Restauradores do grupo Da Vinci Restauro acharam duas cartas de 1777 no interior oco de um Cristo crucificado do século 18, na igreja de São Águeda, na Espanha. Assinadas pelo capelão Joaquín Mínguez, descrevem colheitas, doenças, jogos e o reinado de Carlos III, e foram enviadas à Arquidiocese de Burgos
Historiadores espanhóis encontraram duas cartas manuscritas datadas de 1777 dentro de uma estátua de Jesus Cristo crucificado, durante a restauração da peça do século 18. Os documentos estavam escondidos no fundo oco da escultura, nas nádegas da imagem, e foram assinados por Joaquín Mínguez, capelão da catedral de Burgo de Osma.
As informações foram publicadas pela National Geographic Brasil em 5 de dezembro de 2017, em reportagem de Sarah Gibbens, com declarações da preservacionista Gemma Ramírez e do historiador Efren Arroyo, este último ao jornal espanhol El Mundo.
Estátua rachada e se soltando da cruz motivou a restauração

A estátua, que retrata Jesus Cristo durante a crucificação, estava pendurada na igreja de São Águeda, no norte da Espanha. A peça centenária começava a mostrar rachaduras e estava se soltando da cruz, segundo explicou Gemma Ramírez.
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Ramírez é preservacionista do grupo Da Vinci Restauro, de Madri, que trabalha para manter a obra em boas condições. O objetivo do serviço era conservar a escultura, não procurar nada dentro dela.
Algo dentro da peça foi notado ao erguê-la para a mesa de trabalho
Quando os restauradores elevaram a estátua para a mesa de trabalho, notaram que havia algo dentro dela, contou Ramírez.
A equipe então removeu uma seção da escultura esculpida na forma de um pano. Foi por essa abertura que os historiadores descobriram que a obra de arte era vazia por dentro e guardava um documento.
Cartas estavam no fundo oco da escultura, nas nádegas da imagem
Duas cartas escritas à mão, amareladas pela idade, estavam no fundo oco da estátua, na região das nádegas da figura de Cristo.
O local, descrito pela National Geographic como improvável, é o que dá ao achado o caráter inesperado. Segundo a reportagem, ninguém esperaria encontrar um documento ali.
Duas cartas de 1777 assinadas pelo capelão da catedral de Burgo de Osma

As cartas são datadas de 1777 e assinadas por Joaquín Mínguez, capelão da catedral de Burgo de Osma.
Os textos detalham a vida na Espanha no final do século 18, com um retrato da atividade econômica e cultural cotidiana da região onde a estátua foi instalada.
Escultor Manuel Bal fez a estátua e outras imagens de madeira na região
Mínguez registra primeiro que a estátua foi criada por um homem chamado Manuel Bal. O escultor, segundo a carta, produziu outras estátuas de madeira para igrejas da região.
A anotação identifica o autor da peça 240 anos depois de ela ter sido esculpida, informação que a própria restauração não teria como recuperar sem o documento.
Trigo, centeio, aveia, cevada e armazéns de vinho: a economia da aldeia em 1777
O capelão descreve colheitas bem-sucedidas de vários grãos, entre eles trigo, centeio, aveia e cevada, e menciona armazéns de vinho.
O relato funciona como um inventário da produção agrícola local no ano em que foi escrito, conforme a National Geographic Brasil.
Malária e febre tifoide ao lado de jogos de cartas e bolas
Mínguez também nomeia doenças que assolaram a aldeia naquele período, como malária e febre tifoide.
No mesmo texto, ele acrescenta que jogos de cartas e bolas eram usados como entretenimento. O documento junta, assim, o registro das epidemias e o das diversões da comunidade.
Carlos III no trono, corte em Madri e uma menção à Inquisição
Além da vida da aldeia, o capelão detalha o clima político da Espanha. Ele escreve que o rei Carlos III está no trono e que o tribunal espanhol está em Madri.
A carta ainda contém uma menção à Inquisição espanhola, que, segundo a reportagem, durou de 1478 a 1834 e é descrita como mortal.
Historiador Efren Arroyo: carta “provavelmente” foi pensada como cápsula do tempo
A natureza geral e abrangente da carta de Mínguez indica que ele provavelmente pretendia que ela servisse como uma cápsula do tempo para as gerações futuras, disse o historiador Efren Arroyo ao jornal espanhol El Mundo.
A avaliação é uma interpretação do historiador, não uma declaração do próprio capelão. O documento não traz, segundo a reportagem, uma explicação direta sobre o motivo de ter sido escondido.
Estátua oca já é incomum; artefato dentro dela é mais raro ainda
Arroyo acrescentou que é incomum que estátuas de igreja desse tipo sejam ocas, e que é ainda mais incomum encontrar artefatos escondidos dentro delas.
A combinação das duas raridades é o que torna o caso excepcional: uma peça vazia por dentro e, dentro dela, um documento de 1777 preservado.
Uma das descobertas mais surpreendentes do Da Vinci Restauro
O achado é uma das descobertas mais surpreendentes já feitas pelo grupo de restauração, conforme a National Geographic Brasil.
O Da Vinci Restauro, com sede em Madri, já trabalhou na restauração de pinturas antigas, estátuas e móveis antigos. A estátua de Cristo entrou nesse histórico por um motivo que não estava no plano de trabalho.
Originais foram à Arquidiocese de Burgos, e uma cópia voltou ao esconderijo
Quando a reportagem foi publicada, em 5 de dezembro de 2017, as cartas recuperadas já tinham sido enviadas à Arquidiocese de Burgos, onde seriam arquivadas.
Uma cópia dos documentos foi feita e colocada de volta nas nádegas da estátua, para preservar a intenção de Mínguez. A escultura, portanto, voltou a guardar uma mensagem no mesmo lugar onde a original ficou por 240 anos.
Na sua opinião, a decisão de devolver uma cópia das cartas ao interior da estátua foi a forma certa de respeitar a intenção do capelão Joaquín Mínguez, ou os originais deveriam ter permanecido no esconderijo? Deixe sua opinião nos comentários.
