A montadora francesa fez algo raro no setor: admitiu publicamente que demorou a reagir ao defeito que atormentou donos por anos. A peça vilã, uma correia que rodava dentro do óleo, dá lugar a uma corrente metálica. Mas a troca vale só para carros novos, e quem já tem o motor antigo segue de olho.
A Peugeot reconheceu publicamente os erros do seu motor PureTech, que causou falhas graves em centenas de milhares de carros, e apresentou o novo Turbo 100 como uma solução definitiva para o problema. Segundo a montadora francesa, do grupo Stellantis, o novo motor é um 1,2 turbo testado por mais de 3 milhões de quilômetros, que substitui a correia de distribuição defeituosa por uma corrente, prometida como muito mais durável, numa tentativa de recuperar a confiança dos consumidores.
O Turbo 100 começou a chegar ao Peugeot 208 a partir de março de 2026 e ao Peugeot 2008 a partir de maio de 2026, segundo a empresa. É importante deixar claro que parte das afirmações, como a de “solução definitiva” e os resultados dos testes, parte da própria fabricante, e o tempo dirá se o novo motor cumprirá a promessa. Ainda assim, a mudança técnica central, a substituição da correia por uma corrente, é concreta e responde diretamente à origem do problema que manchou a reputação do PureTech, como veremos a seguir.
O que deu errado com o motor PureTech

O motor PureTech, de três cilindros e cilindradas 1.0 e 1.2, equipou milhões de carros da Peugeot e de outras marcas do grupo, mas tornou-se um dos casos de falha mecânica mais comentados da indústria automotiva europeia na última década, especialmente por causa da chamada correia úmida, que ficava imersa no óleo do motor.
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O problema, presente sobretudo em duas gerações fabricadas entre 2012 e 2017 e entre 2018 e 2023, ocorria porque o combustível se infiltrava no óleo e degradava o material da correia.
Com o tempo, ela inchava, rachava e soltava pedaços que entupiam o tubo de sucção da bomba de óleo, comprometendo a lubrificação de todo o motor e podendo levar a falhas graves.
A situação era agravada pelo uso com partidas a frio frequentes e viagens curtas, e gerou recalls, extensões de garantia e até ações coletivas contra a Stellantis em mercados europeus.
O reconhecimento público dos erros
Diante da repercussão, a marca adotou uma postura incomum no setor.
Em vez de minimizar o problema, executivos da Peugeot reconheceram publicamente as falhas, admitindo que a empresa não reagiu com a rapidez necessária e que não comunicou a questão com total transparência, uma admissão rara entre grandes montadoras diante de problemas de qualidade.
Segundo Ana Gema Ortega, diretora da Peugeot para Espanha e Portugal, a empresa mudou processos, materiais e fornecedores, ainda que tenha reconhecido falhas na comunicação com os clientes até então.
A apresentação do novo motor foi conduzida por nomes como Vincent Jacquier, chefe de desenvolvimento do Turbo 100, e Fabien Gouzonnat, diretor de desenvolvimento de motores para a Europa, que posicionaram o lançamento como um ponto de virada para a marca.
O novo motor Turbo 100 por dentro

O Turbo 100 é um motor turbo a gasolina de 1,2 litro e três cilindros que, segundo a Peugeot, incorpora cerca de 70% de componentes novos, sendo a mudança mais importante a substituição da correia de distribuição por uma corrente, prometida como mais durável e silenciosa, atacando diretamente a raiz do problema anterior.
Além da corrente, o motor traz um sistema de injeção direta de ciclo Miller, operando a alta pressão, e um turbocompressor de geometria variável, usado pela primeira vez pela Peugeot em um motor a gasolina de produção em massa.
Há ainda reforços como cárter mais robusto, novos anéis de pistão para reduzir o consumo de óleo e um cabeçote de alumínio reforçado.
O conjunto está disponível com câmbio manual nas versões de 100 e 110 cavalos, ou com transmissão automática eletrificada de 110 e 145 cavalos, e atende às normas de emissões Euro 6e-bis.
Mais manutenção espaçada e garantia ampliada
As mudanças também aparecem na relação com o cliente e no bolso.
Os modelos equipados com o Turbo 100 passam a ter uma garantia de até 8 anos ou 160 mil quilômetros, bem acima dos 2 anos anteriores, além de intervalos de manutenção mais espaçados, com revisão a cada 2 anos ou 25 mil quilômetros, em vez do esquema anterior de revisões anuais.
Segundo a Peugeot, o motor passou por testes que somaram 30 mil horas em bancada e mais de 3 milhões de quilômetros em condições reais de condução, números que a empresa usa para sustentar a promessa de confiabilidade.
Vale lembrar, porém, que essas informações partem da própria fabricante, e que será o uso no dia a dia, ao longo dos anos, que dirá de forma definitiva se o Turbo 100 realmente superou os problemas do passado.
E quem já tem um carro com motor PureTech?
Este é o ponto que mais interessa a quem já foi afetado pelo problema.
É fundamental esclarecer que o novo motor Turbo 100 equipa apenas os carros novos e não pode ser instalado nos veículos antigos com PureTech, ou seja, a corrente não conserta os modelos já vendidos com a correia problemática, o que frustra parte dos proprietários que esperavam uma solução para seus carros.
Para esse público, a Peugeot afirma oferecer medidas de apoio, como uma ferramenta de gestão de reparos retroativos para motores fabricados entre 2022 e 2024 que apresentaram falhas e foram consertados, além de uma garantia estendida com cobertura retroativa que, segundo a marca, chegaria a até 10 anos ou 180 mil quilômetros para a produção potencialmente afetada.
Quem tem um carro nessas condições deve procurar a rede oficial da marca para verificar a cobertura disponível para o seu caso específico.
Por que isso interessa ao consumidor brasileiro
O tema também tem relevância para o mercado nacional.
A Peugeot e o grupo Stellantis têm forte presença no Brasil, e o motor PureTech foi utilizado em modelos comercializados no país, o que torna o caso relevante para consumidores brasileiros que possuem ou pensam em comprar veículos da marca, seja novos, seja usados.
Por isso, acompanhar a evolução desses motores ajuda o consumidor a tomar decisões mais informadas, especialmente no mercado de seminovos, onde carros com o antigo PureTech ainda circulam.
A recomendação geral, válida para qualquer compra, é pesquisar o histórico de manutenção do veículo, verificar as condições de garantia e procurar orientação técnica de confiança antes de fechar negócio, evitando surpresas no futuro.
O reconhecimento dos erros do motor PureTech e o lançamento do Turbo 100 marcam uma tentativa da Peugeot de virar a página de um dos episódios mais delicados de sua história recente.
A troca da correia problemática por uma corrente e a ampliação da garantia são sinais concretos de mudança, ainda que a confirmação definitiva da confiabilidade só venha com o tempo e com o uso real dos consumidores.
Para quem já tem um carro com o motor antigo, fica o alerta para buscar as coberturas disponíveis; para quem pensa em comprar, a lição de sempre: informação e cautela valem mais do que qualquer promessa.
E você, já teve ou conhece alguém que teve problemas com o motor PureTech da Peugeot? O que acha da postura da marca em reconhecer os erros e lançar um novo motor? Deixe seu comentário, com respeito às diferentes opiniões, conte sua experiência e compartilhe a matéria com quem tem um carro da marca ou está pensando em comprar um.
