A diretoria da ANTT aprovou os editais da Rota 2 de Julho e da Rota Agro Central, dois contratos de concessão que somam mais de 1.500 quilômetros de rodovias federais na Bahia, no Mato Grosso e em Rondônia, com leilões marcados para os dias 17 e 18 de dezembro.
A decisão saiu na quinta-feira, 3 de setembro. Com ela, o governo destrava dois dos maiores pacotes rodoviários que pretende levar a mercado ainda neste ano.
Conforme a Agência iNFRA, os dois documentos passaram pela diretoria colegiada da agência com as datas de certame já definidas. Ou seja, encerra-se ali a fase mais longa de qualquer projeto desse tipo, aquela em que o desenho técnico e o modelo econômico ficam meses em revisão.
Somados, os contratos preveem R$ 20,7 bilhões em investimentos ao longo da concessão, o chamado capex. Além disso, aparecem R$ 11 bilhões em custos de operação e manutenção, o opex.
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Esse dinheiro não sai do orçamento federal. De acordo com o modelo, ele entra pela tarifa de pedágio que o vencedor vai cobrar durante todo o contrato. Por isso o desenho de cada lote importa tanto para quem roda naquelas estradas todo dia.
A Rota 2 de Julho leva o maior cheque
O lote baiano é o mais caro dos dois. A Rota 2 de Julho reúne trechos das BRs 324 e 116 em pouco mais de 650 quilômetros. Para eles estão previstos R$ 14,8 bilhões de capex e R$ 6,5 bilhões de opex. O leilão ficou para 18 de dezembro.
Quem conhece a região entende o tamanho da conta. A BR-324 é a ligação entre Salvador e Feira de Santana, o corredor que despeja carga no porto e absorve o fluxo metropolitano todos os dias.
Já a BR-116, na altura da Bahia, é a espinha que costura o estado no sentido norte-sul. Durante o ano inteiro ela recebe o tráfego pesado de longa distância que atravessa o Nordeste. São duas vias sem folga: qualquer obra ali precisa ser feita com trânsito rolando ao lado.

Concentrar R$ 14,8 bilhões em 650 quilômetros resulta numa média alta por quilômetro. Em geral, esse patamar indica duplicação, contornos urbanos, terceiras faixas e obras de arte especiais, e não apenas recapeamento.
O edital é que vai dizer a proporção exata de cada item. No entanto, a ordem de grandeza já separa esse lote da maioria das concessões federais em operação hoje.
A Rota Agro Central é maior em quilômetro e menor em orçamento
O segundo lote inverte a lógica. A Rota Agro Central reúne trechos das BRs 070, 174 e 364 em Mato Grosso e Rondônia, com quase 900 quilômetros. Nesse caso, são R$ 5,9 bilhões de capex e R$ 4,5 bilhões de opex, com leilão em 17 de dezembro.
Mais estrada e menos dinheiro por quilômetro faz sentido no Centro-Oeste. Segundo a lógica de projeto, são vias em terreno mais aberto, com menos ocupação urbana grudada na pista e menos obra de arte por trecho.
Em compensação, elas carregam algo que a Bahia não carrega na mesma proporção: a safra. A BR-364 é o eixo por onde a produção de grãos de Mato Grosso e Rondônia se move em direção aos portos. Dessa forma, o custo logístico da rota entra direto na conta do produtor.

É difícil não ver aí a razão de os dois certames terem caído na mesma semana. Dezembro fecha o calendário do ano e coloca dois ativos de perfil bem diferente diante dos mesmos grupos investidores, na mesma janela.
Quem busca volume de tráfego olha para a Bahia. Por outro lado, quem quer contrato longo com carga previsível olha para o corredor do agronegócio.
O que ainda separa o edital do canteiro de obras
Aprovar edital não é assinar contrato. Entre a decisão da ANTT e a primeira máquina na pista existe uma sequência que costuma consumir meses: publicação do documento, prazo de impugnações, sessão pública, homologação do resultado e assinatura.
Depois disso ainda vem o cronograma contratual. Normalmente, ele reserva os primeiros anos para trabalhos iniciais, antes das obras de ampliação de capacidade aparecerem na pista.

Vale lembrar, contudo, que leilão aprovado não é leilão realizado. O setor de infraestrutura brasileiro tem uma coleção de certames adiados por questionamento em tribunal de contas, por revisão de premissa de tráfego ou por falta de interessado no dia.
Dezembro cai logo depois das eleições de outubro. É uma janela em que o mercado costuma pedir mais clareza sobre o que vem em seguida.
Há ainda a variável do apetite dos grupos. Concessões rodoviárias no Brasil disputam capital com transmissão de energia, saneamento e portos, setores que também têm leilões engatilhados para os próximos meses. Assim, o resultado de dezembro depende menos do asfalto e mais de como o custo do dinheiro estiver naquele momento.
Ainda assim, o passo desta semana é concreto e tem data. São dois lotes, 1.550 quilômetros e R$ 31,7 bilhões somando obra e operação, num calendário que não depende mais de estudo técnico para andar.
Para quem sai de Salvador pela BR-324 ou puxa carga na BR-364 em Mato Grosso, portanto, a pergunta mudou. Deixou de ser se a concessão vai existir e passou a ser quem vai ganhar e o que exatamente vai construir.
Confesso que o número mais revelador não é o investimento total. É a diferença de densidade entre os lotes: cerca de R$ 22,7 milhões por quilômetro na Bahia contra R$ 6,6 milhões por quilômetro no Centro-Oeste. Essa distância explica melhor que qualquer release o tipo de problema que cada contrato foi desenhado para resolver, e quem roda nesses trechos vai sentir a diferença antes de qualquer planilha.
Você paga pedágio em alguma dessas rodovias hoje? O que precisaria mudar primeiro no trecho que você roda?
