Descoberta inesperada em área urbana revela embarcação medieval de grande porte preservada sob o solo de Tallinn, com dimensões raras e objetos históricos que ajudam a reconstituir o comércio marítimo do século XIV no norte da Europa.
Enquanto avançavam na fundação de um prédio comercial em Tallinn, capital da Estônia, trabalhadores se depararam com um navio medieval de 24,5 metros de comprimento, soterrado a cerca de 1,5 metro abaixo da superfície na rua Lootsi, área próxima ao antigo porto histórico.
Registrado em 31 de março de 2022, o achado foi identificado pelo Museu Marítimo da Estônia como o naufrágio de Lootsi, classificado entre as maiores embarcações medievais já encontradas na Europa, devido ao porte expressivo e à preservação incomum do casco.
Sob o solo urbano, a estrutura surpreendeu especialistas tanto pelo tamanho quanto pelo estado de conservação, já que grande parte do casco permaneceu íntegra após séculos, algo considerado raro em escavações realizadas em ambientes urbanos contemporâneos densamente ocupados.
-
Mulher transforma apartamento em depósito com 158 pares de calçados, 140 calças e roupas nunca usadas após compulsão gerar dívida de R$241 mil
-
Peixe mais famoso do Brasil percorre mais de 600 km contra a correnteza, supera barragens por escadas ecológicas e enfrenta rios em cheia para garantir a reprodução em uma das migrações mais impressionantes da biodiversidade brasileira
-
Adeus fotos velhas: função pouco conhecida do Gemini usa IA para restaurar imagens antigas em segundos, corrigindo rasgos, manchas, áreas borradas e cores desbotadas com um prompt profissional baseado em 6 etapas de recuperação
-
Desenganada por um médico aos 7 anos, Cici de Amaralina desafia a medicina há 65 anos como baiana de acarajé e, aos 72, segue no ponto da família, ocupado há mais de 80 anos
Com cerca de 9 metros de largura, 4 metros de altura e peso estimado em 97,7 toneladas, o navio reforça a relevância do achado, segundo dados divulgados pelo museu responsável pela análise e conservação do material arqueológico encontrado no local.
A datação da madeira ocorreu por meio da dendrocronologia, técnica que examina os anéis de crescimento das árvores, permitindo determinar com precisão o período em que o material foi utilizado na construção da embarcação.
Os resultados indicaram corte por volta de 1360, inserindo o navio no contexto do século XIV, fase marcada por intenso fluxo comercial entre portos do mar Báltico e do mar do Norte, regiões estratégicas para o intercâmbio de mercadorias na Europa medieval.

Área histórica ligada ao porto de Tallinn
Localizada na rua Lootsi, a escavação ocorreu em uma zona historicamente vinculada ao antigo porto de Tallinn, onde a paisagem atual, dominada por construções modernas, contrasta com a dinâmica marítima que caracterizava o espaço durante a Idade Média.
Inicialmente classificado como um cog, tipo de navio mercante de um único mastro amplamente utilizado no norte europeu, o exemplar passou a ser reavaliado por especialistas diante de características estruturais que sugerem possível relação com embarcações do tipo hulk.
Ainda que essa revisão esteja em curso, o Museu Marítimo da Estônia mantém a designação de Lootsi cog em sua comunicação institucional, enquanto estudos complementares buscam esclarecer com maior precisão a tipologia da embarcação encontrada.
A dimensão do casco reforça o valor científico do achado, já que, em vez de fragmentos dispersos, os arqueólogos identificaram uma estrutura preservada em larga escala, abrangendo do costado até áreas próximas ao convés, algo pouco comum em escavações urbanas.
Objetos encontrados revelam rotina e navegação medieval
Durante a escavação, além da estrutura principal, foram identificados diversos objetos associados ao funcionamento e ao cotidiano do navio, ampliando o potencial de estudo sobre a vida a bordo e as práticas marítimas do período medieval.
Entre os itens mencionados pelo Museu Marítimo da Estônia estão ferramentas, sapatos de couro, armas, restos de ratos de bordo e um compasso metálico equipado com rosa dos ventos, elemento diretamente ligado à navegação da época.

Esse compasso despertou atenção especial entre os pesquisadores, sendo considerado, segundo o museu e a emissora pública ERR, possivelmente o mais antigo compasso seco preservado da Europa, o que amplia significativamente o valor histórico do conjunto encontrado.
Vestígios orgânicos, como restos de ratos de bordo, também fornecem pistas relevantes sobre as condições sanitárias, armazenamento de alimentos e desafios enfrentados durante viagens marítimas no século XIV, contribuindo para análises mais amplas do contexto histórico.
A partir desses elementos, torna-se possível compreender não apenas técnicas construtivas, mas também aspectos operacionais e sociais da navegação medieval, incluindo abastecimento, circulação de mercadorias e ocupação dos espaços internos da embarcação.
Operação complexa para retirada do navio medieval
Devido ao porte da embarcação, a remoção exigiu planejamento técnico detalhado, já que a integridade da estrutura precisava ser preservada durante todo o processo de retirada do solo urbano onde permaneceu enterrada por séculos.
Para viabilizar o transporte, a equipe optou por dividir o navio em quatro partes, etapa precedida por mais de três meses de preparação, envolvendo reforço estrutural, análise de estabilidade e definição da logística adequada para o deslocamento.
O transporte até o Museu Marítimo da Estônia durou aproximadamente 13 horas, sendo realizado com equipamentos especializados capazes de suportar o peso e o volume das seções, minimizando riscos de danos ao material arqueológico.
Após a remoção, o casco passou a ser mantido em ambiente controlado, condição essencial para evitar deformações, ressecamento da madeira e proliferação de agentes biológicos que poderiam comprometer a conservação da estrutura.
No espaço do museu, equipes técnicas iniciaram procedimentos de limpeza, documentação, medição e coleta de amostras, reunindo dados fundamentais para estudos aprofundados sobre a origem, construção e trajetória do navio.
Importância histórica do naufrágio de Lootsi

Inserido em um dos principais eixos comerciais da Europa medieval, o naufrágio de Lootsi reforça a relevância histórica de Tallinn como ponto estratégico nas rotas marítimas que conectavam diferentes regiões do continente durante o século XIV.
Ao mesmo tempo, o caso evidencia como estruturas de grande porte podem permanecer ocultas sob cidades modernas, revelando camadas históricas preservadas mesmo em áreas submetidas a intensa urbanização ao longo dos séculos.
Durante décadas, a embarcação permaneceu enterrada sob uma área movimentada da capital estoniana, sendo revelada apenas por uma escavação rotineira, o que ressalta o caráter fortuito da descoberta e sua importância para a arqueologia.
A combinação entre dimensões expressivas, estado de conservação e presença de objetos associados torna o achado particularmente relevante, permitindo investigações detalhadas sobre construção naval, navegação e comércio marítimo medieval.
Com análises conduzidas pelo Museu Marítimo da Estônia e apoio de especialistas internacionais, o material segue em processo de conservação, com perspectiva de futura exposição pública que integre o navio ao patrimônio histórico da região.
