Enquanto elevadores modernos funcionam de forma totalmente automática há anos, órgãos públicos federais continuaram destinando milhões de reais para manter profissionais responsáveis pela operação de equipamentos que qualquer usuário consegue utilizar sozinho, levantando um debate sobre eficiência, gastos públicos e modernização do Estado.
Durante décadas, entrar em um elevador e encontrar um profissional responsável por apertar os botões fazia parte da rotina em edifícios comerciais, hotéis e repartições públicas. O que muitos brasileiros não sabem é que, mesmo em pleno século XXI, o governo federal ainda manteve contratos milionários para a contratação de ascensoristas, uma profissão que o próprio Estado passou a classificar oficialmente como obsoleta.
A informação ganhou destaque após a divulgação de estudos e levantamentos apresentados pelo Canal Elementar, que analisou dados públicos sobre a permanência desses profissionais em órgãos federais. O debate voltou à tona especialmente após medidas anunciadas pelo governo em abril de 2025 para extinguir milhares de cargos considerados ultrapassados dentro da administração pública.
Uma profissão criada quando os elevadores ainda exigiam operação manual

Para entender por que os ascensoristas existiram por tanto tempo, é preciso voltar ao final do século XIX e ao início do século XX.
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Naquele período, os elevadores eram equipamentos muito diferentes dos atuais. A operação exigia conhecimento técnico, já que o operador precisava controlar manualmente o deslocamento da cabine e realizar paradas precisas nos andares. Um erro poderia provocar acidentes durante o embarque ou desembarque dos passageiros.
Foi nesse contexto que surgiu a profissão.
No Brasil, a atividade foi regulamentada em 1957 pelo então presidente Juscelino Kubitschek, por meio da Lei nº 3.270. A legislação estabeleceu regras específicas para a categoria dos cabineiros de elevador, incluindo jornada diária de seis horas de trabalho.
A norma permaneceu vigente ao longo das décadas e continuou sendo utilizada como referência em contratos públicos mesmo após os avanços tecnológicos que transformaram completamente o funcionamento dos elevadores.
Com o passar dos anos, os equipamentos passaram a contar com sistemas automáticos, sensores de segurança, paradas programadas e painéis de operação extremamente simples.
Em outras palavras, a justificativa técnica para a existência da profissão praticamente desapareceu.
Ainda assim, o cargo continuou existindo em diversas estruturas públicas.
O setor privado abandonou os ascensoristas, mas o governo continuou contratando
Enquanto a tecnologia tornava desnecessária a presença de operadores nos elevadores, empresas privadas passaram a dispensar esses profissionais gradualmente.
Hotéis, centros empresariais e edifícios comerciais foram os primeiros a adotar sistemas totalmente automatizados.
Segundo representantes do setor hoteleiro citados pelo Canal Elementar, atualmente é raro encontrar estabelecimentos que ainda mantenham ascensoristas em atividade.
No Rio de Janeiro, uma legislação estadual aprovada em 1991 chegou a tornar obrigatória a contratação desses profissionais em prédios comerciais com cinco ou mais andares. A medida manteve milhares de postos de trabalho durante anos.
Posteriormente, porém, a Justiça derrubou a exigência após entender que a obrigação criava custos desnecessários para proprietários de imóveis e empresas.
Mesmo diante desse cenário, a profissão continuou presente em diversas instituições públicas.
Em 2015, conforme reportagem publicada pelo jornal O Globo por meio da Lei de Acesso à Informação, 48 órgãos federais foram questionados sobre a existência de ascensoristas em seus quadros.
Desses, 21 confirmaram a manutenção da função.
Ao todo, eram 232 profissionais espalhados por diferentes repartições federais.
As justificativas apresentadas incluíam controle de fluxo de pessoas, transporte de cargas, atendimento a autoridades e reforço na segurança de passageiros.
R$ 8 milhões por ano para apertar botões
Os números chamam atenção.
Em 2021, Câmara dos Deputados, Senado Federal e Superior Tribunal de Justiça (STJ) mantinham juntos 110 profissionais ligados à operação de elevadores por meio de contratos terceirizados.
Os gastos somados alcançavam aproximadamente R$ 8 milhões anuais.
Desse total:
- R$ 3,8 milhões eram destinados à Câmara dos Deputados;
- R$ 3 milhões ao Superior Tribunal de Justiça;
- R$ 1,33 milhão ao Senado Federal.
As instituições justificavam a manutenção dos contratos alegando questões relacionadas ao fluxo intenso de visitantes, parlamentares, servidores e autoridades.
A Câmara dos Deputados, por exemplo, afirmou que os profissionais contribuíam para garantir a operação adequada e segura dos equipamentos.
O argumento, entretanto, passou a ser questionado por especialistas e parlamentares.
