Descoberta arqueológica em obra ferroviária na Suécia expõe navios de diferentes épocas sob área urbana aterrada ao longo dos séculos, revelando vestígios preservados do antigo porto de Varberg e ampliando o conhecimento sobre técnicas navais e circulação marítima histórica.
Durante obras do túnel ferroviário de Varberg, na Suécia, surgiram seis restos de embarcações soterrados em uma área que integrava a antiga linha costeira e a zona portuária da cidade ao longo dos séculos.
A descoberta ocorreu no contexto das escavações do projeto Varbergstunneln, que acabou abrindo acesso a camadas históricas até então ocultas sob o centro urbano consolidado.
Segundo a Arkeologerna, consultoria arqueológica ligada aos Museus Históricos Nacionais da Suécia, quatro vestígios pertencem ao período medieval ou tardo-medieval, enquanto um foi associado ao século XVII e outro segue sem datação precisa.
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Divulgadas em maio de 2025, as análises reforçam o valor científico do achado ao reunir embarcações de diferentes épocas em um mesmo trecho urbano, algo considerado incomum em contextos arqueológicos desse tipo.
Antigo porto sob a cidade moderna

Com o avanço das obras, tornou-se possível investigar uma faixa que, durante séculos, esteve diretamente ligada à circulação marítima, ao comércio regional e às atividades de ancoragem no litoral histórico de Varberg.
Ao longo do tempo, porém, essa área foi progressivamente aterrada e incorporada à malha urbana, permanecendo fora do alcance de estudos até a abertura dessa frente de escavação.
Participaram do trabalho arqueólogos da Arkeologerna, do Bohusläns museum, da Visuell arkeologi e da Kulturmiljö Halland, em uma operação que exigiu respostas rápidas diante do ritmo imposto pelo cronograma de engenharia.
De acordo com a equipe, a intervenção acabou criando uma oportunidade rara para examinar a antiga frente marítima da cidade em um ponto onde hoje predominam estruturas modernas e infraestrutura ferroviária ativa.
Navio dos anos 1530 é o mais preservado
Entre os vestígios identificados, o Varbergsvraket 2 chamou atenção por apresentar o estado de preservação mais significativo entre as embarcações analisadas até agora.
Trata-se de um navio à vela construído em carvalho na segunda metade da década de 1530, com madeira associada ao estoque florestal da região de Halland e do oeste sueco.
As primeiras peças foram localizadas em 2021, durante uma escavação noturna necessária para a instalação de uma estrutura de contenção ao lado da ferrovia já existente.
Na ocasião, a ausência de um arqueólogo no local e a impossibilidade de interromper a obra levaram à retirada imediata dos elementos, que foram separados para avaliação técnica apenas no dia seguinte.
Ainda assim, os pesquisadores indicam que parte considerável do casco pode permanecer soterrada do outro lado da contenção implantada durante a intervenção ferroviária.

Mesmo com a remoção parcial, foi possível identificar porções do costado de estibordo, além de madeiras soltas e detalhes construtivos relevantes para a compreensão da embarcação.
Técnicas construtivas revelam padrões históricos
A análise indicou que o Varbergsvraket 2 foi montado em técnica de clínquer, caracterizada pela sobreposição das tábuas que formam o casco da embarcação.
Além disso, a estrutura preservava externamente um berghult, elemento que funciona como reforço e proteção lateral, especialmente em situações de contato com cais ou outras superfícies durante a atracação.
Esse detalhe despertou interesse porque o berghult costuma aparecer com mais frequência em embarcações construídas em técnica de cavernas, embora também seja registrado em navios de clínquer.
No caso específico encontrado em Varberg, observou-se ainda um recorte na parte superior da peça, interpretado como possível apoio estrutural complementar dentro da configuração original do navio.
Outro aspecto relevante foi o registro de sinais de fogo no próprio berghult, incorporado agora às análises sobre o uso e o eventual abandono da embarcação ao longo do tempo.
Apesar disso, não há confirmação segura sobre a origem desse dano, nem elementos suficientes para determinar quando exatamente ele ocorreu dentro da história do navio.
Outros navios ampliam diversidade histórica
Também construído em clínquer, o Varbergsvraket 5 apresentou madeira associada ao mesmo estoque regional de carvalho identificado no navio do século XVI.
A datação indica que as árvores utilizadas nessa embarcação foram derrubadas em algum momento do século XVII, posicionando o vestígio em um período posterior.

Por outro lado, o Varbergsvraket 6 revelou características distintas, evidenciando a diversidade de técnicas navais presentes no conjunto analisado pelos especialistas.
Nesse caso, trata-se de um veleiro de carvalho construído em técnica de cavernas, com tábuas dispostas lado a lado, além de ser o único exemplar dessa etapa que preservou a quilha.
Descrita como uma spunningsköl, essa quilha apresentou traços associados à tradição naval holandesa, indicando possíveis influências externas na construção da embarcação.
Ainda assim, a dendrocronologia não conseguiu determinar com precisão a origem da madeira nem o momento exato de derrubada das árvores, mantendo o exemplar sem datação definida.
Vestígios medievais ainda em análise
Enquanto isso, os arqueólogos seguem avançando na análise dos Varbergsvraken 3 e 4, identificados como cogues datadas do século XIV.
Esse tipo de embarcação de carga foi amplamente utilizado no norte da Europa medieval, desempenhando papel relevante nas rotas comerciais que conectavam diferentes regiões do continente.
O conjunto de achados reforça como grandes obras em áreas costeiras podem revelar vestígios preservados de antigos ambientes portuários, muitas vezes ocultos sob camadas urbanas modernas.
No caso de Varberg, a combinação entre solo úmido, sucessivos aterros e o avanço da urbanização contribuiu para preservar embarcações de diferentes períodos sob ruas, trilhos e estruturas atuais.
