração de lítio da Sigma Lithium virou o retrato do progresso que passa por cima de quem deveria ajudar.
E você, acha que dá para minerar o lítio sem destruir a vida de quem mora em volta, ou o preço para as comunidades é sempre alto demais? Conta nos comentários a sua opinião.

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