Isso porque o Supremo Tribunal Federal (STF), que também recebe autoridades, ministros, visitantes e servidores diariamente, operava normalmente sem nenhum ascensorista.
A comparação intensificou o debate sobre a real necessidade da função.
Outro dado que chama atenção está na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), documento oficial utilizado pelo governo para avaliar profissões.
O cargo de ascensorista recebeu nota 1 em uma escala de 1 a 8 nos critérios de conhecimento, habilidade e atitude.
Trata-se da menor pontuação possível dentro da classificação oficial.
Ou seja, o próprio Estado reconhecia que se tratava de uma ocupação de complexidade mínima.
O projeto de lei que tentou expandir uma profissão em declínio
Mesmo diante do avanço da automação, houve tentativas de ampliar a presença dos ascensoristas no país.
O Projeto de Lei nº 2637/11, apresentado pelo deputado Laércio Oliveira, propunha tornar obrigatória a contratação desses profissionais em edifícios públicos e comerciais equipados com elevadores.
A proposta permaneceu em tramitação por mais de uma década na Câmara dos Deputados.
Durante as discussões, parlamentares de diferentes correntes ideológicas demonstraram resistência à ideia.
Relatórios elaborados ao longo do processo apontaram que a operação dos elevadores modernos não exige treinamento especializado e que a obrigatoriedade geraria custos sem benefícios proporcionais.
Ao final, o projeto foi rejeitado.
O episódio acabou simbolizando uma discussão mais ampla sobre burocracia, modernização administrativa e eficiência dos gastos públicos.
A mudança anunciada pelo governo em 2025
O passo mais significativo ocorreu em abril de 2025.
Na ocasião, o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) divulgou uma reestruturação administrativa envolvendo aproximadamente 30 mil cargos considerados obsoletos.
A lista incluía funções como:
- Ascensorista;
- Datilógrafo;
- Operador de telex;
- Vaqueiro.
Segundo o ministério, cerca de 29,7 mil cargos antigos seriam transformados em 28,4 mil novas vagas mais alinhadas às necessidades atuais da administração pública.
Entre elas estavam funções administrativas e técnicas compatíveis com a realidade do serviço público moderno.
O governo informou que a medida não geraria impacto orçamentário adicional, já que os recursos financeiros já estavam previstos no orçamento federal.
Na prática, a proposta buscava redirecionar verbas existentes para áreas consideradas mais estratégicas.
O lado humano por trás de uma profissão em extinção
Apesar das críticas à manutenção do cargo, a história dos ascensoristas também envolve milhares de trabalhadores que construíram suas vidas por meio dessa atividade.
Um dos relatos apresentados pelo Canal Elementar é o de Roselia da Conceição, que trabalhava em um edifício comercial no centro do Rio de Janeiro.
Em 2018, aos 53 anos, ela já reconhecia que a profissão caminhava para o fim.
Ainda assim, seu objetivo era permanecer na função até alcançar a aposentadoria.
Outro exemplo é o de Francisco Rodrigues Lima, que chegou a Brasília há mais de quatro décadas e encontrou no trabalho como ascensorista uma oportunidade para sustentar a família, comprar uma casa e financiar a formação universitária da filha.
Histórias como essas mostram que a discussão vai além da utilidade prática da profissão.
O debate envolve também a transição de trabalhadores que dedicaram décadas de suas vidas a uma atividade que acabou sendo superada pela tecnologia.
Um símbolo da dificuldade do Estado em abandonar estruturas antigas
O caso dos ascensoristas se tornou um exemplo emblemático de como determinadas estruturas permanecem funcionando mesmo após perderem sua razão original de existir.
Enquanto o setor privado se adaptou rapidamente às mudanças tecnológicas, o poder público levou décadas para iniciar um processo de revisão dessas funções.
A reestruturação anunciada em 2025 representa um passo importante nesse caminho.
Ainda assim, especialistas apontam que a mudança ocorreu muito depois de a necessidade prática do cargo ter desaparecido.
Mais do que discutir a utilidade de uma profissão específica, o episódio levanta uma questão maior: quantos recursos públicos continuam sendo destinados à manutenção de estruturas que já não atendem às demandas da sociedade atual?
A resposta para essa pergunta pode influenciar diretamente os próximos capítulos da modernização do serviço público brasileiro.
Fonte: Canal Elementar.
Referências: Lei nº 3.270/1957; dados obtidos via Lei de Acesso à Informação; informações do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI); reportagem do jornal O Globo; levantamento apresentado pelo Canal Elementar.
E você, acredita que o cargo de ascensorista ainda faz sentido em alguns locais ou concorda que essa profissão se tornou obsoleta? Deixe sua opinião nos comentários.


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