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O naufrágio mais famoso do mundo, o mesmo que guardava o computador astronômico mais antigo da história, foi escavado novamente e arqueólogos encontraram partes do casco do navio ainda encaixadas, confirmando que os gregos construíam embarcações de fora para dentro dois mil anos antes das evidências arqueológicas conhecidas

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 11/03/2026 às 15:38
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Divulgação/Escola Suíça de Arqueologia na Grécia (ESAG)
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Naufrágio de Antikythera, descoberto em 1900, revelou o Mecanismo de Anticítera e dezenas de estátuas; em 2025, arqueólogos recuperaram pela primeira vez um fragmento do casco do navio grego antigo.

Em mais de 125 anos de escavações arqueológicas intermitentes, o naufrágio de Anticítera já revelou alguns dos artefatos mais extraordinários da arqueologia marítima. Do fundo do Mar Egeu surgiram estátuas de bronze e mármore, joias, instrumentos de navegação, restos humanos e o famoso Mecanismo de Anticítera, considerado por muitos pesquisadores o primeiro computador analógico da história. Em 2025, no entanto, uma descoberta inédita mudou novamente a compreensão do naufrágio. Pela primeira vez desde a descoberta do sítio arqueológico, arqueólogos conseguiram recuperar um fragmento articulado do próprio casco do navio, permitindo estudar diretamente como os gregos antigos construíam embarcações mercantes no Mediterrâneo.

Essa descoberta oferece novas pistas sobre tecnologia naval na Grécia Antiga, rotas comerciais no Mar Egeu e a própria história do navio que transportava uma das cargas mais valiosas já encontradas em um naufrágio antigo.

Naufrágio de Anticítera/Antikythera foi descoberto por pescadores de esponja fugindo de uma tempestade em 1900

A história do naufrágio começou na primavera de 1900, quando Dimitrios Kondos, capitão de um barco de pescadores de esponja da ilha grega de Symi, navegava pelo Mar Egeu em direção ao norte da África. Uma tempestade obrigou a embarcação a se abrigar próximo à pequena ilha de Anticítera, localizada entre Creta e o Peloponeso. Enquanto esperavam o mar acalmar, um dos mergulhadores desceu ao fundo a cerca de 45 metros de profundidade para procurar esponjas. O que ele encontrou parecia algo impossível.

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Espalhados no fundo do mar estavam braços, pernas e torsos de estátuas de mármore e bronze. O mergulhador descreveu a cena como “um amontoado de pessoas mortas e nuas”. Ele voltou à superfície carregando um braço de bronze, que rapidamente chamou atenção das autoridades gregas.

Esse achado marcou o início do que viria a se tornar um dos sítios arqueológicos subaquáticos mais importantes do mundo.

Primeiras escavações revelaram estátuas, joias e artefatos da Grécia Antiga

Ainda em 1900, a Marinha Real Grega enviou embarcações para investigar o local. As primeiras operações de resgate ocorreram entre 1900 e 1902, conduzidas pelos próprios pescadores de esponja utilizando equipamentos de mergulho extremamente primitivos.

Os mergulhadores usavam capacetes de metal e roupas de lona pressurizadas, que permitiam permanecer no fundo do mar por apenas alguns minutos antes de subir novamente à superfície.

Mesmo com essas limitações, o material recuperado foi extraordinário. Entre os artefatos encontrados estavam:

  • estátuas de bronze e mármore
  • joias de ouro e prata
  • ânforas usadas para transporte de vinho
  • moedas antigas
  • instrumentos de navegação
  • recipientes de vidro finamente trabalhados

Um dos objetos mais impressionantes foi o Efebo de Anticítera, uma escultura de bronze com mais de 1,90 metro de altura datada do século IV a.C. Mas o achado mais misterioso ainda estava por vir.

O Mecanismo de Anticítera: o primeiro computador da história

Entre os fragmentos retirados do fundo do mar havia uma massa de bronze corroído que inicialmente não chamou atenção. Em 1902, o político e arqueólogo grego Spyridon Stais percebeu que um dos pedaços continha engrenagens metálicas.

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Tratava-se do Mecanismo de Anticítera, considerado o dispositivo mecânico mais sofisticado da Antiguidade. O mecanismo é formado por um sistema complexo de engrenagens interligadas capaz de calcular:

  • posições do Sol e da Lua
  • ciclos lunares
  • posições de cinco planetas conhecidos na Antiguidade
  • previsões de eclipses solares e lunares
  • o ciclo de quatro anos dos Jogos Olímpicos

Construído por volta do século II a.C., o dispositivo é tão avançado que nada comparável voltou a aparecer no mundo ocidental por mais de 1.400 anos, até o surgimento dos relógios astronômicos europeus na Idade Média. Para muitos historiadores da tecnologia, o mecanismo representa o primeiro computador analógico conhecido da história humana.

O navio de Anticítera provavelmente levava arte grega saqueada para Roma

Estudos indicam que o navio afundou por volta de 60 a.C., possivelmente durante uma viagem para Roma. Na época, o Império Romano dominava grande parte do Mediterrâneo e era comum transportar obras de arte gregas confiscadas ou adquiridas como pagamento de dívidas de guerra.

Muitos historiadores acreditam que o navio carregava esculturas destinadas a decorar vilas, templos ou edifícios públicos romanos. Caso tivesse chegado ao destino, é provável que:

  • as estátuas fossem exibidas em teatros ou pórticos romanos
  • o mecanismo fosse desmontado como metal reciclável

O naufrágio acabou preservando essa carga extraordinária por mais de dois mil anos.

