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O Japão construiu cidades e aeroportos inteiros sobre o mar, empilhou milhões de metros cúbicos de aterro e agora enfrenta subsidência do solo, risco sísmico e o desafio de manter áreas urbanas abaixo do nível do oceano

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 09/02/2026 às 21:41
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O Japão construiu cidades e aeroportos inteiros sobre o mar, empilhou milhões de metros cúbicos de aterro e agora enfrenta subsidência do solo, risco sísmico e o desafio de manter áreas urbanas abaixo do nível do oceano
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Japão criou cidades e aeroportos sobre o mar com aterros colossais, mas hoje lida com subsidência, terremotos e custos extremos para manter áreas abaixo do nível do oceano.

No Japão, especificamente na Baía de Tóquio e na Baía de Osaka, projetos de urbanização sobre o mar foram executados ao longo do século XX e início do século XXI, com apoio direto do Ministério da Terra, Infraestrutura, Transporte e Turismo do Japão (MLIT), da JICA (Japan International Cooperation Agency) e de autoridades metropolitanas. Entre os casos mais emblemáticos estão a ilha artificial de Odaiba, iniciada nos anos 1990, e o Aeroporto Internacional de Kansai, inaugurado em 1994 sobre uma ilha construída integralmente no mar.

Essas obras, documentadas por órgãos oficiais japoneses, relatórios da MLIT, estudos do Instituto Nacional de Pesquisa em Ciências da Terra e Resiliência a Desastres (NIED) e pesquisas da empresa estatal Deltares em cooperação com universidades japonesas, transformaram o Japão em referência mundial em engenharia costeira. Ao mesmo tempo, criaram um problema crescente: a subsidência contínua do solo artificial, combinada com terremotos, elevação do nível do mar e custos permanentes de manutenção.

Como o Japão “criou terra” onde antes havia oceano

A escassez de áreas planas sempre foi um dos maiores entraves ao desenvolvimento japonês. Cerca de 70% do território do país é montanhoso, concentrando população, indústria e infraestrutura em estreitas planícies costeiras. A solução adotada a partir do pós-guerra foi direta: avançar sobre o mar.

O método predominante envolveu:

– Construção de diques perimetrais de aço e concreto
– Dragagem de sedimentos do fundo marinho
– Transporte de milhões de metros cúbicos de areia, rocha e solo
– Compactação progressiva do aterro ao longo de anos

No caso de Odaiba, o processo começou com funções defensivas ainda no período Edo, mas ganhou escala moderna entre 1985 e 1996, quando a área foi convertida em distrito urbano, comercial e turístico de Tóquio.

Já o Aeroporto de Kansai representa o exemplo mais extremo: uma ilha artificial de aproximadamente 4 km de comprimento, construída em águas profundas, com dezenas de milhões de metros cúbicos de aterro, projetada para receber pistas de aviação internacional longe da área urbana de Osaka.

O preço oculto da engenharia: subsidência contínua do solo

O maior desafio dessas áreas não surgiu no momento da construção, mas anos depois. O solo artificial, mesmo compactado, continua se acomodando lentamente, um processo conhecido como subsidência.

Créditos: ecohubmap

No Aeroporto de Kansai, medições oficiais do governo japonês indicaram que:

– A ilha afundou mais de 11 metros desde o início da operação
– Apenas nos primeiros anos, a taxa anual ultrapassou 50 cm por ano
– Hoje, mesmo após estabilizações, o afundamento continua em ritmo menor

Para manter o aeroporto operacional, o Japão precisou investir bilhões de dólares adicionais em:

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– Elevação de pistas e terminais
– Reforço de pilares de sustentação
– Sistemas de bombeamento contínuo contra infiltração marinha

Em Odaiba e em outras áreas da Baía de Tóquio, o problema é semelhante, ainda que em menor escala: bairros inteiros permanecem abaixo do nível médio do mar, dependentes de diques, comportas e estações de bombeamento 24 horas por dia.

