Luciano Hang compra a histórica Villa Renaux por R$ 8,32 milhões e anuncia parque aberto ao público em Brusque para preservar o legado do industrial Carlos Renaux.
Em maio de 2025, depois de nove anos tentando concluir o negócio, Luciano Hang finalmente recebeu o aval judicial que aguardava. A compra estava concluída: a Villa Renaux, o casarão histórico construído em 1932 pelo cônsul Carlos Renaux na Avenida Primeiro de Maio, em Brusque, Santa Catarina, passava oficialmente a integrar o patrimônio da Havan. O valor da aquisição foi de R$ 8,32 milhões.
Menos de um mês após a conclusão da compra, Hang publicou um vídeo nas redes sociais percorrendo os cômodos da residência histórica. O objetivo não era mostrar apenas o que havia adquirido, mas revelar o que pretendia fazer com o espaço. No vídeo, o empresário explicou que o projeto envolve a restauração completa da propriedade e sua transformação em um parque aberto à visitação pública.
Segundo Hang, a proposta é recuperar a estrutura original da casa e transformar todo o entorno em um espaço cultural. “Queremos restaurar e transformar todo o espaço onde está a casa do cônsul em um parque para visitação pública. São 100 anos de história e vamos deixar tudo perfeito. Esse espaço é um presente para Brusque”, afirmou o empresário.
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Quem foi Carlos Renaux e por que sua história marcou Brusque
Para entender por que Luciano Hang passou quase uma década tentando adquirir a casa, é necessário entender quem foi Carlos Renaux e qual foi o impacto de sua trajetória para a cidade de Brusque.
Renaux nasceu em 1862, na cidade de Lörrach, na Alemanha, e chegou ao Brasil aos 20 anos com uma carta de recomendação e praticamente sem recursos financeiros. Instalou-se em Brusque, no Vale do Itajaí, onde começou a trabalhar como caixeiro. Em 1892, aos 30 anos, fundou a Fábrica de Tecidos Carlos Renaux, iniciando a operação com apenas oito teares manuais e um grupo de tecelões vindos da Polônia.
A empresa rapidamente se tornou um dos pilares da industrialização têxtil em Santa Catarina. O pequeno empreendimento deu origem ao que viria a ser a maior indústria têxtil do estado, transformando Brusque em um dos centros têxteis mais importantes do Brasil.
A influência da Fábrica Renaux na industrialização de Santa Catarina
O impacto da Renaux na economia regional foi profundo. A empresa foi responsável por instalar a primeira fiação industrial de Santa Catarina, um feito tão importante que inspirou o slogan usado no centenário de Brusque: “Brusque, Berço da Fiação Catarinense”.
A companhia também se tornou a primeira sociedade anônima de capital aberto do estado, consolidando um modelo empresarial que atraiu investimentos e impulsionou o desenvolvimento industrial da região. Em seu auge, a fábrica chegou a empregar 22,5% de toda a mão de obra têxtil catarinense, um número que ilustra o tamanho de sua relevância.
Já em 1935, a indústria operava com 294 teares e cerca de 649 trabalhadores, consolidando-se como o principal motor econômico da cidade.
Além da fábrica, Carlos Renaux participou diretamente da modernização de Brusque. Foi ele quem financiou projetos de infraestrutura urbana, instalou a primeira iluminação elétrica da cidade, ajudou na construção de hospitais, avenidas e campos de futebol e criou uma fundação que apoiou iniciativas industriais e tecnológicas.
A ligação histórica entre Carlos Renaux e a origem da marca Consul
Um dos episódios mais curiosos associados ao legado de Renaux envolve a história da primeira geladeira produzida no Brasil. A fundação criada pelo empresário patrocinou uma oficina onde foi desenvolvido o equipamento que viria a ser considerado o primeiro refrigerador brasileiro.
O aparelho recebeu o nome de Consul, em homenagem ao título que Renaux havia recebido do governo brasileiro em 1918, quando foi nomeado cônsul honorário. Com o tempo, a empresa que produzia o eletrodoméstico cresceu e se transformou na Consul, hoje uma das maiores fabricantes de eletrodomésticos do país.
Quando Carlos Renaux morreu, em 1945, ele havia deixado uma marca profunda na cidade que o acolheu. Sua atuação empresarial e social ajudou a moldar o desenvolvimento econômico e urbano de Brusque.
A falência da Renaux em 2013 encerrou 121 anos de história industrial
Durante décadas, a Fábrica de Tecidos Carlos Renaux permaneceu como o coração industrial da cidade. No auge da operação, especialmente nos anos 1990, a empresa chegou a manter cerca de 1.200 empregos diretos.
Entretanto, a abertura econômica iniciada na década de 1990 e o crescimento das importações de produtos têxteis, principalmente da China, afetaram severamente a competitividade da indústria nacional. Muitas empresas tradicionais do setor enfrentaram dificuldades para competir com os novos preços internacionais.
A Renaux tentou implementar um processo de recuperação judicial, mas não conseguiu cumprir o plano estabelecido. Em 15 de julho de 2013, exatamente 121 anos após sua fundação, a falência foi decretada. Os últimos 230 empregos remanescentes foram extintos, encerrando uma das histórias industriais mais marcantes de Santa Catarina.
