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O Google quer soltar 32 milhões de mosquitos na Califórnia e na Flórida e pediu autorização oficial ao governo americano para isso. Parece pesadelo, mas os insetos são machos esterilizados criados para exterminar os mosquitos que matam milhões de pessoas por ano

Publicado em 04/06/2026 às 23:50
Atualizado em 04/06/2026 às 23:55
O Google quer soltar 32 milhões de mosquitos na Califórnia e na Flórida pelo projeto Debug: machos estéreis com Wolbachia para combater o Aedes aegypti.
O Google quer soltar 32 milhões de mosquitos na Califórnia e na Flórida pelo projeto Debug: machos estéreis com Wolbachia para combater o Aedes aegypti.
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O Google pediu à agência ambiental dos EUA para liberar até 32 milhões de mosquitos na Califórnia e na Flórida, pelo projeto Debug. Os insetos são machos estéreis, portadores da bactéria Wolbachia, criados para reduzir a população do Aedes aegypti, transmissor de dengue, zika e febre amarela.

Pode soar como roteiro de filme de terror, mas tem explicação científica. O Google, por meio da controladora Alphabet, pediu autorização ao governo dos Estados Unidos para soltar até 32 milhões de mosquitos na Califórnia e na Flórida. A iniciativa faz parte do projeto Debug, voltado a combater os mosquitos que transmitem doenças.

O detalhe que muda tudo é o tipo de inseto. Os mosquitos liberados pelo Google são machos estéreis, que não picam nem transmitem doenças, infectados com uma bactéria natural chamada Wolbachia. A meta é fazer a população do Aedes aegypti, um dos animais mais mortais do mundo, despencar com o tempo.

Por que o Google quer soltar 32 milhões de mosquitos

imagem ilustrativa/explicativa
imagem ilustrativa/explicativa

A justificativa está na conta de vidas. Os mosquitos são considerados os animais mais mortais do planeta, pois transmitem malária, dengue, zika, febre amarela e o vírus do Nilo Ocidental, doenças que matam milhões de pessoas todos os anos.

A ideia do projeto Debug é, paradoxalmente, somar mais mosquitos ao ambiente, só que do tipo certo: machos “bons” que ajudam a derrubar os “ruins”.

Na prática, o Google pediu à Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) uma licença de uso experimental para liberar até 16 milhões de insetos por ano, ao longo de dois anos, somando os 32 milhões.

O pedido está em análise, e o período de comentários públicos se encerra em 5 de junho. Quando um macho estéril cruza com uma fêmea selvagem, os ovos não eclodem, e a população de mosquitos nocivos tende a diminuir.

Como a bactéria Wolbachia esteriliza os mosquitos

O coração da técnica é a Wolbachia, uma bactéria que ocorre naturalmente em cerca de 40% das espécies de insetos, mas que normalmente não está presente no Aedes aegypti.

Quando os machos a carregam, eles ficam incapazes de gerar descendentes viáveis com as fêmeas selvagens.

Vale reforçar: como só os machos são soltos, e machos não picam, não há risco de essas pessoas serem mordidas ou infectadas pela bactéria.

Esse método tem nome e história: é a técnica do inseto estéril, usada nos Estados Unidos há mais de 60 anos.

Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, é uma estratégia ecológica e eficaz, já aplicada contra pragas como a mosca-das-frutas e a larva-da-berne.

A novidade do Google é usar análise de dados, sensores e automação para criar e separar machos e fêmeas em larga escala, algo que sempre foi lento e caro, e assim escalar o uso da Wolbachia.

Onde já deu certo: Califórnia, Singapura e o alvo Aedes aegypti

Um  mosquito Aedes aegypti.  
João Paulo Burini via Getty Images.
Um  mosquito Aedes aegypti.  
João Paulo Burini via Getty Images.

Esta não é a primeira tentativa. A Verily, antiga subsidiária da Alphabet, já havia soltado milhões de machos estéreis na Califórnia em 2017.

Fora dos EUA, o projeto Debug apoia desde 2018 o Projeto Wolbachia, da agência ambiental de Singapura, com resultados expressivos: segundo o próprio programa, houve supressão de 80% a 90% da população de Aedes aegypti e queda de mais de 70% nos casos de dengue após 6 a 12 meses de liberações.

O alvo é justamente o Aedes aegypti, espécie responsável pela maioria dos casos de dengue, zika, febre amarela e chikungunya, entre as mais de 3.500 espécies de mosquitos que existem.

Um ponto importante para o debate ambiental: o Aedes aegypti não é nativo da Califórnia nem da Flórida, então nenhum animal local depende dele para se alimentar, o que reduz o risco de impacto na cadeia alimentar.

As dúvidas éticas e ambientais

Mesmo com o histórico favorável, especialistas pedem cautela. O ecologista Nathan Burkett-Cadena, da Universidade da Flórida, afirma que mirar uma espécie não nativa como o Aedes aegypti é mais seguro, mas que se preocuparia com consequências em cascata caso o Google passasse a atacar mosquitos nativos.

Já o bioeticista Henry Greely, de Stanford, defende que, se a intenção for levar uma espécie à extinção, é preciso reflexão e algum consenso social antes de dar esse passo.

Há, porém, quem veja a ação como um dever. O neurogeneticista Matthew DeGennaro, da Universidade Internacional da Flórida, lembra que fomos nós que espalhamos o Aedes aegypti pelo mundo, comparando-o às baratas e aos ratos no universo dos insetos, e conclui que temos a obrigação de controlá-lo.

Por enquanto, a EPA ainda analisa o pedido e o cronograma do Google para a soltura dos mosquitos segue indefinido.

Soltar 32 milhões de mosquitos para combater os próprios mosquitos é o tipo de ideia que assusta à primeira vista, mas pode salvar vidas.

Conte nos comentários se você confiaria no projeto do Google contra o Aedes aegypti ou se teme as consequências de mexer assim com a natureza.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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