Calor extremo já impacta lavouras, pecuária e pesca no mundo; relatório da FAO mostra efeitos diretos na produção global de alimentos.
Em 2025, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) publicou o relatório “Extreme Heat and Agriculture”, dedicado a um fenômeno que deixou de ser apenas climático para assumir caráter estrutural: o impacto do calor extremo sobre os sistemas produtivos. Com base em evidências científicas recentes e estudos de caso em diferentes países, o documento mostra que a maior frequência e severidade desses eventos já afeta diretamente a produção agrícola, a pecuária, a pesca, a aquicultura e os sistemas florestais em várias regiões do mundo.
O relatório deixa claro que o calor não atua isoladamente. Ele funciona como um multiplicador de riscos, interagindo com seca, disponibilidade hídrica, solo e resposta fisiológica de plantas e animais, até o ponto em que a produtividade deixa de depender apenas do manejo e passa a esbarrar no limite térmico dos sistemas biológicos.
Na formulação adotada pela própria FAO, cada cultura, animal e espécie aquática possui uma margem de segurança térmica, e o calor se torna extremo quando ultrapassa esse limiar e começa a impor barreiras físicas reais à produção de alimentos.
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Impactos do calor extremo na produtividade agrícola e rendimento das lavouras
A agricultura é uma das áreas mais diretamente afetadas pelo aumento das temperaturas. Culturas como milho, trigo, soja e arroz possuem faixas térmicas ideais para crescimento e desenvolvimento. Quando essas faixas são ultrapassadas, ocorrem efeitos fisiológicos que reduzem o rendimento.
Entre os principais impactos observados estão:
- Redução da taxa de fotossíntese em temperaturas elevadas
- Aceleração do ciclo das plantas, encurtando o período de enchimento de grãos
- Aumento da evapotranspiração, exigindo mais água
- Estresse térmico durante fases críticas, como floração
Esses fatores combinados podem resultar em perdas significativas de produtividade, mesmo em áreas com manejo adequado. Em cenários mais extremos, o calor pode causar falhas completas na produção.
Além disso, o aumento das temperaturas favorece a proliferação de pragas e doenças, alterando o equilíbrio biológico das lavouras e exigindo novos padrões de controle fitossanitário.
Estresse térmico na pecuária reduz ganho de peso e produção de leite
Na pecuária, o calor extremo afeta diretamente o metabolismo dos animais. Bovinos, suínos e aves possuem limites térmicos bem definidos, e quando esses limites são ultrapassados, ocorre o chamado estresse térmico.
Esse fenômeno provoca:
- Redução do consumo de alimento
- Queda na taxa de crescimento
- Diminuição da produção de leite
- Comprometimento da reprodução
No caso de vacas leiteiras, por exemplo, temperaturas elevadas podem reduzir significativamente a produção diária. Já na pecuária de corte, o impacto aparece na forma de menor ganho de peso e aumento do tempo necessário para atingir o ponto de abate.
Em regiões tropicais, onde as temperaturas já são naturalmente elevadas, o aumento adicional provocado pelas mudanças climáticas intensifica esses efeitos e pressiona a rentabilidade da atividade.
Calor extremo também afeta pesca e aquicultura em escala global
O relatório da FAO também destaca impactos importantes sobre a pesca e a aquicultura, setores frequentemente menos associados às mudanças térmicas, mas altamente sensíveis a elas.
O aumento da temperatura da água provoca:
- Alterações na distribuição de espécies marinhas e de água doce
- Redução de oxigênio dissolvido na água
- Mudanças nos ciclos reprodutivos dos peixes
- Aumento da mortalidade em sistemas de criação intensiva
Esses fatores afetam tanto a captura quanto a produção aquícola, criando instabilidade em cadeias produtivas que dependem de condições ambientais específicas.
Em algumas regiões, espécies tradicionais estão migrando para áreas mais frias, o que altera completamente a geografia da pesca e impacta comunidades que dependem diretamente desses recursos.
Sistemas florestais sob pressão: incêndios e perda de biomassa
As florestas também entram na equação do calor extremo. O aumento das temperaturas, combinado com períodos de seca, eleva o risco de incêndios florestais e reduz a capacidade de regeneração natural.
Entre os principais efeitos estão:
- Aumento da frequência e intensidade de incêndios
- Redução da biomassa e da capacidade de sequestro de carbono
- Alterações na composição de espécies
- Maior vulnerabilidade a pragas e doenças
Essas mudanças afetam não apenas os ecossistemas naturais, mas também a produção florestal voltada para madeira, celulose e outros produtos.
O calor extremo como variável estrutural no agro global
Um dos pontos mais relevantes do relatório da FAO é a mudança de percepção sobre o calor extremo. Ele deixa de ser tratado como um evento pontual e passa a ser considerado uma variável estrutural.
Isso significa que:
- O planejamento agrícola precisa incorporar o risco térmico de forma permanente
- Tecnologias de adaptação ganham protagonismo
- A escolha de cultivares e sistemas produtivos passa a considerar limites térmicos
Essa mudança redefine a forma como o agro opera, exigindo uma abordagem mais integrada entre clima, genética, manejo e tecnologia.
Adaptação tecnológica no campo diante do aumento das temperaturas
Diante desse cenário, diferentes estratégias estão sendo adotadas para reduzir os impactos do calor extremo. Entre elas:
- Desenvolvimento de cultivares mais resistentes ao estresse térmico
- Expansão da irrigação em regiões estratégicas
- Uso de sombreamento e sistemas integrados na pecuária
- Monitoramento climático em tempo real
Além disso, a agricultura digital começa a desempenhar um papel importante, permitindo ajustes mais rápidos e precisos nas operações.
Essas soluções não eliminam o problema, mas ajudam a reduzir perdas e aumentar a resiliência dos sistemas produtivos.
Segurança alimentar global entra em alerta com avanço do calor extremo
O impacto combinado sobre agricultura, pecuária, pesca e florestas coloca em evidência um tema central: a segurança alimentar global.
Com a população mundial em crescimento e a demanda por alimentos aumentando, qualquer redução consistente na produtividade pode gerar efeitos em cadeia, como:
- Aumento de preços
- Pressão sobre mercados internacionais
- Maior vulnerabilidade de países importadores
O calor extremo, nesse contexto, deixa de ser apenas uma questão ambiental e passa a ser um fator econômico e social de grande escala.
Comente: o agro está preparado para lidar com o calor extremo como nova realidade?
O avanço das temperaturas já começa a redesenhar o funcionamento do agro em escala global. O que antes era tratado como exceção agora passa a fazer parte do planejamento produtivo.
Na sua visão, o setor agrícola está preparado para lidar com esse novo cenário ou ainda estamos reagindo a um problema que já virou permanente?