A relação de Luciano Hang com a antiga fábrica Renaux
Para Luciano Hang, a história da Renaux não é apenas parte da memória da cidade. Ela também faz parte de sua própria trajetória familiar. O empresário nasceu em Brusque, em 1960, e trabalhou na indústria têxtil antes de fundar a rede varejista Havan.
Durante a apresentação do projeto de restauração da Villa Renaux, Hang relembrou o papel da fábrica na vida de muitas famílias da cidade. Segundo ele, praticamente toda família brusquense tinha alguém trabalhando na indústria.
“Quando nós trabalhávamos na Renaux, toda a família tinha alguém lá. Ou era na indústria, ou na fiação, na loja. Trabalhou meu avô, meus pais, e eu também trabalhei lá. Era um poder muito grande. Era um coração pulsante, com as caldeiras funcionando e os teares batendo até nos feriados”, relatou o empresário.
A compra do complexo da antiga fábrica Renaux pela Havan
Em 2018, cinco anos após a falência da empresa, Luciano Hang adquiriu o complexo industrial da antiga fábrica. A operação envolveu mais de 40 mil metros quadrados de área construída e um terreno total estimado em 6,5 milhões de metros quadrados.
Naquele momento, a Villa Renaux não fazia parte do negócio. O casarão histórico permanecia envolvido em disputas judiciais relacionadas ao processo de falência da empresa.
Mesmo assim, Hang continuou tentando adquirir a propriedade. Foram necessários nove anos de negociações e decisões judiciais até que a venda fosse finalmente autorizada.
Em maio de 2025, o empresário concluiu a compra do casarão histórico por R$ 8,32 milhões, incorporando também cerca de 55 mil metros quadrados de área ao redor da residência.
Acervo histórico preservado dentro da residência
Dentro da casa, grande parte do acervo histórico permaneceu intacta ao longo das décadas. Quadros, roupas, porcelanas, móveis e até uma bicicleta antiga continuam preservados, oferecendo um retrato detalhado da vida da família Renaux.
Segundo Luciano Hang, o interior da residência representa “a história viva de Brusque”. Durante o tour que gravou para as redes sociais, o empresário destacou que praticamente todos os aspectos do desenvolvimento urbano da cidade tiveram alguma ligação com o trabalho do cônsul.
Hospitais, avenidas, campos de futebol e fábricas foram iniciativas financiadas ou impulsionadas por Renaux durante sua vida.
Projeto do Parque Renaux prevê restauração e visitação pública
O projeto anunciado por Hang combina restauração histórica e abertura pública do espaço. A intenção é preservar ao máximo a estrutura original da Villa Renaux, incluindo elementos arquitetônicos, o sistema histórico de climatização, o jardim e o mausoléu.
A área de 55 mil metros quadrados que envolve o casarão será transformada no chamado Parque Renaux, voltado à preservação histórica e cultural da cidade.
Esse espaço também se conecta ao complexo maior da antiga fábrica Renaux, adquirido em 2018, formando um grande conjunto histórico dentro da cidade.
Entrada no Parque Renaux deve ser gratuita ou simbólica
Quando questionado sobre a possibilidade de cobrança de ingresso, Hang afirmou que, se houver cobrança, ela deverá ser apenas simbólica.
O objetivo, segundo ele, é cobrir custos básicos de manutenção e segurança, mantendo o espaço essencialmente aberto e acessível à comunidade.
O empresário declarou que deseja transformar o local em um novo cartão-postal de Brusque, atraindo moradores e visitantes interessados em conhecer a história da cidade.
Hang diz que o projeto tem valor emocional e não financeiro
Durante entrevista à Rádio Diplomata FM, de Brusque, Hang afirmou que a motivação do projeto não é econômica.
Segundo o empresário, a iniciativa representa uma forma de preservar a história da cidade e homenagear quem ajudou a construí-la.
“Esse projeto é um presente para Brusque. É um valor emocional, de resgate e de respeito com quem construiu essa cidade. Eu fico muito feliz por poder participar disso”, declarou.
Luciano Hang é fundador da Havan, rede varejista com mais de 170 lojas em todo o Brasil, faturamento anual estimado em cerca de R$ 10 bilhões e sede em Brusque.
O legado histórico que o Parque Renaux pode preservar
Carlos Renaux morreu em 1945, mas o impacto de sua atuação ainda é visível em Brusque. A fábrica que fundou funcionou por 121 anos, ajudando a consolidar a cidade como um dos principais polos têxteis do Brasil.
A iluminação elétrica que instalou marcou o início da modernização urbana de Brusque, que hoje possui cerca de 160 mil habitantes e continua sendo um centro importante da indústria têxtil brasileira.
A Villa Renaux permaneceu preservada por décadas, mas ficou fechada ao público devido às disputas judiciais relacionadas à falência da empresa. Agora, com a compra do imóvel e o projeto de restauração em andamento, a casa deve finalmente se tornar acessível aos moradores da cidade.
Quando o Parque Renaux abrir as portas — ainda sem data oficial definida — qualquer pessoa poderá caminhar pelos jardins que um dia foram cuidados por oito jardineiros, conhecer a casa onde viveu o cônsul Carlos Renaux e visitar um dos lugares mais simbólicos da história de Brusque.


Luciano Hang é um visionário, empresário de destaque e brasileiro que presta justa homenagem à história do Brasil, reverenciando aqueles que, ao longo do tempo, ajudaram a construir o desenvolvimento, a grandeza e a identidade da nossa nação.