Risco sísmico: construir sobre o mar em um país de terremotos

Além da subsidência, o Japão enfrenta um agravante único: atividade sísmica constante. O país está localizado sobre o encontro de quatro placas tectônicas, tornando terremotos e tsunamis eventos recorrentes. Construir cidades sobre aterros marítimos implica lidar com fenômenos como:

– Liquefação do solo durante terremotos
– Perda momentânea de capacidade de carga do terreno
– Danos severos a fundações e redes subterrâneas

Durante o terremoto de 2011, que atingiu o nordeste do Japão, áreas de aterro em várias cidades sofreram deformações visíveis, rachaduras e afundamentos localizados, mesmo longe do epicentro. Estudos posteriores do NIED confirmaram que solos artificiais são significativamente mais vulneráveis à liquefação do que terrenos naturais consolidados.

Manter cidades abaixo do nível do mar virou uma operação permanente

Diferentemente de uma obra convencional, as áreas conquistadas ao mar no Japão nunca ficam “prontas”. Elas exigem manutenção constante, funcionando como sistemas vivos de engenharia. Entre as estruturas permanentes estão:

– Diques costeiros com dezenas de quilômetros
– Portões marítimos automatizados
– Estações de bombeamento de alta capacidade
– Monitoramento contínuo de recalques do solo

Em Tóquio, autoridades metropolitanas reconhecem que, sem bombeamento ativo, partes inteiras da cidade inundariam em poucas horas durante marés altas combinadas com chuvas intensas.

Mudança climática e elevação do nível do mar aumentam o risco

Relatórios recentes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) colocaram um novo fator de pressão sobre essas áreas: a elevação gradual do nível do mar.

Mesmo aumentos aparentemente pequenos, de 30 a 50 centímetros, ampliam drasticamente o risco para regiões que já operam abaixo do nível oceânico. Para o Japão, isso significa:

– Necessidade de elevar diques existentes
– Reforçar fundações antigas
– Redesenhar planos de evacuação costeira

O Ministério da Terra do Japão já reconhece oficialmente que o custo de proteger áreas de aterro crescerá de forma acelerada nas próximas décadas.

O paradoxo japonês: sucesso técnico e vulnerabilidade estrutural

Do ponto de vista da engenharia, o Japão provou ser capaz de executar alguns dos maiores projetos de aterro marítimo do planeta, integrando urbanismo, transporte e indústria em áreas antes submersas.

Ao mesmo tempo, esses projetos criaram uma dependência permanente de tecnologia, energia e manutenção. Não se trata apenas de cidades modernas sobre o mar, mas de infraestruturas que jamais podem ser abandonadas, sob risco de colapso rápido.

Hoje, universidades japonesas, o MLIT, a JICA e centros de pesquisa como o Deltares Japão avaliam novos modelos de ocupação costeira, mais cautelosos, que considerem limites geológicos e climáticos de longo prazoO que o caso japonês ensina ao resto do mundo

À medida que países discutem expansão urbana costeira, portos artificiais e ilhas construídas, o Japão se tornou um estudo de caso real, documentado e incontornável.

A lição é clara: construir sobre o mar é possível, mas o custo real só aparece décadas depois. E, diferentemente de prédios ou estradas, o oceano nunca esquece onde ele estava antes.

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Pablo Emílio
Pablo Emílio
13/02/2026 08:13

Que desafio em Valdemar ? Revisa o texto e o ritulo

Suzana
Suzana
12/02/2026 11:37

Burrice. Quem é que não sabia q era arriscado por causa de terremotos! A ganância emburrece!

Giba Gonçalves
Giba Gonçalves
11/02/2026 21:48

Essa tecnologias e feitos mostrados neste video deveria ser visto e exemplo para o Benjamin Netanyahu ao invés de expandir o território de Israel com o massacre do povo Palestino e guerras pelo mesmo interesse contra países vizinhos, como fizeram no antigo testamento e fazem hoje

Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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