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O TCU adiou para 11 de novembro a votação que destrava as contas vinculadas das concessões e, com isso, tirou de 2026 o leilão da EF-118 entre Rio e Espírito Santo

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Escrito por Paulo Nogueira Publicado em 04/09/2026 às 21:24 Atualizado em 04/09/2026 às 21:50
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Três ministros do TCU pediram vista por 60 dias e empurraram para 11 de novembro a votação que define a natureza das contas vinculadas nas concessões, um adiamento que na prática tira do calendário de 2026 o leilão da EF-118, a ferrovia entre Rio de Janeiro e Espírito Santo.

A sessão aconteceu na quarta-feira e o resultado foi divulgado no dia 3 de setembro. Sem consenso no plenário, o processo saiu da pauta e voltou para análise.

Conforme a Agência iNFRA, o pedido de vista partiu de três ministros, entre eles o decano Walton Alencar. A nova data ficou para depois das eleições de outubro.

O que são as contas vinculadas e por que travam tudo

A discussão parece árida, mas o efeito é bem material. Contas vinculadas são recursos que uma concessionária deposita e reserva para uma finalidade específica dentro do contrato, normalmente obras de expansão pactuadas com o poder concedente.

O impasse está em como classificar esse dinheiro. Se a natureza dos recursos for considerada pública, ele entra no regramento fiscal do Estado, com todas as restrições de execução orçamentária que isso implica. Se for privada, segue a lógica contratual da concessionária.

Não é filigrana jurídica. O enquadramento define quem manda no cronograma, quem responde pelo atraso e como o investimento aparece nas contas públicas. Enquanto isso não estiver resolvido, nenhum novo contrato do mesmo desenho consegue avançar com segurança.

O TCU adiou para 11 de novembro a votação que destrava as contas vinculadas das concessões — imagem 1

Por isso o adiamento contaminou uma carteira inteira. De acordo com a reportagem, são nove ativos dependentes dessa definição, somando cerca de R$ 140 bilhões em investimentos previstos.

A EF-118 era a peça mais próxima de sair do papel

Entre os ativos travados está a EF-118, ferrovia projetada para ligar o Rio de Janeiro ao Espírito Santo. Ela é a que estava mais adiantada, e era a que o mercado esperava ver em leilão ainda neste ano.

Os aportes já mapeados para o projeto vêm de concessionárias que têm obrigações de investimento a cumprir. Segundo o levantamento, são R$ 2,8 bilhões da MRS, R$ 502,5 milhões da Rumo Malha Paulista e R$ 826,1 milhões da Vale.

Ou seja, o dinheiro existe e já tem dono. O que não existe, por enquanto, é a definição jurídica que permite mover esse dinheiro para dentro do novo contrato sem risco de questionamento posterior.

O TCU adiou para 11 de novembro a votação que destrava as contas vinculadas das concessões — imagem 2

A ligação ferroviária entre os dois estados é uma daquelas obras que aparecem em plano de governo há décadas. O corredor serve ao aço, ao minério e à carga geral do Sudeste, e hoje boa parte desse fluxo se resolve na rodovia, com o custo por tonelada que a rodovia cobra.

A diferença entre os dois modais não é pequena. Um comboio ferroviário move numa viagem o que exigiria uma frota inteira de caminhões, com consumo de combustível por tonelada transportada muito menor e sem ocupar a mesma faixa da BR que o carro de passeio usa.

O contraponto é o capital inicial. Ferrovia exige desapropriação, terraplenagem, obra de arte e via permanente antes de mover a primeira tonelada, enquanto a rodovia já existe e o caminhão é do transportador. É exatamente esse desequilíbrio que faz o modelo de concessão depender tanto de regra clara sobre de onde vem o dinheiro.

Daí a importância do que o tribunal vai decidir. As contas vinculadas foram desenhadas como a ponte entre obrigações já assumidas por concessionárias existentes e projetos novos que o país quer ver de pé, e é essa ponte que está suspensa desde quarta-feira.

Novembro depois de outubro não é detalhe de agenda

A nova data, 11 de novembro, cai depois do segundo turno das eleições. Isso muda o ambiente da decisão de um jeito que ninguém no setor ignora.

Mesmo que o tribunal resolva a questão em novembro, o caminho até um leilão continua longo: publicação de edital, prazo legal de divulgação, eventual impugnação e sessão pública. Portanto, dezembro seria apertado até no cenário mais otimista.

O TCU adiou para 11 de novembro a votação que destrava as contas vinculadas das concessões — imagem 3

A perspectiva que restou, conforme a apuração, é lançar o edital ainda este ano e realizar o certame depois. É um consolo processual: o documento sai, mas o dinheiro só começa a se mover quando houver contrato assinado.

Vejo aqui o padrão que se repete na infraestrutura brasileira com uma regularidade quase entediante. O projeto técnico está pronto, o investidor está identificado, o valor está reservado, e o que segura tudo é uma controvérsia sobre a natureza contábil de uma conta.

Sessenta dias de vista custam mais do que sessenta dias. Custam a janela do ano, custam a revisão de premissa que vai ser exigida quando o processo voltar e custam o tempo em que a carga continua rodando por onde roda hoje.

Não é a primeira vez que o modelo trava nesse ponto. A discussão sobre contas vinculadas se arrasta há meses justamente porque envolve dois campos que raramente conversam: o direito contratual das concessões e o regramento fiscal que rege o dinheiro público. Cada um enxerga o mesmo depósito de um jeito.

Do outro lado, é justo reconhecer que decidir errado sobre R$ 140 bilhões seria pior. Contrato de concessão dura décadas, e uma classificação mal resolvida agora vira litígio caro lá na frente. O pedido de vista tem razão de ser, ainda que o custo dele apareça na conta de quem esperava ver trilho no chão.

Enquanto isso, os efeitos práticos se acumulam em silêncio. Equipes técnicas montadas para tocar o processo continuam alocadas, estudos de demanda começam a envelhecer e cada mês parado aumenta a chance de o projeto precisar de revisão antes de ir a mercado. Nada disso aparece em manchete, mas entra no custo final.

O que fica marcado, então, é 11 de novembro. Até lá, os nove ativos seguem parados no mesmo ponto em que estavam esta semana.

Quantos anos você acha que ainda faltam para um trem de carga ligar o Rio ao Espírito Santo?

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Paulo Nogueira

Técnico em Elétrica desde 2008, formado pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), antigo CEFET, uma das mais tradicionais instituições de ensino técnico do Brasil. Atuou por diversos anos nas áreas de petróleo e gás offshore, energia e construção, experiência que hoje aplica na produção de conteúdo especializado sobre o setor energético. Com mais de 8 mil publicações em revistas e portais online, dedica-se à cobertura do mercado de trabalho, petróleo e gás, energia, economia, renováveis e empreendedorismo. Para dúvidas, sugestões ou correções, entre em contato pelo e-mail paulohsnogueira@gmail.com. Este canal não recebe currículos.

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