Recifes submersos em alto-mar no Maranhão concentram naufrágios históricos, biodiversidade marinha e lacunas documentais que desafiam pesquisadores e autoridades ambientais, em uma área protegida desde os anos 1990 e frequentemente comparada ao famoso Triângulo das Bermudas.
Uma área de recifes e formações rochosas rasas no litoral ocidental do Maranhão reúne destroços de embarcações que naufragaram ao longo de mais de um século e acabou recebendo, no discurso popular e jornalístico, o apelido de “Triângulo das Bermudas brasileiro”.
O local é o Parque Estadual Marinho do Parcel de Manuel Luís, unidade de conservação criada em 1991 e vinculada ao município de Cururupu, onde acidentes de navegação formaram um relevante sítio arqueológico subaquático, além de uma área de interesse ambiental.
Relatos oficiais e reportagens costumam apontar a existência de cerca de 200 naufrágios na região.
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No entanto, levantamentos técnicos indicam que esse número não pode ser confirmado com precisão, já que parte dos registros históricos é incompleta ou inexistente.
Mesmo com essa incerteza, há comprovação de naufrágios documentados e de embarcações submersas identificadas, algumas acessíveis a mergulhadores especializados.
A origem da comparação com o Triângulo das Bermudas
A associação com o Triângulo das Bermudas, no Atlântico Norte, remete a uma área frequentemente citada em relatos sobre desaparecimentos de navios e aeronaves entre a Flórida, as Bermudas e Porto Rico.
Um dos episódios mais conhecidos é o do Voo 19, ocorrido em dezembro de 1945, quando cinco aviões da Marinha dos Estados Unidos desapareceram durante um treinamento.
Investigações posteriores atribuíram o caso, principalmente, a erro de navegação e condições operacionais adversas.
De acordo com a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA), não há evidências científicas de que o Triângulo das Bermudas registre uma taxa de acidentes superior à de outras regiões marítimas intensamente navegadas.
O órgão afirma que fatores como clima, correntes marítimas e falha humana explicam a maioria dos incidentes relatados.
No Brasil, a analogia surgiu não por fenômenos considerados inexplicáveis, mas pela frequência histórica de colisões com estruturas naturais submersas em uma área que, por muito tempo, foi pouco conhecida do ponto de vista cartográfico.
Localização e características do Parcel de Manuel Luís
O Parque Estadual Marinho do Parcel de Manuel Luís está situado em alto-mar, a dezenas de milhas náuticas da costa maranhense.
Documentos técnicos do Ministério do Meio Ambiente descrevem a área como localizada a cerca de 86 milhas náuticas do continente, tendo como referência a Ilha de Maiaú, e a aproximadamente 100 milhas náuticas de São Luís.
A unidade de conservação foi criada pelo Decreto Estadual nº 11.902, de 11 de junho de 1991, com área de 45.237,9 hectares.
A delimitação abrange recifes, lajes e bancos rochosos que permanecem parcialmente submersos, variando conforme a maré e as condições do mar.
Essas formações são conhecidas como “parcéis”, termo náutico usado para designar obstáculos naturais rasos que representam risco à navegação.
Esse risco era maior em períodos anteriores à difusão de cartas náuticas detalhadas e sistemas modernos de posicionamento.

Naufrágios no Maranhão: registros confirmados e lacunas históricas
A estimativa de aproximadamente 200 naufrágios no Parcel de Manuel Luís aparece de forma recorrente em reportagens e comunicações institucionais.
Técnicos envolvidos na elaboração de planos de manejo e estudos sobre a área, contudo, destacam que não existem evidências documentais suficientes para confirmar esse total.
Segundo esses levantamentos, é possível que parte dos naufrágios mais antigos não tenha sido registrada formalmente ou que documentos tenham se perdido ao longo dos séculos.
Também não se descarta que o número amplamente divulgado resulte de projeções ou repetições sem verificação independente.
Apesar disso, há consenso sobre a ocorrência de acidentes ao longo do tempo.
Estudos técnicos apontam pelo menos dez embarcações com registros históricos e possíveis vestígios identificáveis no fundo do parque.
Os naufrágios conhecidos estão datados entre o início do século XIX e a segunda metade do século XX.
O naufrágio do cargueiro Ana Cristina
Entre os casos mais conhecidos está o do navio cargueiro Ana Cristina, considerado o naufrágio mais recente atribuído ao Parcel de Manuel Luís.
A embarcação afundou em fevereiro de 1984, após colidir com o recife durante a travessia pela região.
De acordo com registros especializados sobre naufrágios no litoral brasileiro, o navio partiu de Areia Branca, no Rio Grande do Norte, com destino a Mungubá, no Pará.
A bordo estavam 21 tripulantes e dois passageiros.
Atualmente, os destroços do Ana Cristina são citados como um dos pontos de interesse para mergulhadores experientes.
A profundidade e as condições do mar exigem preparo técnico específico.
Especialistas em navegação apontam que acidentes desse tipo estavam associados, principalmente, à falta de informação detalhada sobre obstáculos submersos e às limitações tecnológicas da época.
Cartografia náutica e sinalização marítima
Relatos históricos indicam que o Parcel de Manuel Luís só passou a constar de forma mais sistemática em levantamentos náuticos no século XIX.
A versão mais difundida aponta que o mapeamento ocorreu por volta de 1820, conduzido por um hidrógrafo francês.
Os registros seguiam padrões cartográficos que nem sempre eram compreendidos por navegadores de outras nacionalidades.
Com o avanço da cartografia náutica, da padronização internacional de cartas e do uso de sistemas de navegação por satélite, colisões com o parcel deixaram de ser registradas com a frequência observada no passado.
Atualmente, a região conta com sinalização marítima, incluindo uma embarcação-farol, para alertar navegantes sobre a presença dos recifes.
Biodiversidade marinha e desafios de preservação
Além do interesse histórico, o Parque Estadual Marinho do Parcel de Manuel Luís é reconhecido pela biodiversidade marinha associada aos recifes.
Documentos do Ministério do Meio Ambiente destacam a presença de espécies de peixes e outros organismos típicos de ambientes recifais.
Essa característica confere importância ecológica à área.
Em fevereiro de 2000, o parque foi reconhecido como Sítio Ramsar, título concedido a áreas úmidas de importância internacional.
O reconhecimento reforça o valor ambiental da unidade de conservação.
Técnicos e pesquisadores, no entanto, apontam a necessidade de ampliar estudos científicos, inventários arqueológicos subaquáticos e ações de fiscalização.
Entre as preocupações estão pressões como pesca irregular e atividades não autorizadas.
