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No meio do deserto, a Arábia Saudita quer fazer nevar, construir em uma montanha de 2.600 metros uma estação de esqui bilionária e provar ao mundo que até a areia pode virar destino de inverno de luxo

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Escrito por Ana Alice Publicado em 28/03/2026 às 00:26 Atualizado em 07/04/2026 às 09:42
Assista o vídeoProjeto Trojena, na Arábia Saudita, aposta em neve no deserto, turismo de luxo e tecnologia sob debate ambiental e econômico. (Imagem: Ilustrativa)
Projeto Trojena, na Arábia Saudita, aposta em neve no deserto, turismo de luxo e tecnologia sob debate ambiental e econômico. (Imagem: Ilustrativa)
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Empreendimento saudita combina turismo de inverno, megaprojetos e tecnologia em uma área montanhosa do noroeste do país, enquanto mudanças no cronograma, no plano esportivo e na execução mantêm Trojena sob atenção internacional.

A proposta de criar uma experiência de inverno em uma área montanhosa do noroeste da Arábia Saudita colocou Trojena, um dos empreendimentos da megacidade NEOM, no centro do debate sobre turismo, engenharia e impacto ambiental.

Anunciado em março de 2022, o projeto foi apresentado como um destino de montanha com temperaturas mais baixas do que as registradas em outras partes do país, estrutura para esportes de inverno e operação ao longo de todo o ano.

Desde o lançamento, a iniciativa passou a ser acompanhada não só pelo caráter inusitado de prever atividades ligadas à neve em território saudita, mas também por causa de mudanças no cronograma, revisão de escopo e alterações no calendário esportivo que havia reforçado a projeção internacional do empreendimento.

Inserido na estratégia de diversificação econômica da Arábia Saudita, Trojena foi lançado como parte da Vision 2030, programa com o qual o reino tenta reduzir a dependência do petróleo e ampliar receitas em áreas como turismo, entretenimento e esportes.

No material institucional da NEOM, a proposta aparece como um destino de luxo em uma faixa montanhosa que chega a 2.600 metros de altitude, com clima descrito como mais ameno durante o ano e temperaturas abaixo de zero no inverno.

A empresa afirma ainda que o local terá a primeira experiência de esqui ao ar livre da região do Golfo.

Embora essa seja a apresentação oficial do projeto, a execução prática da proposta depende de fatores como infraestrutura, abastecimento e capacidade de operação em larga escala em uma área de clima predominantemente árido.

O que é Trojena dentro do plano saudita

Mais do que a imagem de uma estação de esqui em meio ao deserto, Trojena foi desenhada como um complexo turístico mais amplo, com hotéis, residências, áreas de lazer, esportes de aventura e infraestrutura voltada para visitantes de alto padrão.

O empreendimento foi anunciado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman em 3 de março de 2022, quando o governo saudita apresentou o projeto como um novo polo de turismo de montanha dentro da NEOM.

No inverno, a região fica coberta de neve, mas, no restante do ano, ela deve ser artificial — Foto: Neom / Divulgação
No inverno, a região fica coberta de neve, mas, no restante do ano, ela deve ser artificial — Foto: Neom / Divulgação

Nesse contexto, o projeto passou a cumprir duas funções centrais dentro da estratégia saudita.

A primeira é econômica, ao integrar a tentativa de ampliar o peso do turismo na economia nacional.

A segunda é institucional, ao reforçar a narrativa de transformação do país em um centro de tecnologia, grandes obras e eventos internacionais.

Esse segundo eixo ganhou força em 2022, quando Trojena foi escolhida para receber os Jogos Asiáticos de Inverno de 2029.

A previsão, porém, não se manteve.

Em janeiro de 2026, o Conselho Olímpico da Ásia e o Comitê Olímpico e Paralímpico Saudita anunciaram o adiamento daquela edição para uma data ainda não definida.

Pouco depois, em fevereiro de 2026, Almaty, no Cazaquistão, assinou o contrato para sediar oficialmente os Jogos Asiáticos de Inverno de 2029.

Com isso, um dos elementos mais citados na apresentação internacional de Trojena deixou de valer.

O projeto segue ligado ao esforço saudita de reposicionamento econômico, mas já não pode ser tratado, de forma atualizada, como sede confirmada do evento continental de inverno.

Como o projeto tenta viabilizar neve em uma região árida

A proposta se apoia menos na imagem de um deserto plano e de temperaturas extremas e mais nas características específicas do terreno escolhido.