Expedições modernas ao naufrágio de Anticítera começaram em 1976 com Jacques Cousteau

Após as primeiras escavações do início do século XX, o sítio ficou décadas sem grandes investigações até que Jacques-Yves Cousteau mergulhou na área em 1976 com o navio Calypso. A expedição encontrou novas estátuas e diversos artefatos menores.

A partir de 2012, campanhas arqueológicas modernas passaram a usar tecnologias muito mais avançadas, incluindo:

  • sistemas de mergulho rebreather fechado, que permitem mergulhos mais longos
  • veículos subaquáticos robóticos
  • mapeamento tridimensional do fundo marinho

Em 2016, arqueólogos encontraram um esqueleto humano bem preservado, abrindo a possibilidade de análise genética para identificar a origem dos tripulantes.

Campanhas arqueológicas recentes revelaram novos segredos do naufrágio

Entre 2021 e 2025, o projeto “Return to Antikythera” foi conduzido pela Escola Suíça de Arqueologia na Grécia em parceria com a Universidade de Genebra e o Ministério da Cultura grego. Durante essas campanhas, os arqueólogos removeram grandes rochas que cobriam partes do sítio arqueológico.

Em 2022, três blocos de pedra com cerca de 8,5 toneladas cada foram deslocados, revelando novos artefatos e restos humanos adicionais. Dentes encontrados no local podem permitir análises de DNA capazes de revelar a origem geográfica da tripulação.

Em 2025 arqueólogos recuperaram pela primeira vez parte do casco do navio

Entre 23 de maio e 20 de junho de 2025, uma equipe liderada pelo professor Lorenz Baumer, da Universidade de Genebra, e pela arqueóloga Angeliki Simosi realizou a temporada final do projeto. A grande descoberta foi um fragmento do casco do navio.

documentação de partes do casco descoberto / Crédito: Divulgação/Escola Suíça de Arqueologia na Grécia (ESAG)

O conjunto inclui:

  • três pranchas externas do casco
  • um fragmento de costela estrutural interna

As peças ainda estavam encaixadas entre si, algo raríssimo em naufrágios tão antigos. O fragmento mede aproximadamente:

  • 0,40 metro de largura
  • 0,70 metro de comprimento

A madeira utilizada inclui olmo e carvalho, espécies comuns na construção naval mediterrânea. Datações preliminares indicam cerca de 235 a.C., sugerindo que o navio poderia ter sido construído mais de um século antes de afundar, passando por reparos ao longo de sua vida útil.

Técnica naval “shell-first” revela como os gregos construíam navios

A descoberta confirmou que o navio foi construído com a técnica conhecida como shell-first. Nesse método, os construtores montavam primeiro a estrutura externa do casco, encaixando as pranchas de madeira. Somente depois eram instaladas as:

  • costelas internas
  • reforços estruturais
  • elementos de sustentação

Esse método era típico da construção naval mediterrânea entre os séculos IV e I a.C.. Até agora, porém, os arqueólogos não tinham evidência direta de que o navio de Anticítera havia sido construído dessa forma.

A recuperação do fragmento permitiu confirmar esse detalhe estrutural pela primeira vez.

Outros achados de 2025 revelam detalhes da vida a bordo

Além do casco, a campanha arqueológica encontrou novos artefatos importantes. Entre eles estavam:

  • ânforas da ilha de Quios, usadas para transportar vinho
  • um almofariz de terracota, possivelmente usado para preparar alimentos
  • fragmentos de uma estátua masculina de mármore

A base da estátua, com parte da perna esquerda, foi recuperada após a remoção de uma grande rocha. O restante da escultura ainda permanece preso em concreções no fundo do mar.

Também foram encontrados fragmentos adicionais de madeira associados a chumbo, cobre e alcatrão, materiais usados na calafetagem de navios antigos, técnica destinada a tornar o casco impermeável.

Naufrágio de Anticítera pode envolver dois navios diferentes

As pesquisas recentes também revelaram um detalhe intrigante. Em 2024, arqueólogos confirmaram a presença de um segundo navio a cerca de 200 metros do naufrágio principal. Isso levanta novas hipóteses:

  • os dois navios podem ter viajado juntos
  • ambos podem ter afundado na mesma tempestade
  • ou o segundo pode representar outro acidente marítimo ocorrido na região
Pesquisador durante recuperação de objetos no naufrágio / Crédito: Divulgação/Escola Suíça de Arqueologia na Grécia (ESAG)

Se confirmado, o sítio arqueológico de Anticítera poderá revelar uma história ainda mais complexa de comércio marítimo no Mediterrâneo antigo.

Naufrágio de Anticítera continua sendo um dos sítios arqueológicos mais importantes do mundo

Mais de um século após sua descoberta, o naufrágio de Anticítera continua produzindo descobertas capazes de transformar o conhecimento sobre o mundo antigo. Do fundo do mar já emergiram:

  • centenas de artefatos
  • dezenas de esculturas
  • restos humanos
  • o primeiro computador analógico da história
  • e agora parte do próprio navio

Mesmo após 125 anos de escavações, arqueólogos acreditam que grande parte do sítio ainda permanece inexplorada. O local que começou a ser descoberto por pescadores de esponja fugindo de uma tempestade continua revelando pistas fundamentais sobre tecnologia, comércio e engenharia da civilização grega antiga.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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