1. Início
  2. / Agronegócio
  3. / O estado que alimenta o Brasil com 600 mil toneladas de cebola por ano está vendo seus próprios agricultores quebrarem um atrás do outro porque ninguém paga o preço justo pelo produto, a situação ficou tão crítica que o governo precisou congelar dívidas às pressas para evitar uma onda de falências no campo catarinense
Tempo de leitura 5 min de leitura Comentários 0 comentários

O estado que alimenta o Brasil com 600 mil toneladas de cebola por ano está vendo seus próprios agricultores quebrarem um atrás do outro porque ninguém paga o preço justo pelo produto, a situação ficou tão crítica que o governo precisou congelar dívidas às pressas para evitar uma onda de falências no campo catarinense

Publicado em 30/04/2026 às 23:45
Atualizado em 30/04/2026 às 23:52
A crise da cebola força o estado de SC a prorrogar dívidas de agricultores. O preço não cobre o custo do produto e 15 municípios decretam emergência.
A crise da cebola força o estado de SC a prorrogar dívidas de agricultores. O preço não cobre o custo do produto e 15 municípios decretam emergência.
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo

O Cederural (Conselho Estadual de Desenvolvimento Rural) de Santa Catarina confirmou a prorrogação das parcelas do Fundo FDR para agricultores de cebola afetados pela crise de preços da safra 2025/2026. A medida impacta 1.305 contratos que somam mais de R$ 4,2 milhões e atende 15 municípios que decretaram emergência econômica, incluindo Ituporanga, a “Terra da Cebola”. O estado é líder nacional na produção com previsão de 600 mil toneladas, mas o excesso de oferta derrubou os preços e comprometeu a renda dos produtores.

O estado que alimenta o Brasil com 600 mil toneladas de cebola por ano está assistindo seus próprios agricultores quebrarem um atrás do outro. Santa Catarina, líder nacional na produção do bulbo, enfrenta uma crise que já levou 15 municípios a decretar emergência econômica porque o excesso de oferta derrubou os preços a patamares que não cobrem os custos de produção. A estimativa é de redução de R$ 100 milhões na receita das plantações neste ano, cifra que pode inviabilizar a atividade para centenas de famílias que dependem exclusivamente da cebola para sobreviver.

A situação ficou tão crítica que o governo estadual precisou agir às pressas. O Cederural confirmou que as parcelas do Fundo FDR (Fundo Estadual de Desenvolvimento Rural) com vencimento até o fim de 2026 serão prorrogadas até o final dos contratos, beneficiando 1.305 financiamentos que somam mais de R$ 4,2 milhões. A medida dá fôlego financeiro para que os produtores não percam suas propriedades por inadimplência enquanto esperam que os preços se recuperem, mas não resolve o problema estrutural que causou a crise: o Brasil produz mais cebola do que consegue consumir.

Os 15 municípios que decretaram emergência econômica

Segundo informações divulgadas pelo portal da NDMAIS, a crise da cebola atinge com mais força as cidades que dependem da cultura como principal atividade econômica. Ituporanga, no Alto Vale do Itajaí, se tornou a “Terra da Cebola” por concentrar parte significativa da produção catarinense, mas agora é também o epicentro de uma emergência que se espalhou para 14 outros municípios: Alfredo Wagner, Atalanta, Aurora, Bom Retiro, Caçador, Chapadão do Lageado, Frei Rogério, Imbuia, Lebon Régis, Leoberto Leal, Petrolândia, Rio das Antas, Urubici e Vidal Ramos.

O decreto de emergência econômica não é apenas simbólico: permite que os municípios acessem recursos estaduais e federais para amparar agricultores em dificuldade e justifica medidas como a prorrogação de dívidas que o Cederural acaba de aprovar. As 15 cidades afetadas concentram uma parte expressiva dos produtores de cebola de Santa Catarina, e a quebra financeira desses agricultores teria efeito cascata sobre o comércio local, os serviços e a arrecadação municipal.

