O rover Curiosity da NASA identificou em Marte uma mistura diversa de moléculas orgânicas preservadas há bilhões de anos, incluindo um composto nitrogenado com estrutura semelhante à de precursores do DNA, nunca antes encontrado no planeta vermelho, em um experimento químico inédito publicado nesta terça-feira (21) na revista Nature Communications.
O rover Curiosity acaba de entregar o que pode ser um dos resultados mais relevantes de seus 13 anos de operação em Marte. Em um experimento químico realizado pela primeira vez em outro planeta, o robô da NASA encontrou moléculas orgânicas preservadas há aproximadamente 3,5 bilhões de anos na cratera Gale, uma antiga bacia rica em argilas. Entre os compostos identificados está uma molécula contendo nitrogênio cuja estrutura se assemelha à de substâncias que teriam dado origem ao DNA na Terra primitiva, algo que nunca havia sido detectado na superfície marciana.
A descoberta não prova que houve vida em Marte, mas demonstra que o planeta é capaz de preservar exatamente o tipo de molécula que poderia servir como evidência de vida antiga. Para a astrobiologia, isso muda o patamar da discussão: o problema não é mais saber se Marte pode guardar pistas biológicas, mas sim desenvolver os instrumentos certos para interpretá-las. Amy Williams, professora de ciências geológicas da Universidade da Flórida e líder do estudo, classificou o achado como evidência de que matéria orgânica antiga está de fato preservada no planeta vermelho.
O que o Curiosity encontrou e por que essas moléculas orgânicas importam

O experimento foi conduzido em 2020 na região de Glen Torridon, dentro da cratera Gale, um local escolhido por sua riqueza em argilas, minerais conhecidos por reter e proteger compostos orgânicos melhor do que outros materiais geológicos. O rover utilizou uma substância chamada TMAH para fragmentar moléculas orgânicas maiores, permitindo que seus instrumentos as analisassem com precisão. O Curiosity carregava apenas dois recipientes desse reagente químico, o que exigiu planejamento rigoroso para selecionar o ponto de coleta mais promissor.
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Dois compostos se destacaram entre os resultados. O primeiro é uma molécula nitrogenada com estrutura parecida com a de substâncias precursoras do DNA, um achado sem precedentes em Marte. O segundo é um composto químico que normalmente chega aos planetas carregado por meteoritos, o mesmo tipo de material que, acredita-se, ajudou a criar as condições para o surgimento da vida na Terra. A presença simultânea dessas moléculas orgânicas reforça uma conexão entre os dois planetas que vai além da mera semelhança geológica.
Por que as argilas da cratera Gale funcionaram como cápsula do tempo
O fato de essas moléculas terem sobrevivido 3,5 bilhões de anos em Marte é, por si só, surpreendente. O planeta é bombardeado por radiação cósmica intensa, possui uma atmosfera muito mais fina que a da Terra e passa por variações extremas de temperatura. Em condições normais, moléculas orgânicas seriam destruídas em um ambiente tão hostil em questão de milhões de anos, não bilhões.
A explicação está nas argilas da cratera Gale, que funcionaram como uma espécie de escudo protetor. Esses minerais envolveram os compostos e os isolaram parcialmente da radiação e da degradação química, mantendo-os intactos ao longo de eras geológicas inteiras. Essa capacidade de preservação abre uma perspectiva importante: se moléculas orgânicas tão delicadas conseguiram sobreviver por tanto tempo, outras substâncias potencialmente mais reveladoras sobre a história de Marte também podem estar preservadas em algum lugar da superfície ou da subsuperfície marciana.
O que a descoberta não consegue responder sobre vida em Marte
Apesar da relevância do achado, o experimento tem um limite fundamental. Ele não consegue distinguir se os compostos encontrados vieram de uma possível vida passada em Marte, de processos geológicos naturais ou de meteoritos que colidiram com o planeta ao longo de sua história. As três origens são cientificamente plausíveis, e nenhuma pode ser descartada com os dados disponíveis até agora.
Essa ambiguidade não diminui a importância da descoberta, mas delimita o que ela pode afirmar com segurança. O rover Curiosity confirmou que Marte preserva moléculas orgânicas complexas, mas para determinar se alguma delas tem origem biológica seria necessário trazer amostras de rocha marciana de volta à Terra. Laboratórios terrestres dispõem de instrumentos muito mais sofisticados do que qualquer equipamento que caiba dentro de um rover, e somente eles poderiam realizar as análises isotópicas e estruturais capazes de diferenciar química orgânica de origem biológica daquela produzida por processos abióticos.
A conexão entre Marte e a Terra que o estudo reforça
A presença de compostos trazidos por meteoritos tanto em Marte quanto na Terra adiciona uma camada fascinante à discussão. O mesmo material que atingiu o planeta vermelho e foi encontrado pelo Curiosity também chegou ao nosso planeta há bilhões de anos, e pesquisadores acreditam que esse bombardeio meteorítico forneceu parte dos blocos de construção para a vida como a conhecemos. Em outras palavras, Marte e a Terra compartilharam as mesmas matérias-primas químicas em seus primeiros bilhões de anos.
A diferença é que a Terra desenvolveu condições favoráveis para que essa química evoluísse para biologia, enquanto Marte perdeu sua atmosfera densa e sua água líquida superficial, tornando-se o deserto gelado que conhecemos hoje. A questão que permanece é se, durante a janela em que Marte reunia condições habitáveis, algo parecido com vida chegou a surgir antes que o planeta se tornasse hostil. O achado do Curiosity não responde essa pergunta, mas mostra que as ferramentas para encontrá-la podem estar ao alcance das próximas missões.
O que vem pela frente na busca por evidências de vida em Marte
O estudo publicado na Nature Communications encerra com uma mensagem clara da equipe liderada por Williams: agora há confirmação de que moléculas orgânicas grandes e complexas estão preservadas na superfície de Marte, e isso é promissor para a busca por sinais de vida. O próximo passo lógico é a missão de retorno de amostras, planejada conjuntamente pela NASA e pela Agência Espacial Europeia para as próximas décadas, que traria rochas marcianas aos laboratórios terrestres para análise definitiva.
Enquanto isso, o Curiosity continua operando na cratera Gale, e o rover Perseverance, que pousou em Marte em 2021, está coletando e armazenando amostras em tubos selados na cratera Jezero para futura recuperação. A convergência entre o que o Curiosity descobriu e o que o Perseverance está guardando pode, em algum momento da próxima década, oferecer a resposta que a humanidade busca desde que olhou para o planeta vermelho pela primeira vez: houve vida em Marte, ou estivemos sempre sozinhos neste canto do sistema solar?
Você acredita que as moléculas orgânicas encontradas em Marte podem ser evidência de vida antiga, ou acha mais provável que tenham origem em meteoritos e processos geológicos? Deixe sua opinião nos comentários, queremos saber o que você pensa sobre a possibilidade de vida fora da Terra.

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