Trojena fica em uma área elevada da região de Tabuk, onde a NEOM afirma haver clima significativamente mais frio do que nas áreas vizinhas e possibilidade de temperaturas negativas no inverno.

Segundo a empresa, essas condições naturais abririam espaço para atividades de inverno e para a operação de instalações externas ligadas ao esqui.

Ainda assim, a estrutura prevista para o empreendimento depende de apoio tecnológico e de obras de grande porte.

Relatos da imprensa internacional e documentos públicos sobre o projeto apontam para o uso de sistemas de resfriamento, produção de neve e infraestrutura hídrica, incluindo planos ligados a um lago artificial e a obras de abastecimento.

Por essa razão, a viabilidade do empreendimento passou a ser analisada também sob a ótica do consumo de recursos e da manutenção da operação ao longo do tempo.

A altitude, nesse cenário, é apresentada como um fator que reduz parte das limitações climáticas.

Ainda assim, ela não elimina a necessidade de soluções artificiais para sustentar uma experiência de inverno em um país de clima árido.

Na prática, a proposta combina relevo, engenharia pesada e financiamento bilionário.

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Obra da NEOM passou a conviver com atrasos e revisão de escopo

Nos primeiros anos, Trojena foi tratada como uma das frentes prioritárias da NEOM.

Em novembro de 2024, a Reuters informou que, diante da alta dos custos do megaprojeto, uma das prioridades preservadas era justamente a conclusão de Trojena, então ainda vinculada ao plano de receber os Jogos Asiáticos de Inverno.

Mais recentemente, porém, a cobertura internacional passou a registrar sinais de pressão financeira, dificuldades de execução e reavaliação de prazos.

Em março de 2026, reportagem publicada pelo The Wall Street Journal informou que a Arábia Saudita havia cancelado contratos importantes ligados a Trojena, em um movimento que afetaria partes relevantes da obra.

De acordo com a publicação, as interrupções atingiram frentes associadas à infraestrutura hídrica e a fornecimentos considerados centrais para o complexo.

Embora a NEOM continue apresentando Trojena como destino estratégico em seus canais institucionais, reportagens recentes passaram a destacar a diferença entre o cronograma inicial e o estágio efetivo de implementação.

Esse descompasso ajuda a explicar por que o projeto continua atraindo atenção fora da Arábia Saudita.

Além do caráter incomum da proposta, o empreendimento passou a ser observado como teste da capacidade do país de tirar do papel obras de grande escala anunciadas nos últimos anos.

Água, energia e impacto ambiental no centro da discussão

As principais críticas ao projeto se concentram no uso de água e energia em uma região onde esses recursos exigem planejamento intensivo.

A construção de estruturas para neve, refrigeração, hotelaria e lazer em larga escala amplia a pressão sobre os sistemas de abastecimento e sobre o consumo energético, especialmente em um empreendimento que depende de soluções artificiais para manter parte da experiência proposta.

Reportagens recentes sobre Trojena também mencionam obstáculos logísticos relacionados ao fornecimento de água e à infraestrutura necessária para sustentar o complexo.

Segundo especialistas ouvidos por veículos internacionais, esse tipo de projeto exige não apenas investimento inicial elevado, mas também uma operação contínua com alto custo técnico e ambiental.

Do lado oficial, a NEOM sustenta que o projeto será guiado por princípios de sustentabilidade e que a região de Trojena reúne características naturais favoráveis, como altitude elevada e temperaturas mais baixas do que as registradas em áreas vizinhas.

Imagem: Reprodução/VIsion2030.gov)
Imagem: Reprodução/VIsion2030.gov)

Essa posição, no entanto, não encerra o debate.

Para especialistas que acompanham megaprojetos em regiões áridas, a discussão envolve tanto a fase de construção quanto a capacidade de manter o empreendimento em funcionamento sem pressionar excessivamente recursos naturais já limitados.

Nesse ponto, Trojena passou a concentrar discussões mais amplas sobre turismo de luxo, uso intensivo de tecnologia e os limites ambientais de grandes intervenções territoriais.

Ao mesmo tempo, o projeto segue como uma das iniciativas mais visíveis da estratégia saudita de transformar empreendimentos de alto impacto em instrumentos de reposicionamento econômico e de projeção internacional.

O que ainda está em análise é se a execução conseguirá acompanhar a escala anunciada desde o lançamento, sobretudo diante das revisões recentes de prazo, custo e estrutura.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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