Por que o preço da cebola despencou se a produção foi boa

O paradoxo é que a safra 2025/2026 de Santa Catarina foi tecnicamente bem-sucedida: o estado prevê colher cerca de 600 mil toneladas de cebola, volume que consolida a liderança nacional. Mas o excesso de oferta no mercado brasileiro, combinado com a entrada de produto importado, derrubou os preços a níveis que não remuneram o custo de produção, que inclui sementes, fertilizantes, mão de obra e logística.

O mecanismo é conhecido na agricultura: quando todos os produtores colhem bem ao mesmo tempo, a abundância pressiona os preços para baixo. O problema é que o agricultor não pode simplesmente parar de vender porque a cebola é perecível e precisa ser comercializada antes de estragar. O resultado é uma corrida para escoar a produção a qualquer preço, o que derruba ainda mais as cotações e transforma uma safra recorde em prejuízo para quem plantou.

A prorrogação de dívidas e o que ela significa para os produtores

A medida aprovada pelo Cederural prorroga as parcelas do Fundo FDR com vencimento entre 1º de março e 31 de dezembro de 2026, incorporando-as ao final dos contratos. São 1.305 contratos que somam mais de R$ 4,2 milhões em financiamentos destinados a investimentos nas propriedades e melhoria nos processos produtivos, executados pela Sape em parceria com a Epagri.

O secretário de Agricultura e Pecuária, Admir Dalla Cort, explica que a medida dá mais tranquilidade para os agricultores enfrentarem o momento de preços baixos. “Com a prorrogação, eles ganham tempo para organizar as finanças e seguir produzindo”, afirma. O apoio é importante, mas não paga as contas do mês: a redução de R$ 100 milhões na receita das plantações significa que muitas famílias terão que buscar outras fontes de renda enquanto esperam a próxima safra.

A crise do alho que acompanha a cebola em Santa Catarina

A cebola não é a única cultura em dificuldade. Santa Catarina também é a terceira maior produtora de alho do Brasil, com estimativa de 8,8 mil toneladas na safra atual, e o mesmo problema de preços baixos por excesso de oferta atinge os produtores desse segmento. A concentração de duas crises simultâneas em culturas que compartilham perfil de produtor e região agrava o impacto financeiro, porque muitos agricultores cultivam cebola e alho como forma de diversificar e acabam perdendo nos dois.

A situação revela uma fragilidade estrutural da agricultura de pequena escala em Santa Catarina: a dependência de poucas culturas em regiões onde o clima e o solo favorecem a produção, mas onde não existem mecanismos de regulação de oferta ou seguro de preço que protejam o produtor quando o mercado desaba. Os agricultores plantam na expectativa de preços que se sustentaram na safra anterior, mas não têm garantia de que o mercado vai remunerar o trabalho.

O que precisa mudar para que a crise não se repita

A prorrogação de dívidas é paliativo necessário, mas não resolve a causa. Para evitar que a crise da cebola se repita a cada safra abundante, o Brasil precisaria de instrumentos de regulação como estoques reguladores, contratos antecipados de venda e seguro de preço que garantam remuneração mínima ao produtor independentemente do comportamento do mercado no momento da colheita.

Enquanto esses mecanismos não existem, os agricultores de Santa Catarina dependem da sorte do mercado e da disposição do governo em agir quando a crise se instala. O estado que produz 600 mil toneladas de cebola por ano e alimenta mesas em todo o Brasil não consegue garantir que seus próprios produtores sobrevivam de uma safra para outra, paradoxo que expõe o quanto a agricultura familiar brasileira opera sem rede de proteção.

Você sabia que os agricultores de cebola em Santa Catarina estão quebrando apesar de uma safra recorde, ou achava que produzir muito sempre significa lucrar? Conte nos comentários se percebeu mudança no preço da cebola no supermercado e o que acha que o governo deveria fazer para proteger quem planta.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

Compartilhar em aplicativos
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x