Em 1927, o Sunbeam 1000 HP fez história ao usar dois motores de avião e atingir 322 km/h, tornando-se o primeiro carro do mundo a ultrapassar 200 mph e mudar a história da velocidade.
Em 1927, quando o mundo ainda se recuperava da Primeira Guerra Mundial e os automóveis mal passavam dos 100 km/h, um engenheiro britânico chamado Louis Coatalen decidiu desafiar o impossível. Seu objetivo era simples e insano ao mesmo tempo: criar o carro mais rápido da Terra. O resultado desse sonho audacioso foi o Sunbeam 1000 HP, um monstro metálico de 4,5 toneladas, equipado com dois motores de avião e capaz de alcançar a impressionante marca de 322 km/h, um feito inimaginável para a época.
O projeto nasceu em um contexto de rivalidade feroz entre fabricantes britânicos e norte-americanos. O mundo automotivo vivia uma corrida paralela à aviação, uma busca pela supremacia da velocidade. Enquanto pilotos tentavam cruzar oceanos e alcançar novas altitudes, engenheiros de marcas como Sunbeam, Napier e Rolls-Royce queriam provar que também podiam “voar” sobre o asfalto.
O Sunbeam 1000 HP foi a resposta da engenharia britânica a esse desafio. Projetado especialmente para bater recordes, ele não era um carro comum, era um laboratório sobre rodas, concebido para resistir a forças extremas e vencer o atrito com o vento.
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E o mais impressionante: tudo isso em uma época em que não existiam túneis de vento modernos, computadores de simulação ou ligas leves como as atuais. Tudo foi feito à base de cálculo manual, intuição e coragem.
Dois motores de avião e uma estrutura colossal
A solução de Coatalen foi ousada: usar dois motores V12 de avião Sunbeam Matabele, cada um com 22,4 litros e 435 cavalos de potência.
No total, o carro entregava cerca de 900 cv, algo que, em 1927, era simplesmente surreal — uma potência semelhante à de um Bugatti Chiron atual, mas com tecnologia totalmente mecânica, sem injeção eletrônica, câmbio automatizado ou controle de tração.
Os dois motores ficavam montados em tandem, um à frente e outro atrás do piloto, com um sistema de transmissão que unificava as forças em um único eixo.
O ruído, segundo relatos da época, era ensurdecedor — um rugido semelhante ao de dois aviões de caça decolando simultaneamente. O calor, a vibração e o cheiro de combustível transformavam a cabine em um verdadeiro inferno sobre rodas.
O carro recebeu o apelido de “The Slug” (“A Lesma”), ironicamente, por causa de seu formato alongado e pouco aerodinâmico, mas o apelido logo se mostrou injusto: o Sunbeam seria tudo, menos lento.
Ele foi montado na fábrica de Wolverhampton, na Inglaterra, e finalizado em 1926 após meses de testes, ajustes e cálculos minuciosos para garantir que não se despedaçasse sob alta velocidade.
O dia em que o impossível aconteceu
O feito histórico ocorreu em 29 de março de 1927, na praia de Daytona Beach, na Flórida (EUA). O piloto escolhido foi o lendário Henry Segrave, um capitão do exército britânico e veterano da Primeira Guerra.
Vestido com um macacão de couro e capacete de piloto de avião, ele acelerou o Sunbeam 1000 HP em duas passagens cronometradas para cumprir as regras da FIA.
A primeira corrida já mostrou que algo extraordinário estava prestes a acontecer. O carro rugia como um monstro descontrolado, levantando nuvens de areia e deixando uma trilha de fumaça branca no horizonte.
Na segunda tentativa, o milagre se confirmou: 203,79 milhas por hora, ou 322,02 km/h, tornando-se o primeiro carro da história a ultrapassar os 200 mph.
O recorde foi homologado pela Associação Internacional de Automobilismo, e Henry Segrave entrou para o hall da fama como o homem mais rápido do planeta.
O feito foi tão impressionante que jornais do mundo inteiro noticiaram o evento como se fosse uma conquista nacional — uma vitória da engenharia britânica sobre os limites humanos e tecnológicos.
Um marco que mudou o rumo da velocidade
O sucesso do Sunbeam 1000 HP inaugurou uma nova era. Ele provou que a barreira dos 300 km/h podia ser rompida e inspirou uma geração de engenheiros e pilotos a tentar ir além. Pouco depois, outras máquinas lendárias como o Blue Bird de Malcolm Campbell e o Thunderbolt surgiram para disputar o trono da velocidade.
Mas o Sunbeam manteve seu status de pioneiro. Seu uso de dois motores aeronáuticos, estrutura reforçada em aço e transmissão dupla serviu de base para estudos de tração e estabilidade que mais tarde seriam aplicados em veículos militares, motores de corrida e até no desenvolvimento de aviões a jato.
Hoje, quase cem anos depois, o carro ainda existe. Ele está preservado no National Motor Museum, em Beaulieu, no Reino Unido, e continua atraindo visitantes fascinados pela ousadia de um tempo em que a tecnologia era movida mais pela coragem do que pela eletrônica.
Restaurado e mantido com cuidado, o Sunbeam 1000 HP é considerado um dos veículos mais importantes já construídos, não apenas por seu recorde, mas por simbolizar o espírito de uma geração que acreditava que tudo era possível.
O legado de um sonho em metal e fogo
A façanha de 1927 foi mais do que um recorde técnico — foi um momento de virada na história automotiva. Representou a transição entre o romantismo da mecânica e o início da era da engenharia de precisão.
O Sunbeam mostrou que o impossível podia ser vencido com engenhosidade e determinação, e pavimentou o caminho para que as gerações seguintes desafiassem barreiras ainda mais altas: 400, 500 e até 1.000 km/h.
Para muitos historiadores do automobilismo, o nome Sunbeam 1000 HP resume a essência da inovação: ousar antes que a tecnologia esteja pronta.
Foi assim que um grupo de britânicos, sem computadores ou aerodinâmica digital, criou uma máquina que ainda hoje impõe respeito, não pelo design, mas pelo que ela simboliza: o poder do engenho humano diante do limite.
E em tempos em que os supercarros elétricos ultrapassam facilmente os 300 km/h, vale lembrar que tudo começou ali, em 1927, na areia quente de Daytona, com dois motores de avião e um piloto disposto a arriscar a vida pela velocidade.


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