Dependente quase totalmente de fertilizante de fora, o país aposta numa megamina em Autazes para produzir em casa um insumo do qual o agro não consegue viver sem
O maior agro do mundo tem um segredo desconfortável: depende quase inteiramente de fora para fertilizar suas lavouras. O Brasil importa praticamente todo o potássio que usa, um dos nutrientes essenciais para a soja, o milho e o café, e essa dependência virou um risco estratégico. Agora, uma megamina na Amazônia quer começar a virar esse jogo.
O projeto de potássio em Autazes, no Amazonas, prevê um investimento de US$ 2,5 bilhões e promete reduzir a dependência de importação que tira o sono do agronegócio. A ideia é simples e poderosa: produzir dentro de casa parte do fertilizante que hoje chega de navio do outro lado do mundo, encurtando uma cadeia cara e vulnerável.
O Brasil importa 95% do potássio que usa
O tamanho da dependência assusta. Segundo a AgFeed, o Brasil importa cerca de 95% de todo o potássio que consome, num total de aproximadamente 14 milhões de toneladas por ano, vindas principalmente de Canadá, Rússia, Belarus, Alemanha e Israel.
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Depender desse jeito de poucos países é uma fragilidade enorme para quem alimenta o mundo. Se uma crise trava o fornecimento, a lavoura brasileira fica sem nutriente e a produção despenca. Ser o maior exportador de alimentos e, ao mesmo tempo, refém de fertilizante importado é uma contradição perigosa, e foi ela que colocou o potássio nacional no centro do debate de segurança alimentar.
Uma mina de US$ 2,5 bilhões em Autazes

A resposta está sendo cavada no coração do Amazonas. A AgFeed detalha que o projeto, tocado pela Brazil Potash por meio da Potássio do Brasil, prevê um investimento total de US$ 2,5 bilhões, dos quais cerca de US$ 250 milhões já foram aplicados.
É um dos maiores projetos de mineração de fertilizante já planejados no país. Levar uma operação dessas para o interior do Amazonas exige logística, licenças e muito capital. Apostar bilhões para produzir em casa o que se compra pronto lá fora é o tipo de investimento que muda a matriz de um setor inteiro, e é justamente esse o objetivo da megamina.
20% da demanda já na primeira fase
Os números de produção mostram o alcance do projeto. Conforme o Compre Rural, a primeira fase deve produzir 2,4 milhões de toneladas por ano, o equivalente a cerca de 20% da demanda brasileira, com uma segunda fase capaz de chegar a 5 milhões de toneladas, ou 40% do que o país consome.
Suprir 20% da demanda de cara já seria uma revolução para um país que hoje produz quase nada. E há espaço para dobrar. Sair de praticamente zero para 40% da demanda nacional é o tipo de salto que transforma um importador crônico em produtor relevante, reduzindo a exposição do agro a crises lá fora.
Por que custa muito menos vir de Autazes
A vantagem não é só geopolítica, é de bolso. O Compre Rural aponta que o transporte internacional do potássio custa cerca de US$ 200 por tonelada, enquanto a estimativa de custo logístico da mina amazônica é de apenas US$ 50 por tonelada, aproveitando o transporte por barcaças nos rios da região.
Essa diferença de custo é gigantesca quando multiplicada por milhões de toneladas. Produzir perto de onde se consome corta frete, câmbio e tempo. Quando o transbordo de fertilizante sai quatro vezes mais barato vindo de dentro do país, a conta passa a fazer muito sentido, e é essa economia que pode tornar o potássio nacional competitivo de verdade.
A vulnerabilidade que as crises globais expuseram
A urgência do projeto cresceu com as turbulências mundiais. Boa parte do potássio importado pelo Brasil vem de regiões marcadas por tensões e sanções, o que faz o preço do fertilizante disparar a cada nova crise internacional. O agro brasileiro já sentiu na pele esses solavancos.
Reduzir essa exposição é uma questão de soberania alimentar. Um país que depende do humor da geopolítica para fertilizar suas lavouras está sempre à mercê de fatores que não controla. Trazer a produção para casa é blindar a comida do brasileiro contra guerras e embargos do outro lado do planeta, e esse argumento ganhou força nos últimos anos.
O que ainda falta para sair do papel
Apesar do avanço, o projeto ainda tem etapas pela frente. A AgFeed indica que a produção deve começar por volta de 2029 ou 2030, com a construção dependendo de aportes na casa das centenas de milhões de dólares ao longo de 2026 e da entrada de um sócio estratégico no empreendimento.
Obras desse porte em meio à floresta são complexas e demoram. Cada licença, cada quilômetro de logística e cada rodada de financiamento é um obstáculo a vencer. Entre o anúncio e o primeiro grão de potássio nacional saindo da mina, ainda há anos de trabalho pesado, e o cronograma será o grande teste do projeto.
Empregos e impacto na economia da região

O efeito local promete ser expressivo. Segundo a AgFeed, a fase de construção deve mobilizar, em média, cerca de 2,6 mil trabalhadores, chegando a um pico de 4 mil, num município da Amazônia onde oportunidades de trabalho formal são escassas.
Para a região, a chegada de um projeto bilionário significa renda, serviços e movimento econômico. Uma obra desse tamanho irriga toda uma cadeia local. Levar emprego e investimento para o interior do Amazonas é um impacto que vai muito além do fertilizante, e faz da mina uma aposta também de desenvolvimento regional.
Por que o potássio é estratégico para o agro
No fundo, a disputa pelo potássio é uma disputa por comida. Sem fertilizante, a produtividade das lavouras cai, e menos alimento significa preço mais alto na mesa de todo mundo. Garantir o suprimento desse insumo é garantir a própria capacidade do país de produzir.
A pergunta que fica é se o Brasil vai conseguir, enfim, deixar de depender quase totalmente do potássio importado, ou se a megamina vai esbarrar nos obstáculos que já travaram tantos projetos. Você sabia que o maior exportador de alimentos do mundo precisa comprar de fora quase todo o fertilizante que coloca no solo?
